Por Assessoria de Comunicação| 18.07.13| Presente na  23ª Assembleia Geral Eletiva da Conferência dos Religiosos do Brasil-CRB Nacional, realizada de 15 a 19 de julho,  Dom Luís afirma que ser missionário tem tudo a ver com interlocução, é ‘ser para o outro’.

CRB Nacional: O que representou para o senhor ser nomeado Bispo de Pemba, em Moçambique? Como o senhor recebeu a notícia?

Dom Luís Fernando Lisboa: Recebi com bastante surpresa, pois eu nunca esperei ser bispo. Nunca tive esta vontade ou alimentei algum tipo de sonho neste sentido. E, muito menos, em Moçambique. Fiquei assustado num primeiro momento. Mas depois disso, conhecendo um pouco a realidade de lá, as necessidades da Igreja de Moçambique, sobretudo a diocese que eu irei atuar, localizada no norte do país e que abrange um estado inteiro, com muitas carências, de todos os tipos, eu não poderia dizer não para Deus. Afinal, não dá para brigar com Deus porque é uma luta desigual… (risos) Eu acabei dizendo sim, de coração, e agora eu estou mais tranqüilo, confiante na misericórdia de Deus. Se for por mim, não sou nem digno e nem preparado, mas Deus irá me ajudar e eu tenho certeza de que tudo vai dar certo.

CRB Nacional: Sobre a sua experiência na África, de oito anos de vida missionária, em que ela ajuda nessa missão de ser bispo em Moçambique?

Dom Luís Fernando Lisboa: Eu sou missionário passionista, Então, eu fui enviado para Moçambique no início de 2001 e lá eu fiquei por oito anos. Essa experiência acrescentou muito na minha vida cristã e religiosa, porque eu aprendi muito lá. Um missionário quando vai para outro lugar ele deve ir totalmente desarmado, com o coração aberto para colher e aprender. Porque missão é isso: interlocução. A gente recebe e dá. A gente aprende e ensina. Eu fui com o coração aberto e aprendi muitas coisas. Missionário é aquele que deve tirar as sandálias para pisar no chão firme da cultura, da língua, dos costumes do povo, daquilo que o povo sabe. Talvez por isso – por eu ter ficado por lá por oito anos, ter conhecido um pouco a diocese, os padres e os religiosos que trabalham lá – que eu tenha sido nomeado. Eu volto com muita vontade de trabalhar e de servir aquele povo. Não tenho plano nenhum, não levo nada no bolso, pois eu quero, chegando lá, entrar no ritmo da Igreja que já está lá. Eu serei o sétimo bispo. É uma Igreja que já tem uma história, uma caminhada bonita. Então, eu quero entrar junto nesse grande mutirão para fazer a Igreja acontecer em Moçambique.

CRB Nacional: Conhecendo Moçambique, após estes oito anos de trabalho, há algum desafio que o senhor destacaria? O que fica no seu coração e na sua mente como uma possível proposta de trabalho?

Padre Luís Fernando Lisboa: São muitos os desafios. Vou citar alguns. Como eu disse, é uma diocese que abrange um estado inteiro e temos apenas 27 padres para atender toda a região. Nós temos lá cerca de 70 religiosas, de várias congregações, mas ainda é muito pouco diante do tamanho do estado e da demanda. Um desafio é esse: em primeiro lugar, formar sacerdotes locais, para que eles possam atender o seu próprio povo. O segundo desafio é levar padres daqui, ou de outros lugares. A Igreja é universal e nós todos somos missionários e podemos trabalhar em qualquer lugar. Eu quero fazer contato com alguns provinciais e algumas provinciais, para ver se eu reforço o grupo de missionários lá. Existem também desafios de outras ordens. Por exemplo, de âmbito material. Nós temos muitas paróquias na diocese e os padres costumam ter 80, 100, até 130 comunidades e vários deles não tem carro. Como podem atender sem ter um meio de locomoção? Existem também outras carências materiais para realização do atendimento dos serviços pastorais. Uma prioridade que eu quero levar – e isso não tem a ver com um plano, mas sim com algo em que eu sempre acreditei e implementei – é a formação, em todos os níveis. Ninguém dá o que não tem. Então, eu pretendo facilitar a formação, pois um povo formado, um cristão formado, pode muito.

CRB Nacional: Neste triênio o senhor foi membro da equipe de reflexão missionária da CRB Nacional. Poderia destacar uma  contribuição que o senhor tenha dado para essa equipe e uma que o senhor leva desse grupo.

Dom Luís Fernando Lisboa: Foi uma grande alegria. Essa equipe de reflexão missionária já houve há uns 15, 20 anos. Eu participei dessa primeira equipe e depois, por vários motivos, as equipes foram desfeitas e agora a equipe missionária voltou. A nossa equipe é muito boa. Somos bastante próximos. Essa equipe acrescentou muito para mim. A reflexão e as assessorias que nós fizemos em vários encontros da CRB foram uma oportunidade para compartilhar aquilo que a gente acredita que é missão. Missão não é teoria. Missão é você “pegar o boi pelo chifre”, ir ao encontro. Todos os membros dessa equipe são missionários, já tiveram experiências como missionários, trabalham na missão, então eu aprendi muito com a equipe e levo no meu coração cada um deles. Levo também toda a CRB Nacional, que me convidou a fazer parte desse grupo com o qual eu aprendi muito e, na medida do possível, eu colaborei.

CRB Nacional: Há quinze anos o senhor foi membro da Equipe de Reflexão missionária da CRB. Os desafios eram os mesmos de hoje? O que mudou?

Padre Luís Fernando Lisboa: Naquela época os desafios eram outros. Nós estávamos acabando de sair de Puebla. Na época nós trabalhamos muito no sentido da formação missionária. Nós agora estamos num outro estágio, de encarar a missão mais concretamente. Ir ao encontro das missões sem fronteiras, que não são só geográficas. Ir para os novos areópagos. Hoje penso que estamos um passo à frente, com essa nova equipe, nesse novo tempo, depois de Aparecida, onde a tônica toda foi missionária, com esse novo Papa, que tem nos surpreendido a cada dia.

CRB Nacional: O senhor está dizendo que, do ponto de vista da dimensão missionária na Igreja como um todo, tivemos um avanço?

Padre Luís Fernando Lisboa: Avançou muito. Antes nós mendigávamos espaço para a missão. Agora não. A missão está por todo o lado. Foi tônica de Aparecida, tônica da Igreja na América Latina. O Papa, por suas atitudes, por suas palavras, está dando Aparecida aos poucos para toda a Igreja. Chamou muito a minha atenção um episódio vivido por esse Papa, quando a Presidenta Dilma Rousseff foi visitá-lo e o presenteou com um azulejo de um artista brasileiro. Ele lhe presenteou com o documento de Aparecida. Ele foi o redator-chefe de Aparecida. Esta foi, inclusive, uma grande contribuição da Igreja da América Latina para a Igreja universal.

CRB Nacional: O senhor acha que a forma de ser do Papa Francisco e de escrever as suas Encíclicas tem uma tônica diferenciada dos outros Papas que a Igreja teve até agora?

Dom Luís Fernando Lisboa: Eu acho que vai ser diferente, porque o Papa Francisco é muito prático, muito objetivo. Ele, embora seja teólogo e tenha estudado bastante, como um bom jesuíta, é muito mais pastoral e vivencial. Ele tem dito coisas que todos podem entender. As pessoas estão olhando o Papa com um carinho muito grande, porque ele chega até o coração das pessoas, pela forma com que ele fala, pelo o que ele fala. A Igreja estava precisando de um pastor mais comunicativo, mais humano. Um Irmão maior. Um pai.

CRB Nacional: Qual o sentido de ser missionário para o senhor? O que significa ser missionário? Qual a sua visão sobre isso?

Padre Luís Fernando Lisboa: Para mim, ser missionário é um ser para o outro. Um missionário não deve ser voltado para si mesmo, suas próprias coisas, seu próprio bem-estar. Um missionário deve estar onde a Igreja e a congregação precisa. Sempre pronto. É inaceitável quando encontramos um religioso que escolhe: “eu só faço isso, eu só quero aquilo”. O missionário religioso deve estar disposto a sair, a ir além de si mesmo, ir além das fronteiras, sejam geográficas, de formação, culturais… Os novos areópagos de que se fala tanto hoje. É preciso ir ao encontro daqueles que estão à margem. Ser missionário é estar junto. É caminhar lado a lado, abraçar a causa do outro. É sofrer com o outro. É ter compaixão. Não é levar propostas ou coisas prontas, mas descobrir com o outro aquilo que o liberta, que o faz ser mais gente. Foi isso o que Jesus fez e nós não podemos ser diferentes. O missionário é aquele que busca a vida, batalha pela vida do próximo e, com isso, acaba se sentindo vivo, porque está servindo, está amando, fazendo parte do projeto de Jesus.

CRB Nacional: Existe algo que o senhor queira destacar sobre as atividades realizadas pela CRB Nacional neste último triênio em prol da vida religiosa no Brasil?

Dom Luís Fernando Lisboa: Eu gostaria em primeiro lugar de parabenizar a vida religiosa no Brasil que, nos últimos anos, tem saído, para fora, aberto os olhos e as fronteiras. Essas experiências de comunidades intercongregacionais no Haiti, na Amazônia… O apoio que tem dado ao primeiro bispo missionário na África, que é Dom Pedro Zilli, em Bafatá, na Guiné-Bissau, com quem eu tenho me comunicado bastante ultimamente, já que eu sou o segundo bispo missionário. Eu espero que a vida religiosa continue se abrindo. Eu tenho falado com vários provinciais e várias provinciais no sentido de nos ajudar em Moçambique e quem sabe a vida religiosa possa pensar numa outra comunidade intercongregacional, abrindo novas frentes de missão, dando passos concretos em direção à ela, pois missão é isso: sair de si mesmo e ir ao encontro onde se precisa.

CRB Nacional: Qual a diferente entre ser um bispo missionário e um diocesano?

Dom Luís Fernando Lisboa: Eu vou para ser bispo diocesano, mas eu estou sendo enviado pela vida religiosa do Brasil, pela Igreja do Brasil. Então, eu tenho uma responsabilidade grande, pois eu vou para uma terra que não é minha, entrar em contato com uma cultura que não é minha, mas que eu quero abraçar como minha. Claro que eu levo toda a minha bagagem, mas eu quero dar a minha contribuição também, respeitando a caminhada deles. A diferença é essa: a responsabilidade. Pois um bispo local conhece a cultura, a terra, o povo. Ou seja, é uma responsabilidade a mais ser um bispo missionário, tirar as sandálias, acolher a história e a vida daquele povo. Eu conheço um pouco, pois vivi lá por oito anos, mas pretendo conhecer muito mais para melhor servir.

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