No início da terceira e última semana de trabalhos sinodais, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o cardeal Schönborn, arcebispo de Viena; o bispo de Rieti, dom Pompili; Pe. Dario Bossi, provincial dos Missionários Combonianos no Brasil; e a representante do grupo étnico Sateré Mawé, no Brasil, Marcivana Paiva.

“Com este Sínodo, o Papa Francisco quer despertar a consciência de toda a Igreja sobre o destino dos povos indígenas da Amazônia, que há 500 anos vivem sob ameaça de extinção. Os missionários serviram a essas populações, mas a situação permanece dramática.”

O arcebispo de Viena, na Áustria, cardeal Christoph Schönborn, na coletiva na Sala de Imprensa da Santa Sé esta segunda-feira (21/10) sobre o Sínodo para a Amazônia, admitiu que jamais esteve na região, mas como padre sinodal “aprendeu muito sobre a coragem dos povos indígenas”.

“Nós como herdeiros das potências coloniais devemos estar muito atentos e conscientes do que significa para estes povos encontrar-se em risco de extinção. O Papa nos pede para prestar atenção a quem não tem voz, aos povos e aos pobres esquecidos”, ressaltou.

Em Viena 180 diáconos permanentes
O ex-aluno do teólogo Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, e colaborador de São João Paulo II, recordou aos jornalistas ter falado na Sala do Sínodo sobre a experiência da diocese que guia há 21 anos.

“Em Viena temos 180 diáconos permanentes, em sua maioria casados. Uma experiência nascida graças à intuição de meu predecessor cardeal König, que colocou em prática uma das novidades trazidas pelo Concílio Vaticano II”, destacou.

“Hoje nossos diáconos permanentes prestam serviço em paróquias, nas comunidades, nas Caritas e também nos cárceres. O diaconato permanente pode ajudar realmente a pastoral na Amazônia”, observou o purpurado.

Schönborn: toda a Igreja é corresponsável pela Amazônia
Para o cardeal Schönborn, outra ajuda à Igreja na Amazônia pode vir de uma mais equânime “distribuição do clero”. A Colômbia – foi o exemplo que deu – “tem mais de 1200 padres nos EUA, no Canadá e na Espanha. Se ao menos uma parte pudesse transferir-se para a Amazônia seria uma grande ajuda”.

A Europa, em relação aos outros continentes, acrescentou o presidente dos bispos austríacos, “tem uma superabundância de sacerdotes, mesmo porque, devemos admitir, a remuneração é melhor do que em zonas pobres”.

Em suma, para o purpurado, “toda a América Latina, aliás, toda a Igreja católica é corresponsável pela Amazônia. Se há uma necessidade de ajuda, a Igreja deve esforçar-se para enviar missionários, como já fez no passado”. E deve fazer autocrítica: “Tivemos a confiança de buscar, de confiar realmente nas vocações dos indígenas?”, perguntou-se Schönborn.

“A Amazônia é decisiva para o clima do mundo – concluiu o cardeal, tocando o tema da ecologia integral – e nós devemos perguntar-nos qual é a nossa contribuição para aumentar os perigos para a Amazônia. Por exemplo, usando celulares construídos com os minerais extraídos da floresta amazônica.”

Pompili: a questão ecológica é “a questão”
Suas palavras foram ressoadas nas do bispo da diocese italiana de Rieti, dom Domenico Pompili: “Agora a questão ecológica é a questão. A Laudato si’ demonstrou que não há desenvolvimento no médio-longo prazo, se este não é sustentável”.

“Não precisamos nem dos negacionistas, que negam a evidência do problema, nem dos terroristas que veem o fim do mundo cada vez mais próximo, mas ninguém hoje pode evitar refletir seriamente, como nós estamos fazendo no Sínodo”, observou.

Justamente para ajudar os padres sinodais nesta reflexão, informou o prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, o diretor emérito do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, o climatologista alemão Hans J. Schellnhuber interveio esta segunda-feira na Sala do Sínodo.

A tragédia do terremoto de 2016 no centro da Índia – foi o testemunho de dom Pompili – “é a amostra de um difícil e não resolvido problema na relação homem-ambiente. E hoje a reconstrução, aliás, a ‘regeneração’ deve ser feita seguindo rigorosos critérios eco-sustentáveis. Infelizmente, ainda há dezenas de milhares de deslocados”.

Pe. Bossi: não ao ouro nas liturgias, extração causa poluição
O superior provincial dos missionários combonianos no Brasil – que são membros da Repam e da rede Igreja e Mineração, Pe. Dario Bossi, há 15 anos na Amazônia, falou na coletiva sobre os danos ao ambiente e às populações da Amazônia provocados pelas indústrias da extração minerária.

“Seria um sinal muito forte se a Igreja conseguisse eliminar o uso do ouro em suas liturgias e sacramentos”, disse respondendo a uma pergunta. Os garimpeiros, denunciou o comboniano, “para o equivalente a um anel de ouro reviram centenas de quilos de terras e poluem os rios com mercúrio e cianeto”. Somente 10% do ouro é usado para processos efetivamente úteis, como a utilização na medicina, o restante é armazenado ou utilizado para joalheria”.

“Em nosso território de Piquiá de Baixo, no distrito industrial de Açailândia (MA) – contou o missionário – encontra-se a maior mineradora a céu aberto de extração de ferro do mundo, com um processo de exportação ao longo de 900Km, que atravessa mais de 100 comunidades.”

Os frutos deste “modelo extrativista predatório”, esclareceu, são o desmatamento e a poluição. Para não falar das tragédias ocorridas com a ruptura das barragens minerárias, como as de Mariana em 2015 e de Brumadinho este ano.

A extração mineral é o mal comum da Amazônia
“A associação entre governo e grandes empresas é muito perigosa – denunciou o provincial dos combonianos –, modificam-se as leis e se reduz a fiscalização.” A Igreja encontra-se ao lado das comunidades atingidas, com a rede ecumênica Igrejas e Mineração, e uma comissão ad hoc do episcopado brasileiro.

“Ninguém mais suporta esse sistema”, denunciou Pe. Bossi. A extração mineral é um mal comum da Amazônia, e em 25% do território amazônico já foram identificados novos pontos apropriados para a extração.”

Felizmente, as comunidades indígenas reagem: “há 10 anos a comunidade de Piquiá de Baixo está se organizado para pedir ressarcimentos integrais pelos danos sofridos, e agora estão conseguindo construir um novo bairro distante das áreas poluídas”.

Paiva: pedido de apoio a quem se torna “invisível” na cidade
“Para os indígenas que chegam às cidades o maior perigo é a invisibilidade: quando se é invisível, não se tem direitos.” Quem explicou isso foi a brasileira Marcivana Rodrigues Paiva, representante do grupo étnico Sateré Mawé, que falou da questão da “urbanização”, fenômeno sempre crescente para os povos indígenas, que obrigados a deixar suas terras migram para os grandes centros urbanos.

Somente em Manaus, por exemplo, “há 45 populações indígenas, 35 mil habitantes ao todo, que falam 16 línguas”. “Sem território, não têm direito à nossa identidade”, denunciou Marcivana, lançando um apelo “em favor das populações indígenas que chegam às cidades” mediante uma “pastoral indígena” endereçada a eles.

Ruffini: o processo de escuta no Sínodo não terminou
O prefeito do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé, Paolo Ruffini, informou que o relator geral do Sínodo, o cardeal Claudio Hummes – arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede eclesial Pan-amazônica (Repam), apresentou na manhã desta segunda-feira na Sala do Sínodo o esboço do documento final da Assembleia especial.

Quatro temas principais: “O caminho do povo da Amazônia, a conversão integral à plenitude e à vida, a conversão pastoral, sinodal e missionária, e, por fim, a conversão cultural e ecológica, portanto, a questão da inculturação”. Mas, concluiu Ruffini, “o cardeal esclareceu que o processo de escuta não terminou”.

Estátuas roubadas: “furto que se comenta por si mesmo”
Por fim, o prefeito Ruffini interveio, respondendo a um jornalista, para comentar o gesto na manhã desta segunda-feira, praticado por desconhecidos que roubaram da igreja de Santa Maria in Traspontina – nas adjacências do Vaticano – e jogaram no rio Tibre as estátuas de madeira representando mulheres indígenas grávidas utilizadas durante a cerimônia no Vaticano, em 4 de outubro, na presença do Papa Francisco. O gesto foi filmado pelos autores que depois publicaram em redes sociais.

“Já dissemos nesta sede mais vezes que essas estátuas representavam a vida, a fertilidade, a mãe terra. É um gesto, parece-me, que contradiz o espírito de diálogo que deveria sempre animar todos. Não sei o que mais poderia dizer a não ser que se trata de um furto, e que talvez se comente inclusive por si mesmo”, esclareceu Ruffini.

Fonte: Alessandro Di Bussolo / Raimundo de Lima – Vatican news

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