A vida é missão: Não te esqueço, Angola!

A experiência na missão além-fronteiras marca de tal modo as pessoas que fico sempre a me perguntar o que se passa, de fato, no seu interior, tanto na “escuta do chamado”,  a inserção na missão, e também o depois, no retorno ao país de origem,  caso aconteça, por decisão pessoal ou do Instituto a que pertence. Eu vivo isso!  É muito presente a realidade, o desejo que  os trabalhos avancem,  que haja sempre missionários e missionárias para prosseguir o caminho.  Logo que retornei de Angola,  tudo me reportava à missão. Não passava um dia sequer sem recordar e até sem me dar conta,  em qualquer assunto,  vinham as histórias, os fatos, quase sempre ligando ao que estava vivendo no momento. Angola continua no meu coração.

O início de tudo

Desde quando a Madre abriu o voluntariado convidando Irmãs para missão de Angola, no início, (1981) desejei  dar o meu sim, porém,  nas circunstâncias da época, não me candidatei, por não ter possibilidade, devido ao trabalho que assumira na Diocese de Foz do Iguacú(Pr).

Em 1984 aconteceu nosso I Capítulo Geral. Um momento marcante na vida da nossa Congregação, quando elaboramos as Constituições e o Senhor me pediu a missão de participar do Conselho Geral. Como primeira experiência de um governo geral eleito,  não foi tão simples a caminhada e após uma pequena crise, não vocacional mas institucional, em 1986,  rezei, me orientei e decidi renunciar a todas as responsabilidades do momento: Conselho Geral, coordenação da Equipe Vocacional e Equipe de Formação. Permaneci apenas como coordenadora da Comunidade São José (Ipiranga – São Paulo).  Recordo-me muito bem que o maior desejo era viver plenamente a vida consagrada, dar tudo de mim na pastoral da Paróquia Nossa Senhora de Sião e estar com essas funções não me davam serenidade  devido aos conflitos na direção geral.

No final de 1986, nossa Comunidade recebeu a visita  conselheira Ir. Olinda Correia.  Percebi nela uma preocupação com a minha vocação,  pois até o momento não tinham entendido minha decisão. Pensava que estava em crise vocacional. Um tanto ansiosa ela me fez a pergunta: “O que você vai fazer em 1987?”. Surpreendida pela pergunta dei imediatamente minha resposta.  “O que farei, Ir. Olinda? Não estou na Vida Consagrada para fazer minha vontade. Estou  pronta para o que a Congregação me pedir, seja na Itália, na Angola ou continuar aqui”. 

Passado um breve tempo a Madre me telefonou perguntando: “Você disse a Ir. Olinda que está pronta ao que lhe pedir,  inclusive ir para Angola. Confirma isso?” Minha resposta foi pronta e serena. Ela completou: “Então prepara os documentos que precisamos de você na Missão de Angola”. 

Preparação à missão

Após o telefonema da Madre experimentei uma grande paz e  iniciei imediatamente a preparação dos documentos, fazer o passaporte e providenciar o necessário  Busquei também intensificar a vida de oração. Comuniquei à família e no fim do ano, fui visitar meu pai.  Percebi que andava pensativo e triste e um dia minha madrasta, no café da manhã,  perguntou a ele: “Posso dizer a Inês o que você me falou ontem a noite?”. Com a resposta afirmativa, ela continuou: “Seu pai disse ontem, como uma filha tão querida,  tem coragem de ir tão longe e deixar um pai tão velho?”  Após um sofrido silêncio de todos, com um grande nó na garganta, falei: “Papai, se o senhor tivesse optado pela vida consagrada e num dado momento vem o apelo de Deus para uma missão mais desafiante o que o senhor faria”? E fui elencando as razões e motivações para o meu “sim”. E ele,  muito emocionado, falou com voz incisiva e forte: “Vai minha filha que daqui o pai reza”!

Tudo preparado, documentos prontos,  visto da embaixada de Angola, passagem comprada. Antes de ir, fiz o Retiro da Congregação, em janeiro de 1987 e a frase bíblica que marcou o retiro foi “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só; mas se morre, produz muito fruto”(Jo 12, 24).

Outro fato me marcou antes de ir. Como estava tudo pronto e a viagem que seria em março, a Madre perguntou  se desejava algo, já que devia esperar todo esse tempo.  Com um pouco de receio apresentei o desejo, se fosse possível, participar da Escola para Religiosas que aconteceria, naqueles dias, no Centro Mariápolis.  Entendia que era uma despesa não prevista, após tantos gastos na preparação da missão. Ela permitiu e foi um tempo de graças para reforçar a opção pela missão “ad gentes”.

Com os pés e o coração em Angola

Mesmo sem preparação para missão além fronteiras, pensava. Não vou levar nada de material pastoral,  subsídios, livros. Primeiro quero colocar os pés na realidade, conhecer as pessoas, conhecer a cultura,  envolver-me na pastoral. O único material que levei foi minha Bíblia e um caderno do Curso Bíblico que tinha feito, recentemente, com Frei Carlos Mesters, OCarm,  que por sinal foi riquíssimo.

Quando cheguei, encontrei duas  Irmãs e 12 jovens que desejavam ser Mensageiras. Estavam em duas casas (Bairro Acadêmico e Baixa). Me  informaram que as Irmãs estavam na casa da Baixa para “cuidar da casa”, a pedido de uma família portuguesa. Mais que depressa encaminhei a devolução dessa casa para cuidar exclusivamente da nossa Comunidade,  pois a Madre me encarregou de conhecer as jovens e verificar as motivações e condições de serem admitidas ao aspirantado.  Já estávamos há cinco anos e não tínhamos iniciado a formação.

Na visita que fiz ao Arcebispo, Dom Francisco Viti, logo que cheguei, ele me disse que “o trabalho que eu tinha em Angola era recuperar a casa da Caála”.  O destino das Irmãs Mensageiras do Amor Divino, em Angola, foi do Município da Caála e saíram em 1985 pela insegurança causada pelos constantes ataques.  Não entendi bem o pedido do Arcebispo,  mas me empenhei, com grande dificuldade e recuperamos a casa que no momento estava com o Comissário (prefeito) que residia no Huambo e usava nossa casa como escritório particular.  Eram tempos muito difíceis! Conseguir um pouco de combustível para ir a Caála era uma ginástica.  Depois de idas e vindas, recuperamos a casa e para lá foi imediatamente a Sra Faustina, que trabalhava na Casa Paroquial, até que as Irmãs pudessem mudar.

Uma bomba sobre as MAD

Apenas três meses após minha chegada o Arcebispo me chamou. Atendi sua chamada com o coração aberto, cheio de esperança. Pensava que iríamos conversar o que ele esperava da Congregação, de mim, que acabava de chegar na missão. Para nossa surpresa e sofrimento ele disse que devíamos voltar ao Brasil considerando que éramos muito novas, sem experiência e que devíamos solidificar mais no país de origem e mais tarde pensar na missão sem fronteiras. Mas sabíamos que havia um plano de passar “as jovens e o nosso pobre patrimônio” a uma sonhada fundação da nossa própria colega, Ir. Maria da Cruz Domingas. 

O Senhor me deu força e após rezar muito e consultar,  fui até o Arcebispo dizendo que a Missão foi aberta pelo Arcebispo anterior, Dom Manuel Franklin e a Madre Fundadora e que ela deveria vir para encerrar, caso fosse essa a Vontade de Deus.

Três meses se passaram e a noticia foi um choque violento à Madre que foi parar no hospital. A partir desse tempo ela adquiriu a diabetes.

Realmente aconteceu o que o próprio Arcebispo afirmou quando presidiu a Primeira Profissão das três primeiras Angolanas, em 1990. “Esta Profissão está acontecendo porque o Espírito Santo não nos deixou errar!”.

Com a alteração da glicemia o médico proibiu a Madre de viajar e só foi possível três meses depois. Que espera dolorosa! Que tempo de purificação! Exatamente nessa experiência,  entendi o porque a Palavra de Deus me tocou profundamente no Retiro em 1987:  “Se o grão de trigo ao cair na terra, não morrer, fica só. Se morrer, dará muito fruto”(Jo 12, 24).

O grão de trigo germinou!

O Senhor desejava nos purificar, nos preparar para, de fato, sermos missionárias, Mensageiras do Amor Divino em terras angolanas. Ele próprio preparou os caminhos, nos conduziu.  Logo depois da visita da Madre, setembro de 1987,  a missão foi avançando. Iniciamos o Aspirantado com as quatro primeiras  jovens que estavam mais preparadas e dispostas: Cecília Navange, Amélia Jamba, Martinha Félix Cassinda, Zeferina Cavava. 

A missão continuou, não sem dificuldades, que não vamos descrever para não nos alongarmos muito. Certo é que o Senhor quis e quer que o Carisma do Amor Divino crie raízes em terras angolanas.

Tive a graça de participar dessa bela história. Entendo agora  porque a gente não esquece a missão além-fronteiras: O amor e a dedicação com os quais nos lançamos!  A dor e os sofrimentos  nas desafiantes missões além-fronteiras são marcas profundas que não se apagam. E tudo o que é vivido e assumido com ardor e  total disponibilidade não deixa marcas de insatisfação, frustração ou desilusão. Permanece o aprendizado, a gratidão e a saudade.

Louvo ao Senhor pela graça de ser Missionária em Angola. Possivelmente ficaria muito tempo se não fosse eleita Superiora Geral, tão logo viajei ao Brasil, para o II Capítulo Geral Eletivo, em agosto de 1990.

O Senhor me chamou! O Senhor me fortaleceu! O Senhor me cuidou!

Se o coração não arde,  os pés não andam!

 

Ir. Maria Inês Vieira Ribeiro, mad

Brasília, 24 de outubro de 2021

Dia Mundial das Missões

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