Por Rosinha Martins|13.01.14| Maria Assunta Caterina Marchetti é o seu nome. Nomeada carinhosamente pelas Missionárias de São Carlos Borromeo-Scalabrinianas, como Madre Assunta, ela será beatificada em São Paulo no dia 25 de outubro de 2014.

O secretário de Estado do Vaticano, Monsenhor Angelo Becciu enviou carta oficial à Superiora Geral da Congregação datada de 17 de dezembro de 2013, comunicando a aprovação nestes termos: “Reverenda Madre, o santo Padre acolhendo o pedido feito em carta n. 891/13 em 24 de outubro de 2013, permitiu que a celebração do rito de beatificação da venerável Serva de Deus Maria Assunta Caterina Marchetti co-fundadora deste Instituto, seja em São Paulo – Brasil, no sábado, 25 de outubro de 2014”, relatou. Comunicou ainda que o Papa Francisco nomeou como seu representante e presidente da Celebração, o prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, o cardeal Angelo Amato.

A Superiora Geral, Irmã Neusa de Fátima Mariano falou sobre o significado desta notícia para a Congregação. “Acolhemos esta notícia com grande alegria e júbilo, pois é uma graça para a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo Scalabrinianas. Acreditamos que a Beatificação será portadora de muitos frutos de santidade e de renovação espiritual para todos os membros do Instituto e ao mesmo tempo é portadora de um novo vigor na vivência de nossa consagração religiosa no serviço aos migrantes” disse.

Para Irmã Neusa, esta Celebração será um momento de dar visibilidade à presença compassiva das missionárias junto aos migrantes a exemplo da Serva de Deus.  “Além de ressaltar a santidade de sua vida e sua coragem missionária, é perceber como as Irmãs Missionárias Scalabrinianas encarnam no dia a dia, o projeto missionário do Bem-aventurado Dom João Batista Scalabrini, fundador da Congregação, o qual nos interpela a continuar com ousadia, fidelidade criativa, profecia e esperança a missão que recebemos como herança carismática, em meio aos migrantes, nos vários desafios da mobilidade humana.

Ainda de acordo com a Superiora Geral, se pode dizer que, “na trajetória missionária, Madre Assunta deixou um legado profundo de autêntica fidelidade ao carisma Scalabriniano, ao mesmo tempo que permeia o nosso futuro de esperança. E convidou todos os fiéis a participarem deste momento importante para a Congregação e Igreja. “É com esse espírito que queremos celebrar  este evento eclesial, para o qual convidamos todo o povo de Deus para que se uma a nós e participem deste grande evento da Beatificação da Venerável Madre Assunta Marchetti, mãe dos órfãos e abandonados”, concluiu.

Na cidade de Camaiore onde Madre Assunta nasceu e viveu até a juventude, a notícia teve grande repercussão. Ao tomarem conhecimento da beatificação por meio dos jornais, os concidadãos de Madre Assunta se alegraram a ponto de organizarem imediatamente junto ao pároco de Camaiore, um coro em homenagem à Serva de Deus.

“As pessoas aqui em Camaiore receberam a notícia da beatificação lendo os jornais e através do pároco, que, do altar,  contou aos fiéis. Foi fundado um coral composto de muitas pessoas, das mais variadas idades que cantam nas missas. O coral foi intitulado ‘Coral de Madre Assunta’. A beatificação de Madre Assunta é uma grande alegria para nós e para a comunidade de Camaiore, que precisa de um exemplo assim tão lindo”, disse em entrevista a jovem e educadora infantil, em Camaiore, Beatrice Marchetti, 24, cuja avó, senhora  Osvalda Tabarrani ajudou a fundar o museu da Madre naquela cidade, e diz ter recebido um milagre por intercessão da beata.

Ao receber um grupo de Irmãs brasileiras em Camaiore, no mês de maio de 2013, a senhora Osvalda concedeu esta entrevista na qual ela conta a sua experiência de fé com Madre Assunta Marchetti.

Para a sobrinha, a santidade de Assunta não é novidade

A sobrinha, filha caçula da irmã mais nova de Madre Assunta residente no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, capital, Marta Maria Luiza Marchetti Zioni, aos seus 80 anos se recorda da  tia com emoção. “A minha mãe tinha a titia Assunta mais como mãe do que Irmã, por ser 20 anos mais velha. O papai, ao qual ela chamava de Giuseppino,  a respeitava muito porque na simplicidade, no jeito de olhar, de falar, sabia impor respeito. Quando ela vinha nos visitar, era uma alegria”, conta.

Sobre a santidade de Madre Assunta disse: “Sabe, a santidade dela para nós não é novidade, porque sempre estivemos acostumados com o jeito de ser da titia: bondosa, meiga, atenciosa. Para nós, não é agora que ela se torna santa, entende?”

 Quem foi Maria Assunta Caterina Marchetti

 Maria Assunta Caterina Marchetti nasceu em Lombrici di Camaiore, província de Lucca, na região da Toscana, Itália, em 15 de agosto de 1871, e foi batizada no dia seguinte na paróquia Santa Maria Assunta ao lado da casa da família. De acordo com os documentos históricos, os pais Ângelo Marchetti e Carolina Ghilarducci eram moleiros. O trabalho da moagem garantia o sustento da família como também a moradia. Os pais sempre confiaram na ajuda de Assunta para o cuidado dos outros 10 irmãos, uma vez que a mãe tinha saúde frágil.

 A compaixão pelos imigrantes italianos muda os rumos da vocação

 Conforme relata a história, Assunta desejava ardentemente se tornar uma religiosa contemplativa, mas Deus havia traçado outros caminhos para ela através do pedido de seu irmão sacerdote, José Marchetti que ingressou no Seminário de Lucca, que se tornou sacerdote em 1892.

Nesse período os italianos deixavam em massa a Itália e rumavam para as Américas, especialmente para o Brasil. Padre José Marchetti, pároco em Compignano, diocese de Lucca, viu maioria dos paroquianos deixarem a Itália em busca de sobrevivência. Não teve dúvidas. De sacerdote diocesano passou a ser missionário de São Carlos, ordem fundada em 1887 pelo Bispo de Piacenza, João Batista Scalabrini que, compadecido dos imigrantes italianos, organizou um grupo de missionários e fundou a ordem para acompanhar os imigrantes nas suas viagens nada fáceis.

Padre José passou a ser missionário de bordo e durante as viagens da Itália para o Brasil atendia os imigrantes com o sacramento da confissão, do casamento, e fazia rituais de exéquias para os que morriam e eram lançados ao mar.

Em uma dessas viagens um pai desesperado deixou, aos cuidados de padre Marchetti, um bebê, de quem o sacerdote assumiu a responsabilidade de cuidar. Ao desembarcar no Brasil o padre  imediatamente providenciou um orfanato onde colocou a criança. A partir dali entendeu que sua missão não era a de ser missionário de bordo, mas cuidar dos tantos órfãos filhos de imigrantes italianos e africanos, que viviam na cidade de São Paulo.

Em 1895, padre José construiu dois orfanatos em São Paulo, um no alto do Ipiranga e outro na Vila Prudente. Com tantos órfãos para cuidar, voltou à Itália e convenceu  Assunta a vir com ele para ajudar no cuidado das crianças.

“Ela queria ser carmelita, ficar afastada do mundo, mas aconteceu o oposto: não só teve que enfrentar o mundo como também teve que socorrer as pessoas em ambiente hostil (na época São Paulo era marcada por outras religiões como a maçonaria, por exemplo) e, no entanto, não criava problemas com ninguém, respeitava o sentimento e a religião dos outros”, afirmou a sobrinha Marta.

Em 25 de outubro daquele mesmo ano que ela, seu irmão padre José e suas duas amigas emitiram os primeiros votos religiosos, nas mãos do Bem Aventurado Dom João Batista Scalabrini, fundador da Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo-Scalabrinianas. E em 27 de outubro, partiram para o Brasil, como missionárias para os migrantes e nunca mais retornaram à Itália, fazendo de sua pátria o Brasil. Padre José Marchetti morreu aos 27 anos, vítima da febre tifoide, muito comum entre os imigrantes naquele período.

 O trabalho missionário em São Paulo

Ao chegarem a São Paulo dedicaram-se ao cuidado dos órfãos e dos imigrantes italianos, afetados pela cólera tifoide e pela difteria. O orfanato tinha como objetivo ser um ambiente familiar para os pequenos que haviam perdido os pais nos trajetos da imigração e no trabalho nas fazendas de café. Eram órfãos italianos, africanos… todos eram bem acolhidos. Assunta se dedicou ao próximo com heroísmo e não media esforços quando se tratava de atender o mais necessitado.

“O primeiro doente da Santa Casa de Monte Alto – SP foi um homem negro, mendigo. Madre Assunta se compadeceu dele porque estava sozinho na enfermaria, enquanto não havia ainda os enfermeiros. Colocou uma cama no fundo do corredor, do lado oposto do doente e, dormiu aí algumas noites para poder atendê-lo logo que chamasse. Via Cristo no irmão pobre, sofrido ou doente”, contou Irmã Afonsina Salvador que conviveu com Madre Assunta ainda quando fora superiora geral pela primeira vez. “Tudo o que acontece é bom, porque vem de Deus”, sempre dizia Assunta, como que fazendo ecoar o mesmo pensamento de seu irmão José que em todos os acontecimentos dizia” Deo gratias!.

Madre Assunta passou os últimos meses de sua vida em uma cadeira de rodas, mas sempre atenta em servir o próximo. Morreu em 1º de julho de 1948, em meio aos órfãos, no orfanato da Vila Prudente – SP, hoje, “Casa Madre Assunta Marchetti”, onde se encontram seus restos mortais.

O milagre

Aconteceu em 1994, no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre RS. Diagnosticado com morte cerebral, o senhor Heráclides Teixeira Filho recobrou os sentidos, ressuscitou sem nenhuma sequela de suas funções vitais e intelectuais. Esse milagre se deve ao fato de a esposa e uma de suas irmãs terem invocado a intercessão de Madre Assunta.

No dia 19 de dezembro 2011 aconteceu a promulgação do Decreto das Virtudes Heroicas de Madre Assunta Marchetti, reconhecidas pelo Papa Bento XVI. No dia 09 de fevereiro de 2012 foi aprovado o ‘milagre’ atribuído a Venerável Madre Assunta por parte da equipe dos médicos da Congregação da Causa dos Santos, no Estado do Vaticano. Em 17 de dezembro de 2013, a Secretária de Estado do Vaticano, através de carta assinada por Dom Angelo Becciu, comunicou oficialmente à Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos a aprovação da beatificação de Madre Assunta. 

Rosinha Martins é missionária de São Carlos, Jornalista, Assessora Executiva da CRB Nacional para as Comunicações e membro da Equipe de coordenação da Beatificação de Madre Assunta Marchetti. Reside em Brasília-DF.

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