Teoria da conspiração

A acreditar no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os chineses são responsáveis por esconder informações sobre a pandemia e, com isso, terem disseminado por todo o planeta o flagelo do novo coronavírus. Versões mais extremistas chegam ao cúmulo de propagar que o “inimigo invisível, indesejado e silencioso” foi criado em laboratório para espalhar o terror e a morte. A acreditar no presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, vários países europeus estariam envolvidos numa campanha para se apropriarem das riquezas da Amazônia. Aqui também não faltam as versões mais radicais e absurdas, segundo as quais espiões infiltrados e organizações não governamentais (ONGs) misturam-se à comunidades indígenas, ribeirinhos ou quilombolas para favorecer seus países do outro lado do mar.

A acreditar em ambos os presidentes, os marxistas de esquerda rondam as portas e salas dos institutos de pesquisa e das universidades, dos laboratórios da ciência e das artes em geral, bem como dos escritórios dos meios de comunicação e dos espaços de encontro dos movimentos e entidades populares!… Tudo para imprimir o selo e deixar a marca do comunismo por onde passam. Como alguns personagens célebres de Shakespeare, vivem assombrados com o espectro do que há tempo deixou de existir. Talvez fosse mais apropriado afirmar que, a exemplo dos expoentes das ditaduras militares, temem e são capazes de atirar em tudo o que se move sobre a face da terra. Tanto lá como cá, nas terras de Santa Cruz ou naquelas do Tio Sam, continua em pleno vigor a fatídica e famigerada ideologia da segurança nacional. Em nome desta, persistem a censura, o ódio, o ataque, o controle, a ameaça, a perseguição, a militarização – podendo chegar aos limites da prisão, da tortura e da morte.

Nunca a “teoria da conspiração” esteve tão em voga. Tem servido de instrumento aos políticos de extrema direita, vestidos com as roupas do populismo nacionalista, para se imporem através da cultura do medo. A cada esquina e a cada curva do caminho, o inimigo espreita, na tentativa de implementar o comunismo. Daí a necessidade de semear mentiras sobre mentiras, as quais, ao germinarem desencadeiam tempestades fortemente polarizadas. Razão, ciência e argumentos são substituídos por fake News. E estas são produzidas e difundidas sob o nariz dos senhores de plantão, e pior ainda, pagas com dinheiro dos cofres públicos. Surgem mesmo, pelos corredores e gabinetes de altas esferas do comando, grupos especializados em fabricar e disseminar boatos e inverdades de todo tipo. As redes sociais se prestam a tudo e a todos!

De acordo com eles, e conforme a ânsia doentia de falsificar a realidade dos fatos, os focos de incêndios que devastam o Pantanal e a região Amazônica, por exemplo, são provocados por ninguém menos do que os “indígenas e caboclos”. Na contramão do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ligado ao do próprio governo, dizem também que, no mapa mundial, o Brasil figura como modelo de preservação do meio ambiente. E, conforme o discurso da ONU, pune com firmeza e determinação quem atenta contra a destruição dos ecossistemas! Com essas e outras lorotas, insistem em “passar a boiada” que beneficia o agronegócio, as mineradoras, os garimpeiros e grileiros, em detrimento dos pequenos produtores agrícolas.

Na defesa ou no ataque, a “teoria da conspiração” representa uma arma para polivalente. Se as autoridades internacionais, os cientistas e ambientalistas ou a imprensa trazem à luz o que está oculto debaixo do tapete, é porque todos se encontram impregnadas até a alma pela ideologia marxista. Por outro lado, se o objetivo do capitão bate de frente com os poderes Judiciário e Legislativo, na árdua tarefa de blindar o clã familiar e os amigos partidários, é porque existe alguma manobra orquestrada para derrubar o governo. O diálogo aberto e racional, associado à sensatez e à sabedoria popular, tem seu terreno minado de saída. O “complô conspiratório” serve de única explicação para os fanáticos seguidores do Messias.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 2 de outubro de 2020

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