Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Os relatos evangélicos nos reportam a bacia de Pôncio Pilatos (Mt 27, 24-25), em que o governador da província romana da Judeia lava as mãos, numa tentativa de eximir-se do sangue inocente a ser derramado na cruz. Reportam-nos também a bacia de Jesus (Jo 13, 1-20), onde o Mestre lava os pés dos apóstolos, mostrando-lhes o valor do serviço. Ao lado delas, e em termos figurados, não seria exagero falar de uma terceira bacia: a de Herodes. Três bacias que refletem e expressam comportamentos diferentes e contraditórios. Três bacias que muito têm a dizer sobre a forma de exercer o poder e a atitude a tomar diante dos imprevistos da história.

Comecemos com a bacia de Herodes. Bacia sanguinária: nela encontramos ainda quente o sangue de João Batista, profeta precursor do Messias.  Mas encontramos também o sangue das crianças inocentes e de muitas outras pessoas que tiveram suas vidas ceifadas pela repressão. Todo tirano, ou os tiranos de todos os tempos, carregam sobre os ombros um grande recipiente de horrores. Recipiente trágico que reúne o suor e o sangue de opositores e críticos, os quais não comungam e denunciam as extravagâncias do opressor. Sangue dos mártires, dos profetas, dos que buscam alternativas à ordem vigente; ordem que exclui, descarta e mata. Sangue de guerras, chacinas, massacres, genocídios, torturas… da escravidão, do holocausto.

A bacia de Pilatos representa o poder total e prepotente, bem diverso de uma serena e legítima autoridade. Indica também a vileza e pusilanimidade dos covardes. Estes transferem a própria responsabilidade para outras instâncias. Lavam as mãos, mas não conseguem extirpar toda culpa de seus mandos e desmandos. Indiferentes à condição das vítimas, não raro frágeis, indefesas e inocentes, fogem ao compromisso que lhes está diante dos olhos. A história segue seu rumo cego, atropela projetos e trajetórias, rompe e interrompe sonhos e esperanças, coloca em risco numerosas vidas. Pilatos, por seu lado, limita-se ao gesto de lavar as mãos, como quem nada tem a ver com os acontecimentos que irão se desenrolar. A busca da verdade e da justiça requer vigor e firmeza, coragem e energia, mas o representante do Império Romano opta por escapar pela tangente. O mercenário é o oposto do Bom Pastor.

E com a imagem do Bom Pastor, entra em cena a bacia de Jesus. Nela, o poder despótico cede o lugar ao serviço amoroso. A autoridade reconhecida prevalece sobre o autoritarismo ilimitado. A perseguição dos mais pobres e excluídos cede lugar à misericórdia diante dos pequenos e marginalizados. Enquanto, de um lado, a farsa de lavar as mãos simboliza o ato de esquivar-se ao compromisso e à responsabilidade pelas próprias ações, de outro, a grandeza de lavar os pés é o mesmo que tomar sobre si mesmo o peso dos pecados e sofrimentos das multidões errantes, excluídas e empobrecidas. Aquele que “era de condição divina, não se apega ciosamente a essa condição”. Ao contrário, abaixa-se, “humilha-se a si mesmo e, qual servo, se faz obediente até a morte e morte de cruz” (Fl 2, 6-8).

Se a bacia de Herodes procura a todo custo eliminar o clamor que destoa e se opõe à ordem vigente, a bacia de Jesus dispõe-se a ouvir esse mesmo clamor, levanta-se contra ele, arregaça as mangas e põe-se em ação. Ação humilde, mas revestida de imenso significado simbólico. Sinal vivo, forte e vigoroso da busca de alternativas frente a um horizonte cerrado por interesses privados, corporativos e poderosos. Reabrem-se as veredas da história, novas oportunidades se apresentam. Em outras palavras, a bacia de Herodes sacrifica os súditos, em função dos ídolos que habitam templos e palácios; a bacia de Pilatos os abandona à própria sorte, surda e muda à condição em que vivem e morrem; a bacia de Jesus chama e estimula a um compromisso, em vista de um mundo onde não haverá senhores e escravos. Na proposta dos “novos céus e nova terra”, todos são igualmente convidados à festa e ao banquete da vida.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de Janeiro, 1º de dezembro de 2019

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