Arcebispo de Porto Alegre faz apelo dramático: A acolhida ao imigrante é questão evangélica

Comentários preconceituosos e discriminatórios em relação a imigrantes que chegam ao Sul do Brasil preocupam o Arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Spengler

Por Rosinha Martins | 29.07.14| O arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Spengler, manifestou tamanha preocupação em relação à acolhida aos africanos e peruanos que nas últimas semanas tem chegado em grande escala nas cidades do Sul do Brasil.

No programa a  “Voz do Pastor”, da Rádio Aliança de Porto Alegre, dom Jaime chamou a atenção da população  sobre a questão da migração  atual e fez memória da história da imigração europeia para o Brasil recordando que como os peruanos e africanos que agora precisam de acolhida, no passado os europeus viveram a mesma situação.

“Nestas últimas semanas temos sido informados a respeito da situação dos migrantes que estão chegando ao nosso estado do Rio Grande do Sul. São haitianos, peruanos, senegaleses, ganeses, entre outros. Trata-se de uma realidade difícil e desafiadora” disse dom Jaime.

O Arcebispo lembrou que  para o imigrante é um realidade difícil porque, marcados pelos sonhos de uma vida melhor para si e para os seus, trazem consigo nada mais que esperança.”Eles não  sabem o que encontrarão, e se encontrarão humana acolhida. Buscam um “mundo melhor”, afirmou.

 Imigrantes europeus precisaram  de acolhida no Sul e em outros Estados do Brasil

Descendente de  imigrantes alemães, dom Jaime recorda à população que esta mesma busca dos imigrantes de hoje, orientou os antepassados europeus que deixaram a Europa em busca da sobrevivência e, assentados no Sul, precisaram de acolhida, também,  em outras regiões do país. “Em um passado não muito distante, tantos gaúchos partiram em direção ao Oeste de Santa Catarina, ao Paraná, Mato Grosso, Goiás, em busca de terras, onde pudessem desenvolver a atividade agrícola, construir novas possibilidades de vida. Tal realidade contribuiu para o desenvolvimento do Brasil. Ousadia, coragem, determinação marcaram e marcam a vida tanto destes como daqueles. Não se pode esquecer que ambas as realidades foram também marcadas por rejeições, discriminações, explorações de todo tipo, dores e mortes”, acrescentou.

Para dom Jaime, apesar das dificuldades e dos riscos que sempre precisam ser considerados, a confiança e a esperança estão na base das migrações, o sonho de uma vida digna  para si e os seus dá, ao migrante,  coragem e forças para partir em busca do novo.
Sobre este “novo”, fez alusão ao documento do Papa Paulo VI, Populorum Progressio, n.06:  “Novo que significa ‘ser liberto da miséria, encontrar com mais segurança a subsistência, a saúde, um emprego estável; ter maior participação nas responsabilidades, excluindo qualquer opressão e situação que ofendam a sua dignidade de homens; ter maior instrução; em uma palavra, realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais…”

“Expressões preconceituosas e discriminatórias  significam falta de compreensão da questão”

De acordo com o arcebispo, o fenômeno da globalização tem favorecido maior interdependência e interação entre as nações, entre os povos, entre as pessoas, o que, por outro lado pode ser danoso ao ser humano. “Ao mesmo tempo corre-se o risco de favorecer uma cultura do descartável, que chega a considerar pessoas como “resíduos” e “sobras”, em detrimento de uma cultura do encontro, da acolhida, da misericórdia”.

Ao final da mensagem dom Jaime tocou na situação concreta da falta de acolhida de  peruanos e africanos nas cidades do Sul e demonstrou indignação em relação ao modo como parte da população tem recebido estes estrangeiros. “Em se falando do fenômeno migratório que estamos presenciando, causa estranheza observações genéricas de caráter, por vezes, preconceituosas e discriminatórias. Há quem afirme que os migrantes que estão chegando até nós sejam delinquentes… Este tipo de observação célere é, certamente, expressão de falta de compreensão da questão. Generalizar é ir muito além do razoável”, frisou.

 Serviço de atendimento aos migrantes: Sinal do Reino

Dom Jaime  não deixou de mencionar os sinais do Reino presente no trabalho realizado por algumas entidades  que se dedicam ao atendimento dos migrantes, refugiados, apátridas, vítimas do tráfico de pessoas, estudantes e trabalhadores itinerantes. “Trabalho meritório e nem sempre conhecido e reconhecido. Trabalho marcado pela acolhida e apoio humano, alimentação, vestuário e encaminhamentos legais. Expressões de respeito humano e caridade cristã”.

 A acolhida é questão evangélica

A mensagem foi concluída por dom Jaime com uma afirmação categórica. “O migrante é pessoa humana! Como diz o Papa Francisco, acolhê-lo pode ser visto como “uma oportunidade que a providência nos oferece para contribuir na construção de uma sociedade mais justa, de uma democracia mais completa, de um país mais inclusivo, de um mundo mais fraterno e de uma comunidade cristã mais aberta, de acordo com o Evangelho”. Leia mensagem na integra.

Ouça a mensagem de dom Jaime.

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*Dom Jaime Spengler é catarinense, arcebispo de Porto Alegre, bispo referencial para a Vida Religiosa Consagrada do Brasil, pela CNBB,  membro da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada,  nomeado em março de 2014, membro da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, do Vaticano.

 

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