O presente artigo foi escrito pelo bilblista holandês e frade carmelita, Carlos Mesters. No artigo, frei Carlos faz memória da história da Vida Consagrada, suas origens e denomina a CRB como uma das várias manifestações do seguimento de Jesus, que tem atuado de maneira eficaz e profética em terras brasileiras e pelo mundo afora.

A CRB Nacional agradece a Frei Carlos por ajudar a Vida Consagrada, com este artigo, “a re-cordar, passando os fatos pelo coração” para seguir ainda mais apaixonada por Jesus e seu Reino.

Por Frei Carlos Mesters| 17.09.14| A CRB completa 60 anos. Quem faz aniversário, faz uma parada, olha para trás e faz revisão. Faz festa para agradecer os dons recebidos e procura reforçar o compromisso de continuar na fidelidade. Este é o motivo que temos para celebrar os 60 anos da CRB.

A origem da CRB tem a ver com a renovação que estava acontecendo na Igreja na época do pós guerra e que culminou na convocação do Concílio Vaticano II pelo papa São João XXIII. Era um tempo bonito, provocador e desafiador. Uma caminhada cheia de curvas, como o rio que busca o seu caminho em direção ao mar. Às vezes, na planície, muito largo e calmo, parece que está parado. Outras vezes estreito, entre duas montanhas, impetuoso, levando consigo tudo que encontra no caminho. Por isso, é bom fazer memória e olhar para trás. Re-cordar significa: re-passar os fatos pelo coração.

Re-cordar não só os 60 anos da CRB, mas também as centenas de anos da própria Vida Religiosa Consagrada, fonte permanente da CRB. Ninguém sabe a idade exata da Vida Religiosa Consagrada. Ela já existia antes de receber o nome. Sua origem se perde nos inícios do Antigo Testamento. Ela tomou forma concreta no seguimento de Jesus e a CRB é uma das suas muitas e bonitas manifestações.

A remota origem da Vida Religiosa Consagrada

Em todos os povos sempre aparecem pessoas que se sentem chamadas para responder ao desejo profundo do ser humano em direção a Deus; pessoas que se identificam com este desejo e procuram ajudar os outros a redescobrir o sentido da vida no reencontro com Deus. Assim aconteceu com as tribos de Javé na época do Êxodo e dos Juízes. Em todas essas tribos havia pessoas que se sentiam chamadas para manter viva no povo a memória do Deus libertador. Eram os Levitas. Moisés é conhecido como um levita (cf. Ex 2,1-10; Núm 26,57-59).

Originalmente, os Levitas não eram uma tribo. Existe até um levita da tribo de Judá (cf. Jz 17,7). Eram pessoas das várias tribos que se agrupavam ao redor desta missão mediadora. (A palavra hebraica levi significa agrupar-se,aderir, acompanhar). Elas foram sendo identificadas como uma tribo ao lado das outras tribos, a tribo de Levi. Foram reconhecidas, diríamos hoje, como uma “congregação”, a “congregação de Levi”.

Nos antigos mosteiros, quando se apresentava um candidato para entrar na Vida Religiosa Consagrada, davam a ele um anjo para acompanhá-lo e verificar “an vere Deum quaerit” (se realmente busca a Deus). Pois, se a motivação básica não for a busca de Deus, não há lugar para ele na Vida Religiosa Consagrada. A busca de Deus é a raiz permanente que está na origem da “tribo de Levi” e é a raiz de onde, sempre de novo, nasce e renasce a Vida Religiosa Consagrada nas suas múltiplas formas. Uma delas é a CRB.

A missão da Vida Religiosa

 Desde o início, a missão dos levitas era associada com os acontecimentos do Êxodo. Era naquelas histórias antigas do seu passado que eles encontravam o rumo da sua missão; histórias de que nós hoje di­zemos: “quem conta um conto aumenta um ponto”. Eles aumentavam um ponto, sim, mas não para falsifi­car os fatos. Era para destacar melhor a sua mensagem. Acentuamos três aspectos da missão dos levitas:

(1) Ser a propriedade particular de Javé

A décima praga da morte dos primogênitos venceu a resistência do faraó e permitiu a libertação do povo do Egito. Por isso, todo primogênito era considerado propriedade de Javé. Não podia ser usado para outras finalidades. As primícias das colheitas e dos animais deviam ser oferecidas a Javé. Se o animal era de muita utilidade para a sobrevivência da família, o dono podia conservá-lo para si, mas devia pagar a Deus um preço como resgate(cf Ex 13,11-16). Para os primogênitos humanos, o resgate pago a Deus eram os levitas. O próprio Deus afirma: “Eu mesmo escolhi os levitas entre os filhos de Israel, para substituir os primogênitos, aqueles filhos de Israel que abrem o seio materno. Portanto, os levitas são meus. De fato, todo primogênito me pertence, pois no dia em que matei os primogênitos na terra do Egito, consagrei para mim todos os primogênitos de Israel, tanto homens como animais. Eles me pertencem. Eu sou Javé” (Num 3,11-13). Os levitas são de Javé. Javé os escolheu e os reservou para si.

(2) Impedir o retorno para o Egito

Era frequente a tentação de voltar para o Egito (Nm 14,1-4; Ex 14,11-12), de dar as costas para Javé e deixar de lado a sua Lei. A Lei de Deus tinha sido dada como caminho para manter a liberdade conquistada no Êxodo e impedir o retorno para o Egito (cf. Ex 20,2; Dt 5,6). Observando a Lei, o povo não voltaria nunca mais para a escravidão. Os responsáveis para ajudar o povo na observância da Lei e impedir o retorno para o Egito eram os Levitas (Dt 33,10; 31,11; Ne 8,7).

(3) Ter como herança o próprio Javé

A tribo de Levi não recebeu terra como herança. A herança dos levitas era o próprio Javé (cf. Jos 13,33; 14,3-4; 18,7; Dt 18,1-2; Eclo 45,22). Eles deviam manter viva e irradiar no meio do povo a presença de Javé, a memória do Êxodo e a observância da Lei de Deus. Por isso, a tribo de Levi não podia estar confinada numa determinada região geográfica, separada das outras tribos, mas devia estar em toda parte para poder exercer esta função no meio das tribos. O fermento deve estar no meio da massa e não ao lado dela. Por isso, não podiam ter uma herança de terra, separada das outras.

Exercendo a sua missão

Na época dos Juízes, não havia templo central nem matriz. Os levitas viviam inseridos no meio do povo, ao redor dos pequenos santuários de peregrinação, onde o povo vinha renovar e celebrar sua fé. Cada santuário estava ligado a algum acontecimento do passado do tempo dos Patriarcas e Matriarcas ou dos Juízes. Era uma maneira de manter viva a memória e de aprofundar sua identidade e missão como povo de Deus. Eis alguns destes santuários:  Siquém: onde Abraão recebeu a promessa da terra e fez um altar (Gn 12,6-8);  Hebron: o carvalho de Mambré, lugar do enterro de Sara e Abraão (Gn 13,18; 23,1-20; 25,7-10); Jerusalém: onde Abraão encontrou o rei sacerdote Melquisedeq (Gn 14,18-20); Bersheba: onde Abraão fez um altar e Isaque cavou poços (Gn 21,32-34; 22,19; 26,23-25); Betel: ligado à visão da escada de Jacó  (Gn 28,19-22; Gn 13,3; 1Sm 7,16; 2Rs 2,3), etc. etc.

A maior parte destes pequenos santuários estava situada nos assim chamados lugares altos, onde, antes da chegada dos israelitas, os povos cananeus praticavam o culto ao Deus Baal, o deus da fertilidade da produção e da reprodução. Através da sua atuação nos pequenos santuários, os levitas e as levitas ajudavam o povo a se afastar do culto de Baal e a aderir com maior firmeza a Javé que os libertou da escravidão do Egito (1Sam 7,2-6).

Jesus é a confirmação desta longa história. Ele é a propriedade particular de Deus e veio revelar um novo rosto de Deus como Pai. Ele ensinou o sentido pleno da Lei de Deus. Ele veio libertar os oprimidos e tirar os presos do cárcere. Chamava pessoas para segui-lo nesta sua missão de anunciar ao povo a Boa Nova de Deus. Jesus é, ao mesmo tempo, ponto de chegada e ponto de partida. A partir dele começa a nova e definitiva caminhada da Vida Religiosa Consagrada, da qual a CRB faz parte.

A CRB: dando continuidade à Missão da Vida Religiosa Consagrada

Muitas foram as iniciativas da CRB aos longo destes 60 anos. Iniciativas que dão continuidade a esta longa caminhada. Motivo de agradecer a Deus! Lembro só algumas iniciativas:

A primeira e principal iniciativa é o surgimento da própria CRB e o seu esforço contínuo e con­stante de suscitar contatos e provocar partilha entre as várias congregações e nos vários níveis da vida e das atividades pastorais dos religiosos e religiosas no Brasil. Isto faz com que os vários ramos, congregações, institutos e ordens, criem maior consciência de estarem enxertados no grande tronco da Vida Religiosa Consagrada, que vem desde Jesus e desde aqueles remotos inícios da história dos levitas. Descobrimos nossa origem comum que fica para além de cada um dos ramos e nos leva até à raiz da árvore da Vida Religiosa, que é o seguimento de Jesus e a busca de Deus. O projeto de formação da CRB para os vários níveis do processo de formação da Vida Religiosa Consagrada (postulinter, novinter, juninter) ajuda a concretizar este objetivo comum.

Muito importante foi e continua sendo o projeto Palavra-Vida que fez crescer entre nós a prática da Leitura Orante da Palavra de Deus. Inicialmente, era para ser um projeto da CLAR para religiosos e religiosas de toda a América Latina. Mas a resistência de algumas autoridades episcopais ligadas ao CELAM tornou inviável a sua realização em nível de América Latina. A decisão corajosa da CRB trouxe o projeto para o Brasil, onde foi realizado e aumentado de cinco para sete anos, dando os seus frutos até hoje.

Outra iniciativa muito importante é o surgimento e a promoção das comunidades inseridas no meio popular. Sem elas, a renovação da Igreja não teria chegado onde chegou nestes 60 anos desde os tempos do Vaticano II. Como os levitas e as levitas, as comunidades religiosas inseridas viviam e vivem misturadas no meio povo com mil e um tipos de serviços: conversa, visita, catequese, saúde, celebração da palavra, ensino, colégios, comunidade, visita aos doentes, sindicato, luta pelos direitos humanos, defesa dos injustiçados, círculos bíblicos, etc. etc. Elas sustentam e animam a fé do povo.

Importante e contagiante é a preocupação missionária da CRB em ajudar lá onde a necessidade é maior, tanto no Brasil na região amazônica, como fora do Brasil, no Haití e na África.

Os sessenta anos de CRB são motivo para agradecer a Deus, são uma ocasião para fazer uma revisão da nossa caminhada, são um desafio para continuar e aprofundar a criatividade e o compromisso de fidelidade no seguimento de Jesus e na busca de Deus.

Sobre Frei Carlos Mesters

Jacobus Gerardus Hubertus Mesters nasceu em Bunde, província de Limburgo –  Holanda, no dia 20 de outubro de 1931. Foi este o nome que recebeu na pia batismal.  Vinte anos mais tarde, ao receber o hábito da Ordem Carrnelita, já no Brasil, passou a ser chamado de frei Carlos Mesters.

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