Irmã Ana, por que retornar?

Comunidade intercongregacional da CRB na diocese de Pemba, Moçambique, é sinal de partilha dos carismas na missão

Irmã Ana com o grupo que confecciona terços e pulseiras

Por Edegard Silva Júnior *

Estava em Brasília, na 24ª Assembleia Geral da CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil – quando aconteceu o envio de três religiosas para a abertura de uma nova comunidade intercongregacional na Diocese de Pemba. Era o mês de julho 2016. Entre elas, estava a Irmã Ana da Glória, da Congregação das Franciscanas Penitentes Recoletinas. Nos mistérios de Deus, nunca imaginei que passados alguns anos iríamos nos encontrar aqui em Moçambique.

Na dinâmica da CRB, formar uma comunidade intercongregacional não é uma novidade. Este jeito de viver e fazer missão vinha acontecendo no Timor Leste, no Haiti e na Amazônia. Confesso como religioso, que fico triste porque nós os homens consagrados, ainda não tivemos a coragem de dar este passo. As mulheres mais uma vez, foram à frente, tal qual no Evangelho. A realidade da missão hoje nos desafia.

A beleza desta vivência intercongregacional reside em mostrar onde está o foco da nossa consagração. Está Naquele que nos chama e nos envia em missão. Os demais “acessórios” quando necessários, serão utilizados. Por hora, basta o Evangelho…

Aliás, lá do céu, nossos fundadores e fundadoras devem “orgulhar-se” de quem teve a coragem e a ousadia em formar comunidade com diferentes congregações.

Um parêntese para nós, Vida Religiosa: se é desafiador viver em comunidade formada por nossa própria família religiosa, imaginem como é quando isso envolve diferentes famílias. Mas acima das nossas Constituições, a Palavra de Deus nos garante: “Para Deus nada é impossível”!

Outro parêntese quando encontramos a comunidade intercongregacional, brincamos dizendo que elas garantem três festas ao ano: a presença de cada congregação, é certeza de festa no dia da fundação de cada uma delas, temos ao menos três bolos para gente partilhar e se alegrar!

Para além deste retorno e das motivações que levam estas mulheres guerreiras a formarem comunidades intercongregacionais, voltemos ao ‘retorno da Irmã Ana’…

Irmã Ana, por que retornar?

Retornar porque a missão não é nossa. A missão é de Deus! A vida é missão! Retornar para com seu testemunho junto à CRB, animar outras religiosas a dar este passo que aponta para o futuro da missão na Vida Religiosa.

Retornar ao Brasil para, distante doze mil quilômetros de Moçambique, com dois oceanos que nos separam, nos fazer sentir saudade uns dos outros. Feliz de quem parte e deixa em nossos corações o desejo de rever-nos e a vontade do abraço que aprendemos a chamar de “matar a saudade”.

Não se assuste: “tem que ir mesmo”! Hoje, tu, amanhã, cada um de nós que aqui estamos. Dom Luiz Fernando Lisboa, nosso Bispo, tem a graça de reunir nesta Diocese, missionários e missionárias de 22 países, mostrando assim o rosto da Igreja missionária.

Assim é a Vida Religiosa: chamada neste mundo a armar tendas e levar uma vida itinerante. A firmar bem as estacas e armar suas barracas, mas não ter o receio de partir, quando é chegada a hora.

A “hora” é um processo doloroso. Doloroso como foi para Jesus. A comunidade Joanina tornou a “hora de Jesus” como elemento teológico. Esta hora é o encontro do “cronos” com o “kairos”…

Retornar ao Brasil, para daqui enviarmos as notícias esperançosas desta sofrida terra. Aguarde, Irmã Ana (e nós também), a boa nova de que em Cabo Delgado a paz voltou. De que as riquezas desta terra estão sendo partilhadas entre os moçambicanos.

Para além do fim da guerra, chegará também a notícia de que as mulheres a quem acompanhavas, conquistaram seus direitos e vivem de forma humana. Que as crianças conquistaram o direito de ser criança com condições dignas de frequentar a escola.

A vida é Missão

Esta partilha, Irmã Ana, será uma estrada de mão dupla… Ficaremos à espera de notícias esperançosas do Brasil. Terra vermelha, cor de brasa – daí o nome “Brasil”.

Não demore, Irmã Ana, para nos enviar notícias de que os pobres do nosso país estão sendo respeitados. Que retornamos às praças e avenidas para gritar: “nenhum direito a menos”.

Irmã Ana, daqui também ficaremos à espera de que o Brasil tenha um olhar de reconhecimento do povo negro. Passados cinco séculos, os afro-descendentes em nosso País, que foram arrancados da África e levados à força nos navios negreiros, continuam acorrentados pelos modernos grilhões e navios escravagistas. Que o mundo inteiro possa gritar: vidas negras importam!

Por enquanto, leve as lembranças aqui vividas no distrito de Ancuabe, na pequena Aldeia de Silva Macua em Cabo Delgado. Boa viagem! Bom retorno! Nos espaços por onde passares fale com sua vida que, embora o Brasil tenha grandes necessidades da nossa presença, a VIDA É MISSÃO.

* Pe. Edegard Silva Júnior, missionário Saletino em missão na Diocese de Pemba, Moçambique

Celebração da Palavra com a comunidade

Irmã Ana com a equipe de agentes da Pastoral da Criança

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