José: operário e migrante

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Aos 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica, o Papa Francisco convoca o “Ano de São José”, com a carta apostólica Patris Corde (com coração de pai). José é uma figura silenciosa nas narrativas evangélicas. Ao mesmo tempo, porém, aparece sempre como o homem certo, na hora certo para fazer o que é certo. Quando se trata de proteger a família – mãe e filho – lá está ele. Conta com os mensageiros de Deus, anjos que o alertam sobre as maquinações dos “filhos das trevas”. Alertado dos riscos que correm Jesus e Maria, põe-se logo em marcha, fugindo para o Egito ou de lá voltando. Protagonismo no cenário da infância, não há registro de sua presença na vida adulta de Jesus. Pouco se sabe de seu destino. É lícito supor que também ele estaria ao pé da cruz, na hora trágica da morte de Jesus?!…

Tudo indica que se trata de um caráter discreto, até mesmo tímido, homem de poucas palavras e muitos segredos. Vemos nele, ainda, um trabalhador experiente, profissional sério e respeitado. Mais do que carpinteiro, trata-se de uma espécie de saber múltiplo em termos de obras e reparos. Carrega uma sabedoria inata, a qual, em lugar de ações intempestivas frente aos imprevistos da vida (como a gravidez de Maria), prefere o silêncio, a escuta e a espera. Intervêm novamente os mensageiros de Deus, como atores principais, mas é José que toma as providências práticas e necessárias. Os seres alados necessitam dos pés e das mãos habilidosas de José.

Mas o humilde carpinteiro permanece como uma espécie de ator de bastidores. Raras vezes aparece em cena. Hoje diríamos que não parece gostar de holofotes, câmeras e microfones. Como se não se sentisse à vontade no palco, em evidência diante dos espectadores. Menos à vontade ainda no cenário dos acontecimentos que, mais tarde, irão se desenrolar com seu filho adotivo. Se de Jesus se diz que “passou pela vida fazendo bem”, de José teremos poucas notícias. Não faz barulho, como quem caminha de pés descalços, discreta e ocultamente. Silêncio que é sabedoria, e esta, por sua vez, o leva a ouvir os anjos e interpretar os sonhos. Só os profetas, com os olhos da fé, são capazes dessa façanha simultaneamente secreta, misteriosa e histórica!

Os estudiosos da Bíblia, particularmente do Novo Testamento, nos alertam que não podemos olhar para essas narrativas sobre a infância de Jesus como fatos históricos. Constituem antes acomodações pós-pascais ao nascimento do Filho de Deus, isto é, grandioso, misterioso, milagroso. Mas isso não invalida a reflexão sobre a presença eficaz de José nesses relatos. Fictícias ou não, os autores dessas páginas apresentam a figura do “pai adotivo de Jesus” como alguém com um papel secundário, sim, porém de extrema relevância para a sobrevivência da Menino.

Partindo do pano de fundo dos parágrafos anteriores, surpreende o número de pessoas que, no mundo inteiro e ao longo da história, foram batizadas com o nome de José. Desnecessário deter-se em pesquisas para constatar que esse é o nome mais recorrente em praticamente todos os povos e culturas do mundo ocidental. No judaísmo, no cristianismo católico ou protestante e nos movimentos religiosos derivados, José se impõe como nome quase obrigatório de um dos filhos de não poucas famílias. Mesmo entre os que recebem outro nome de pia, muitos tratam de intercalar o José como intermediário entre nome e sobrenome.

A surpresa é ainda maior se nos detemos sobre determinadas manifestações da devoção popular a São José. É sem dúvida uma das mais disseminadas no universo católico. No nordeste brasileiro, por exemplo, o dia do santo, a 19 de março, constitui, ao mesmo tempo, um marco para a carência ou a abundância de chuvas e, consequentemente, um marco para o novo plantio. De acordo com uma crença popular bastante generalizada, se a estiagem se prolongar além do São José, o ano tende a ser pobre em feijão, milho, batata, mandioca, inhame, etc. Chuva no “São José” (19 de março) significa milho no “São João” (24 de junho). Por outro lado, não são poucos os religiosos e os sacerdotes que, respectivamente, fazem sua profissão perpétua, ou se ordenam presbíteros, exatamente nesse mesmo dia.

Como explicar essa dupla homenagem a São José? Implícita ou explicitamente, é fácil identificar-se com o José dos Evangelhos. Na sociedade do espetáculo (Guy Debord) em que vivemos e nos movemos, são poucas as estrelas e incontáveis os planetas. Algumas pessoas se destacam e brilham com luz própria, mas a imensa maioria apenas reflete o brilho dos astros mais eminentes. O culto ao corpo e à celebridade se difunde juntamente com a exacerbação do subjetivismo e do individualismo. Porém, raros são os senhores Fulano, Sicrano ou Beltrano, e mais raras ainda as beldades, princesas. A tirania do prazer ou o império do efêmero (para usar expressões de Jean-Claude Guillebaud e Gilles Lipovetsky), só é possível graças a dezenas, centenas ou milhares de coadjuvantes. Estes são os Josés, inúmeros e desconhecidos, com o sobrenome de Silva, Souza, Santos, Oliveira, Gonçalves, e assim por diante.

No entanto, é preciso estar atento às pérolas ocultas por trás das mãos calejadas, dos rostos impenetráveis e das almas rudes desses Josés. Mais do que apoiar-se no sucesso momentâneo e fugaz, sempre enganoso, eles seguem com os pés firmes no cotidiano, ainda que cheio de surpresas e adversidades. Mais do que colher as luzes de espetáculos fulgurantes e efêmeros, eles procuram lançar sementes no solo úmido e escuro da terra. Mais do que explodir rojões que sobem e iluminam os céus, mas com a mesma rapidez descem e viram cinzas, eles acreditam que as mudanças se erguem do chão, através de pequenos gestos de solidariedade.

Há, contudo, um segredo ainda mais misterioso, um tesouro escondido, ao qual esses Josés costumam ter acesso imediato. Sabem pela experiência que a felicidade duradoura não está no sucesso, no dinheiro, na conta bancária, nos privilégios, nos títulos, no patrimônio acumulado – mas numa prática diária e perseverante do bem. Surfar sobre a onda dos sucessos equivale a surfar nas depressões dos fracassos. Uns são diretamente e alternadamente proporcionais aos outros. Expectativas inflacionadas, tal como os balões de ar, murcham com facilidade e geram frustrações igualmente infladas. Todo domingo de festa, regado a comida, bebida e embriaguez, é seguido de uma segunda-feira de ressaca. Se a cruz aponta para a ressurreição, esta supõe aquela.

Os Josés evitam os saltos de lebre. Preferem o passo lento e firme da tartaruga ou do jumento, nosso irmão, diria o nordestino. Depositam sua confiança não nos pulos em falso, no balão inflado da ilusão, mas num caminhar laborioso, regular e persistente. Sabem como extrair alegrias miúdas de uma palavra, de um olhar, de um gesto, de uma visita, de um sorriso, de um beijo, de um abraço, de um toque… E sabem que é nessas mínimas coisas que reside uma felicidade menos volátil e mais sólida. Aprendem a tirar água de pedras, a colher flores no deserto estéril, a acender uma vela no meio da escuridão. Raramente se deixam levar pela aparência de grandiosidade, desconfiam dos passos largos. Mais ainda: desconfiam da própria energia, colocando-se nas mãos de uma força que desconhecem, mas em que crêem.

Normalmente não sobem muito alto, mas tampouco ficam expostos a quedas bruscas. Mais facilmente descem ao coração da terra e das coisas. Suas palavras costumam ser poucas e parcimoniosas, mas mergulham as raízes na realidade oculta e profunda. Sim, palavras de raízes! Os ditos populares, ricos e concentrados, nascem, crescem e cruzam as encruzilhadas do mundo com a persistência dos Josés. São diamantes lapidados com sua experiência oculta e silenciosa. A própria palavra “José”, concentrada e valorizada como moeda preciosa, percorre as famílias, os povos e as culturas.

José não deixa de ser, também, a fisionomia da migração. Esta, de fato, põe em marcha uma grande quantidade de Josés. O próprio “pai adotivo” de Jesus, esposo de Maria, é testemunha disso. Um novo olhar aos Evangelhos basta para dar-se conta de como ele, primeiro, por causa do recenseamento, sobe de Nazaré, na Galileia, a Belém, na Judeia, lugar em que se completam os dias de Maria e ela dá á luz um numa manjedoura, “pois não havia lugar para eles”; depois de nascido o menino, empreende a fuga para o Egito, protegendo o recém-nascido da fúria e perseguição de Herodes; dessa terra estrangeira, retorna à própria pátria, quando a tormenta já tinha se acalmado; por fim, ao longo da vida, quantas vezes terá se deslocado por causa desse Filho “rebelde”, o qual insistia que “o seu Reino não era deste mundo”!

Não é essa a trajetória de inúmeros migrantes? De tribulação em tribulação, de fuga em fuga, de sonho em sonho, de busca em busca… Sempre perseguindo o futuro, e este como que sempre lhes escapando entre os dedos. Josés, milhões de pessoas sem terra nem lugar, sem rumo nem pátria… Josés a caminho! Josés que, por sê-lo, vivem inquietos e irrequietos. Rompem obstáculos e fronteiras, abrindo com os ombros curvados os horizontes de um novo amanhã. É nome comum de um povo acostumado à estrada. Não costuma figurar entre as famílias milionárias, nobres e aristocráticas, assentadas solidamente sobre suas fortalezas e suas jazidas de ouro e prata.

Josés, com efeito, são pessoas pouco vinculadas a castelos e fazendas. Normalmente habitam tendas. Conhecendo de perto a transitoriedade e a provisoriedade dos bens terrenos, desenvolvem a natureza ambígua das riquezas: ou se agarram ao pouco que possuem, lutando com unhas e dentes para ter mais, ou amadurecem um despojamento que os torna mais leves e livres. Neste último caso, José aprendeu a lição de depurar a mala e a alma, para caminhar com um fardo menos carregado de coisas supérfluas. O brilho aparente esconde a corrupção interna.

Ao contrário daqueles que nascem em berço de ouro e a ele se agarram, os Josés, e entre estes os migrantes em especial, tendem a maior abertura quanto ao futuro. Preparam-se para as surpresas do destino pessoal e coletivo. Particularmente em momentos de crise e tempestades, enquanto os que moram em castelos e fortalezas correm a se abrigar no berço dourado e saudoso da infância, os Josés costumam ser impelidos para a linha da fronteira, a encruzilhada. Os primeiros, com o coração preso aos tesouros acumulados, lutam a todo custo para mantê-los; os segundos, de mãos calejadas, avançam sobre as vicissitudes que lhes reserva a existência.

Tendem, portanto, a rasgar veredas novas, a se aventurarem por desertos áridos, pois nada têm a perder. Das duas uma: ou se imobilizam pelo medo ou angústia da miséria já experimentada na carne e na alma, agarrando-se mesquinhamente a qualquer migalha; ou se lançam intrépidos à luta por algo novo e diferente. Neste caso, a coragem lhes é praticamente inata. Mas com muita raridade terão seu nome gravado nos jornais. Em geral não são mártires abatidos a tiro, de nome no calendário, de folha na parede. Vivem, antes, um martírio de gota a gota, passo a passo, miúdo e diário, onde uma travessia dura e teimosa substitui as ações vistosas, sensacionais e espetaculares. Espera-os, sim, o martírio anônimo do cotidiano: não o verniz de uma aparência para “inglês ver”, mas uma coroa com que só o Pai pode recompensar.

São Paulo, 19 de março de 2021

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