Cidade do Vaticano (RV) – A Santa Sé intervém sobre a trágica história dos dois jovens casados, cristãos, pais de 4 filhos, queimados vivos no Paquistão por uma multidão enfurecida na última quarta-feira, 05/11. O casal foi injustamente acusado por blasfêmia por um líder religioso muçulmano. Em entrevista à Rádio Vaticano, o cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, falou sobre o assunto.

Cardeal Tauran – “Estou perplexo, fica-se sem palavras, obviamente, perante um ato de tamanha barbárie. Aquilo que é ainda mais grave é que foi invocada a religião, em modo específico. Uma religião não pode justificar crimes desse gênero. Existe essa lei da blasfêmia, que representa um problema: a comunidade internacional, não deveria intervir? De um lado, certamente estão as convicções religiosas que devem ser respeitadas, mas é necessário, também, manter um mínimo de humanidade, de solidariedade. Acredito, então, que o diálogo se imponha: infelizmente, não se diz nunca o bastante sobre isso. Mais delicada é a situação, mais se impõe o diálogo.”

Rádio Vaticano – Esse fato trágico não faz que somar-se a tantos outros…

Cardeal Tauran – “Desde o ano em que foi introduzida a lei da blasfêmia, foram registradas cerca de 60 execuções. E não envolvem somente os cristãos: inclusive outras minorias foram atingidas, como advogados, opositores ao regime que foram mortos de maneira bárbara. Estamos perante a um grande problema…”

RV – Muitos cristãos se encontram, atualmente, nos braços da morte do Paquistão: pensamos, obviamente, também à Ásia Bibi, mas existem tantos outros casos. Hoje seria realmente necessária uma ação para solicitar a reforma dessa lei…

Cardeal Tauran – “Sim, mas no ponto em que nos encontramos agora, não se pode intervir nos assuntos internos de um Estado, mas, ao menos, é preciso ajudar os responsáveis da política a encontrarem soluções dignas do homem e da civilização.”

RV – A Comissão da Justiça e da Paz do Paquistão reagiu a esse drama, denunciando uma falta de vontade da parte da política e afirmando que tudo isso rende as minorias ainda mais vulneráveis…

Cardeal Tauran – “Penso que, efetivamente, a Igreja local seja muito corajosa. É necessário apoiá-la e, sobretudo, denunciar, denunciar rigorosamente que não há nenhuma justificativa pra esse tipo de coisa. Na realidade, a humanidade inteira acaba sendo humilhada…”

RV – Muitas são as vozes que se alçaram para denunciar a falta de reação do governo e certa cumplicidade por parte das forças de polícia e dos tribunais…

Cardeal Tauran – “Sim, inclusive eu ouvi isso. Não tenho elementos para afirmar isso ou para confirmar, mas é certo que exista, sem dúvida, uma conivência. Em qual nível, isso eu não sei. Em todo caso, a minha opinião é que se deva denunciar publicamente esse tipo de postura, sobretudo para que os nossos cristãos percebam a solidariedade da Igreja, que é sua família.”

RV – O senhor espera uma reação da parte dos líderes muçulmanos? Espera que se expressem perante essas ações?

Cardeal Tauran – “Espero, sim! Isso é o que desejamos ainda em agosto… Por isso, é preciso reconhecer que as primeiras vítimas são os muçulmanos, porque esses crimes dão ao islamismo uma imagem terrível, muito negativa. Então, teriam todo o interesse de denunciar, e também de maneira contundente…”

RV – Trata-se de uma atmosfera tensa, como não se tinha visto até hoje?

Cardeal Tauran – “Não, nunca. Acredito que tenhamos chegado ao que São Paulo define “o mistério da iniquidade”, isto é, o mal ao estado puro. Nem os animais se comportam desse modo! A gente se encontra realmente numa época de precariedade total, onde tudo pode acontecer, a pessoa humana não é respeitada, a vida não conta mais…”

RV – Como, como cristãos, conservar a esperança nesse contexto e, como, também, ajudar essas populações que vivem situações extremamente dramáticas, que são atingidas por violências todos os dias?

Cardeal Tauran – “Com a solidariedade. Existem, inclusive, coisas muito bonitas que se realizam por lá. Por exemplo, eu visitei uma família muçulmana que acolheu uma família cristã; em Baghdad, também, os Padres Dominicanos instituíram a Academia das Ciências Sociais, em plena guerra. Existem também coisas muito bonitas que se realizam… Acredito que seja necessário focalizar na fraternidade, que foi o tema da Jornada Mundial da Paz…”.

(AC)

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