“A atividade política é a mais nobre de todas as atividades”. Bate-papo com dom Jaime Spengler

Por Rosinha Martins| 17.08.2015| Esta é uma expressão do Papa Francisco parafraseada pelo arcebispo de Porto Alegre e presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, da CNBB, dom Jaime Spengler, que  por ocasião de sua visita à sede da CRB Nacional – Conferência dos Religiosos do Brasil,em entrevista à assessoria de comunicação, versou sobre a sua eleição para presidente da Comissão, fez um balanço do Ano da Vida Consagrada e opinou sobre o contexto sócio-político pelo qual está passando o país. Leia a íntegra da entrevista.

O que significou para o senhor a eleição para presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada?

Dom Jaime – Quando durante a última Assembleia começou a surgir o nome como candidato para a Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, realmente fiquei surpreso. Na Igreja estamos a serviço, não nos pertencemos! Quando assumimos acolhemos o ministério ordenado no seio da comunidade de fé, nos colocamos a serviço da mesma.

 Essa eleição significaria uma confirmação da sua paixão pela Vida Consagrada?

 Dom Jaime – Gosto do que sou: um consagrado e também ministro ordenado. Ousaria dizer que nestes tempos de mudança de época, seria conveniente que nós consagrados e ministros ordenados não tivéssemos receio de confessar em público que gostamos do que somos e amamos o que fazemos. Isto poderia servir de auxílio para a promoção vocacional!

 O senhor continua como bispo referencial para a Vida Consagrada do Brasil.

Dom Jaime – Definimos que cada um dos Bispos que pertence à Comissão fosse referencial para um setor. Assim Dom José Palau é o Bispo referencial para a OSIB e a Animação Vocacional; Dom Francisco Salm acompanhará os diáconos; Dom Joarez S. da Silva será o referencial para os presbíteros; e eu como já vinha acompanhando a Vida Consagrada, que continuasse nesse serviço.

Que lugar ocupa a Vida Religiosa dentro da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada?

Dom Jaime – A Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, abrange essa parcela bonita do Povo de Deus e que possui, sim, um lugar distinto no seio da comunidade fé.  Não podemos pensar a obra da evangelização como tal sem a presença, engajamento, cooperação, participação dos consagrados. A Vida Religiosa com suas expressões marcou e marca a história da evangelização no Brasil. Há também uma grande abertura para ir ao encontro de outras terras, onde religiosos e religiosas brasileiras desenvolvem a obra da evangelização. Vale recordar a presença atual no Haiti, onde em meio às consequências trágicas do terremoto recentemente sofrido, religiosos e religiosas, através de um trabalho simples, discreto e eficaz testemunham o Evangelho do Crucificado-Ressuscitado. Há também as diversas formas de presença de missionários e missionárias brasileiras na África. Constatam-se também formas de cooperação no Velho Continente. Tudo isso diz do imenso trabalho que os Consagrados, e mais intensamente os religiosos e religiosas, desenvolvem em tantos lugares. Creio que esses sinais eloquentes apontam para um lugar próprio da Vida Religiosa dentro de nossa Comissão.

Que balanço o senhor faz do Ano da Vida Consagrada na Igreja do Brasil?

 Dom Jaime – Está sendo uma oportunidade privilegiada que nos ofereceu a Igreja através do Papa Francisco, para que a Igreja como tal celebrasse a grandeza e a dignidade própria da Vida Consagrada. Certamente vivemos uma mudança de época que está trazendo para todos nós enormes desafios – também para a Vida Consagrada. Creio que este Ano da Vida Consagrada  representa um tempo privilegiado para que a mesma possa  estudar o seu núcleo identitário, rezar sua dignidade e situação, e através do diálogo entre irmãos e irmãs buscar compreender, entre os sinais dos tempos, o que dela se espera. Caminhando por várias regiões do nosso Brasil vemos os consagrados empenhados na  celebração deste ano, que abrange estudo, oração e diálogo entre irmãos e irmãos. Concluindo diria que o Ano da Vida Consagrada é uma oportunidade para cultivar e desenvolver com vigor a obra do discernimento.

 Como o senhor avalia o momento político que estamos vivendo?

 Dom Jaime – Gostaria de resgatar aqui um pensamento do Papa Francisco quando diz que ‘a atividade política é a mais nobre das atividades humanas, porque se ocupa com o bem comum’. Certamente este momento que estamos vivendo é expressão do descuido de alguns pelo bem comum. Este descuido produziu esta situação que estamos experimentando, e que preocupa. Estamos cansados, senão exaustos de ouvir falar em corrupção e falta de cuidado pela coisa pública.

O País é considerado a 7ª economia do mundo e no entanto, as desigualdades sociais e econômicas no Brasil são enormes; a discrepância grita, as contradições são exorbitantes. Há anos estamos ouvindo dizer que precisamos fazer o ‘bolo crescer’ para depois reparti-lo. No entanto os pobres continuam esperando, continuam sendo marcados pela miséria. A exclusão cresce, adquirindo inclusive expressões novas e sofisticadas. Num passado não muito distante falava-se da necessidade de reforma política, de reforma da previdência social, de reforma econômica; nenhuma delas avançou! Não sou especialista no assunto, mas parece-me que temos um estado caro e ineficiente.

Neste contexto vivemos um momento crucial da nossa história onde nós como povo – e povo bom! –  trabalhador, honesto, marcado pela esperança precisa de alguma forma se posicionar. É preciso rever e pensar o futuro. E devemos fazê-lo marcados pela esperança. Santo Agostinho dizia que a esperança tem duas filhas: a indignação e a coragem. A indignação diante daquilo que precisa ser mudado e a coragem para mudar o que deve ser mudado. Talvez nesse momento da história sócio-político-econômica brasileira, pudéssemos repetir aquilo que o Papa dizia à nossa juventude no Rio: “Não permitamos que nos roubem a esperança de juntos podermos construir um país melhor para os nossos filhos e netos, mas não esqueçamos que a esperança tem duas filhas: a indignação e a coragem”.

 

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