O músico, compositor, dramaturgo e escritor Chico Buarque de Holanda foi o personagem homenageado com o Prêmio Camões de 2019. De acordo com a Wikipédia-enciclopédia livre, “instituído pelos governos de Brasil e Portugal em 1988”, o prêmio “é atribuído àqueles autores que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa” Tendo sido agraciado neste ano, Chico Buarque tem direito a 100 mil euros oferecidos pelos dois países. Mas enquanto o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza já assinou o prêmio, o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, até o momento se negou a fazê-lo.

A verdade é que a postura autoritária do nacionalismo populista de extrema direita, que tem emergido em várias partes do mundo, revela-se incapaz de conviver com o pluralismo cultural, religioso e multiétnico que caracteriza a sociedade contemporânea. A abertura diante do outro/diferente, de acolher, proteger, promover e integrar – para usar os 4 verbos do Papa Francisco – é logo batizada de ideológica. Porém, ao tentar extirpar pela raiz toda e qualquer forma de ideologia, seja no ensino básico ou na universidade, na ciência e na pesquisa ou nas várias formas de expressões artísticas, os governos nada mais fazem do que introduzir um outro tipo de ideologia. Entra em cena um pensamento retrógrado, obscurantista e extremamente avesso a toda espécie de crítica ou mudança do status quo.

Toda mente fechada teme o outro/diferente. O encontro com outrem, de fato, tende a interpelar a identidade de uma pessoa, um grupo ou uma determinada cultura. Tal identidade, longe de ser uma estrutura definitivamente cristalizada e inflexível, consiste em um processo dinâmico de formação contínua. Neste sentido, a presença do outro/diferente pode constituir uma ameaça ou uma oportunidade de crescimento recíproco. Obriga permanentemente a depurar, purificar e recriar nossos valores e nossa visão de mundo. Para os que possuem um pensamento cerrado, isolacionista e petrificado – como múmia fantasmagórica – o encontro será sempre uma ameaça. Donos de uma única ideia não sabem como mudá-la, porque nada têm de novo para substitui-la. Agarram-se a ela como um náufrago em águas bravias.

Disso resulta a alergia e a intolerância diante de quem usa a razão e a criatividade na tentativa de buscar alternativas à ordem estabelecida, seja como artista, cientista, pesquisador ou agente pastoral e/ou sociopolítico. Resulta também a vigilância e perseguição sistemática à pluralidade e diversidade de saberes, atitudes e comportamentos. Resulta, enfim, o retorno real, virtual ou simbólico a uma bolha conservadora, com o pretexto de preservar os “valores cristãos” ou de “proteger e salvaguardar a família”. O novo, a exemplo da irrupção vulcânica, provoca medo naqueles que desfrutam a riqueza, o poder e a influência; daqueles que vivem das benesses e dos privilégios dos cargos que ocupam. Nisso, a ordem instituída não é outra coisa senão a paz do cemitério, onde o luxo ostensivo de uns representa a morte a conta-gotas da maioria. Enquanto os primeiros têm seus crimes e malfeitos encobertos pela força da lei, os segundos, pela força da mesma lei, encontram-se expostos ao arbítrio de quem possui o comando.

Parabéns a Chico Buarque pelo Prêmio Camões, o qual, com ou sem assinatura de Bolsonaro, não lhe pode ser negado. Mas sobretudo parabéns pelas composições, os escritos e a música que tanto têm contribuído para o “enriquecimento do patrimônio cultural da língua portuguesa”. Chico permanece como figura de relevo para o mundo das letras, não obstante a mesquinhez de quem teme a abertura de novas “veredas” neste “grande sertão” da vida e da trajetória humana, para lembrar o poeta mineiro Guimarães Rosa. Ou não obstante o medo doentio de empreender a travessia “por mares nunca dantes navegados”, para não esquecer o poeta português que deu origem ao prêmio. Além da resposta de Chico Buarque de Holanda à não assinatura por parte do atual presidente – “é um segundo prêmio Camões” – cabe ainda o título de uma de suas composições: “apesar de você amanhã há de ser um outro dia”.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de Janeiro, 10 de outubro de 2019

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