A força da mulher na Vida Consagrada

Entrevista com  Rosinha Martins

Por Revista Rogate

Ter dificuldade de acolher as diferenças é ter resistência ao Evangelho de Jesus de Nazaré”

Março é o mês da mulher. Em vista desta e de tantas motivações, a Rogate conversou com a Ir. Rosinha Martins, missionária Scalabrininiana, graduada em jornalismo pelo UniCEUB (Centro Universitário de Brasília), mestranda em jornalismo na Universidade de Brasília (DF), graduada em Filosofia pela Universidade Salesiana e em Teologia pelo Instituto São Boaventura. Atua como assessora executiva da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), também em Brasília. Ela fala de sua origem, do carisma de sua Congregação voltado para o cuidado com a situação do migrante, das dificuldades encontradas em tantas instâncias por ser mulher e negra, e de seu trabalho.

Rogate: Conte-nos como aconteceu o chamado de Deus para sua vida.

Ir. Rosinha: Faço parte de uma família católica, de 11 irmãos. Recordo, como se fosse hoje, que sempre rezamos o terço juntos. Não nos era permitido faltar às Celebrações Eucarísticas. Colocar-se a serviço dos mais necessitados, sempre. Recordo-me ainda dos meus 9 ou 10 anos perambulando pelas ruas da minha cidade pedindo esmolas para ajudar comunidades ou famílias carentes e o trabalho incansável na pré-catequese. Era a alegria da minha vida.

Penso que esta base religiosa me preparou para responder a um convite que mais tarde Jesus me faria. Senti o chamado nas missas dominicais quando o padre, sempre através do Evangelho, contava uma história de Jesus, o que Ele fazia, sua bondade, seus milagres, sua defesa daqueles que tinham a dignidade ferida: os pobres, os marginalizados, as mulheres, os cegos, os leprosos (lágrimas). Numa dessas Missas, vi uma senhora com uma veste azul, evidentemente era uma freira. Puxei a blusa da mamãe e falei baixinho ao ouvido dela: “Mamãe, quero ser como aquela mulher lá”. E sempre persegui este propósito, do qual não tirei mais os olhos. Sou filha de uma família de artistas e comunicadores. Meu pai, grande contador de histórias, minha irmã mais velha, atriz de teatro e TV. Eu adorava um microfone e por isso queria muito evangelizar como São Paulo Apostólo, sendo missionária para o mundo, falando de Jesus e da sua paixão pelo Reino. Mas, no decorrer do tempo, perdi o contato com as Paulinas e, por meio da Rádio Aparecida, à qual eu ouvia todos os dias, à tarde, após os estudos, ouvi a propaganda sobre as missionárias de São Carlos Borromeo. E este nome me encantou. E me tornei filha de São Carlos Borromeo a serviço dos migrantes e refugiados (utilizamos estas duas expressões para abranger todas as situações, inclusive os imigrantes).

Na condição de mulher e negra, há barreiras que a incomodam no seguimento a Cristo?

Toda mulher, e negra, encontrará barreiras na sociedade para se desenvolver como ser humano, profissional e intelectualmente e, da mesma forma, na Igreja, pois os espaços são limitados, infelizmente, e é bom salientar que isso acontece de maneira sutil, quase imperceptível, a ponto de uma mulher negra, que não tenha consciência da sua importância e do seu papel como tal, na Igreja e na sociedade, passar a vida toda como sendo a pessoa mais feliz do mundo – sem nenhum tipo de ascensão que lhe garanta ou lhe devolva a dignidade – e permanecer sempre como subalterna. Desde a minha adolescência, sempre enfrentei desafios. Fiz cursos, apoiada por meus pais e, quando vim para o convento, estava bastante adiantada. Na Congregação sempre estudei. Fiz filosofia, teologia, jornalismo, inglês, italiano e agora francês. E, aliás, me recordo que na cidade de Cascavel (PR) fui uma das primeiras mulheres a entrar no curso de teologia, aquele de quatro anos, específico para sacerdotes. Nunca, porém, com a intenção de me tornar uma sacerdotisa, mas aprimorar os conhecimentos acerca de Deus e da sua revelação, para melhor servir a Igreja que amo e ocupar o meu espaço como mulher, de maneira mais eficaz. A Vida Consagrada e a Igreja estão inseridas na sociedade e, por isso, os desafios de nos confirmar como negros e fazer valer a nossa identidade ocorrem de modo diferenciados. São desafios para uma vida toda, uma conquista de cada dia. Devo confessar que ser negra numa sociedade patriarcal e racista não é tarefa fácil. A algumas pessoas (principalmente colegas de Vida Consagrada) que me dizem ser uma negra de alma branca, costumo responder, em tom de brincadeira, que ‘se alma tiver cor, quero que a minha seja tão negra quanto a cor da minha pele, para haver coerência, harmonia e sinergia entre corpo e espírito’.

A sua Congregação tem um trabalho importante junto ao migrante. Como acontece o serviço?

A Congregação dos(as) Missionários(as) Scalabrinianos(as) surgiu no início do século XIX, com o intuito de prestar um serviço evangélico e missionário aos imigrantes, especificamente italianos, que, por dificuldades vividas na Europa, buscavam a sobrevivência nas Américas e consequentemente no Brasil. Hoje a Congregação estende seu serviço a todos aqueles que por uma razão ou outra deixam o seu local de origem em busca da sobrevivência: refugiados, imigrantes, entre eles, circenses, caminhoneiros, crianças que migram desacompanhadas, ciganos, marinheiros, aviação civil (temos casas vizinhas de portos e capelas em aeroportos em vista deste serviço), fronteiras de países como México, EUA, dentre outros. Junto a estes somos mães, psicólogas, amigas. Com a crise migratória atual, sentimos o apelo de responder a esta demanda em nome do Evangelho e, em 2015, três casas de missão foram abertas: em Siracusa, no sul da Itália, no Acre e em São Paulo. O texto bíblico que nos inspira na missão é aquele de Mateus 25, 35: “Eu era Peregrino e me acolhestes”.

Atualmente vemos um grande fluxo de imigrantes para o Brasil, em especial para a cidade de São Paulo (SP). Faltam recursos ou até mesmo uma política mais pontual na acolhida aos estrangeiros?

O Brasil é muito carente em políticas públicas que beneficiem as nossas juventudes, os nossos idosos, as nossas crianças, imaginem em questões referentes aos imigrantes! Há um esforço do Ministério da Justiça e do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) referente às leis de defesa dos imigrantes, mas falta muito ainda. Embora o Brasil tenha fama de ser um país acolhedor, o que a realidade tem mostrado com a onda de imigrantes vindos da África, do Haiti, do Mali, da Cisjordânia, da Síria, é que o país está perdendo esta fama, se é que de fato teve, algum dia, esta virtude de acolhimento, que inclusive é evangélica. Vale lembrar o caso do haitiano que foi queimado em Santa Maria (RS), os vários imigrantes que são agredidos em cidades satélites do Distrito Federal, o imigrante haitiano ofendido no posto de gasolina no Rio Grande do Sul, e tantas outras expressões verbais preconceituosas que revelam um Brasil ainda muito fechado aos imigrantes, como se o nosso país não tivesse sido construído pelos africanos, europeus, norteamericanos, asiáticos, dentre outros. O país até acolhe, mas não garante aos estrangeiros uma vida com dignidade e de maneira segura.

Hoje você trabalha na área da comunicação na Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). O que mais a motiva neste ramo?

Repito aqui o que disse em outra entrevista, pois creio ser importante. O que motiva e fundamenta a minha escolha por esta área é a certeza de que não há evangelização, não há encontro com os mais pobres e excluídos, não há testemunho sem a comunicação. Para falar de Deus e experienciá-Lo, precisamos aprender a ouvir a mensagem, a ser mensagem e a transmiti-la.

Esse é o grande mérito da Comunicação no processo evangelizador: dela depende a eficácia e a eficiência da nossa missão. Um cristão que não sabe ouvir, que não sabe “escutar com os ouvidos e com o coração”, não evangeliza, não transmite a Mensagem (Jesus Cristo). Já conhecemos o ditado de que o Meio é a Mensagem.

Em se tratando de cristianismo, de evangelização, o meio mais eficaz para a transmissão da mensagem sou EU. Daí a importância de escutar Deus na oração, nas realidades que nos cercam, no grito dos sofredores, dos oprimidos da história para dizer ao mundo quem Deus é, quem o Pai do céu é.

Os novos meios de comunicação, como a internet, por exemplo, trazem benefícios, mas ao mesmo tempo alguns perigos. Como aproveitar melhor tal veículo na Vida Religiosa Consagrada (VRC), bem como no contexto do trabalho vocacional?

Esta é uma das minhas grandes preocupações quando penso na Vida Consagrada ou Igreja e Novas Tecnologias de Comunicação. Sem dúvida, não podemos e nem devemos repetir o lixo eletrônico que é compartilhado a cada dia pelas redes. Muita coisa é lixo mesmo. Sujeira que contamina a nossa Casa Comum, porque contamina a nossa mente de seres humanos e consagrados que somos. Creio que a Vida Consagrada tem um grande potencial, porque tem a Mensagem, por excelência; ela é herdeira da Verdade do Evangelho, do Verbo feito Carne e por isso pode fazer a diferença ao se comunicar. Ao se deparar com uma notícia, uma mensagem, um texto, um meme, creio que o(a) religioso(a) deve se perguntar: “Por que eu quero comunicar isso, para que, quais os benefícios e para quem? Os religiosos e as religiosas que estão centrados(a) no Reino de Deus aproveitarão os meios para levarem a mensagem do Evangelho. Como assim, Irmã Rosa? – podem me perguntar. Colocando o texto bíblico todos os dias no meu face, no whatsapp? Não. Não é disso que estou falando. Você, como religioso, está inserido numa missão e lá está Deus, o Seu Reino, os necessitados da justiça, da fraternidade, da igualdade. Comunique as suas lutas, os seus projetos referentes à realização do Reino de Deus. Aproveite as redes para contaminar a outros com sua paixão pela missão. Crie, invente mensagens, memes, notícias que ajudem seus amigos e a sociedade a perceberem a urgência do Reino de Deus no meio de nós. Passou da hora de a Vida Religiosa parar de repetir o que todos fazem nas redes… As novas tecnologias aguçam a nossa criatividade e nos oferecem, às vezes, até gratuitamente, suporte para isso: aplicativos e programas de computação que nos ajudam a concretizar ideias maravilhosas em benefício da nossa missão, do Evangelho de Jesus de Nazaré. O mundo espera e anseia por religiosos(as) indignados e ousados, que façam a diferença.

Que força a mulher traz para a VRC e para a Igreja?

As mulheres sempre foram presença transformadora e iluminadora para o mundo. Nas lutas e nos desafios mostrados no Antigo Testamento, elas estavam lá de forma sutil sendo suporte e orientação segura para os homens; foram as que primeiro viram o Senhor Ressuscitado e O anunciaram sem medo. Parafraseando Leonardo Boff, ‘são aquelas que nunca traíram Jesus’. As mulheres são uma grande força para a Igreja e para a Vida Consagrada no sentido do serviço. Serviço no sentido mais estrito da palavra. As mulheres são aquelas que no silêncio e, às vezes, no grito, – quando este se faz necessário, – pelos seus direitos e os de todas as mulheres, vão tecendo a história de uma Igreja mais libertadora, mais mãe, mais misericordiosa. Mais que uma força, eu diria que são as mulheres que levam a Igreja avante. Primeiro, porque constituem mais da metade na Igreja, segundo porque estão em todos os cantos como pilastras de sustentação na família, na liturgia, nos cantos, nas Pontifícias Universidades, no Vaticano, na educação, na saúde, nas pastorais, nos movimentos, nas periferias da existência. O jeito feminino de cuidar, de proteger, de ser porto seguro, de sutileza, de pensar Deus, a vida, as coisas criadas, creio ser o grande potencial que faz da mulher essa força viva na Igreja, da qual jamais será dispensada.

A partir de sua experiência de vida, você percebe que falta espaço, dentro da VRC, para os negros e as mulheres? Há algo ainda a ser feito para que tenhamos uma acolhida e vivência mais autêntica?

Eu acredito que a Vida Consagrada precisa se abrir muito ainda à questão do diferente, do outro, da alteridade. Nunca funcionou e muito menos em tempos atuais, e nunca dará certo na vida fraterna de comunidade a uniformização do ser humano. As diferenças precisam ser respeitadas, valorizadas como dom de Deus à comunidade. Parece algo cultural e que se expande para dentro dos conventos – até mesmo porque são pessoas que vivem na sociedade, que fazem a escolha pela vida religiosa e vão para os conventos – uma certa aversão à pessoa idosa, àquela com necessidades especiais, àquele que é tido como menos inteligente. Se se toca na questão do negro e do indígena, daí a discussão se amplia, pois são culturas bastante diferenciadas daquela europeia, seja na cor da pele, seja nas raízes espirituais, no modo de cultuar Deus, a natureza e as coisas criadas. Ainda existem dificuldades de acolhida destes povos na Vida Consagrada, e por isso digo: ter dificuldade de acolher as diferenças é ter resistência ao Evangelho de Jesus de Nazaré.

Ao fazer um balanço do Ano da Vida Consagrada que se encerra, o que gostaria de destacar?

Quero destacar, em primeiro lugar, a atitude do papa Francisco de propor um Ano da Vida Consagrada. Um ato corajoso. A Vida Consagrada no mundo se empolgou, abraçou as atividades propostas, refletiu nas comunidades os conteúdos apresentados, e isso trará benefícios.

Creio que poderia ter sido melhor aproveitado no que se refere ao profetismo da Vida Consagrada frente aos desafios que provocam o mundo: a questão da paz, do meio ambiente e dos Direitos Humanos, que são urgentes. Eu senti falta de um gesto concreto, uma ação global daquele milhão de religiosos e religiosas espalhados(as) pelo mundo, algo que de repente fizesse repercutir a nossa ação profética e que provocasse e convocasse a sociedade a agir conosco. Talvez tenhamos perdido a hora da graça.

Aos animadores e animadoras vocacionais, uma mensagem…

Somos, como animadores, servos inúteis, que fazemos o que é a nossa responsabilidade. Deus é quem chama e cuida da vocação. A tarefa do animador vocacional é, de fato, animar, incentivar, ser instrumento para que esta vocação se desenvolva de forma sadia. Um animador vocacional precisa ser livre de “pré-conceitos”. Se olho para o jovem que aparece em minha frente e diz que quer ser religioso e já o defino como não-vocacionado porque a mim parece magro demais, inteligente de menos, branco demais, negro demais, muito baixo, muito alto, uma perna menor que a outra… essa não deve ser a primeira preocupação de um animador. De repente, atrás destas características está escondido um grande profeta, o qual posso abortar por “pré-conceitos”. O animador deve ser uma pessoa espiritual, amante da bondade, da verdade, da honestidade, da sinceridade, da justiça, da fraternidade, ter presença de espírito, uma pessoa que consegue quase apalpar Deus nas coisas criadas, na natureza, nas pessoas com as quais convive, nos momentos de oração, nos necessitados, nos excluídos, pois Deus está em tudo que foi criado por Ele. Deve serum apaixonado pelo Reino de Deus, pois um vocacionado se sentirá animado na sua vocação se o animador passar, com sua vida, a paixão pelo Reino, mostran­do-se uma pessoa engajada nas causas ambi­entais e humanas que afligem o mundo, com espírito profético. O animador deve, ainda,respeitar as decisões do vocacionado, não o abandonando, mas rezando sempre por ele(a) e acompanhando-o(a) no discernimento sem dominação, sem intenções segundas. Se ele(a) não decidir pela sua Congregação ou pela Vida Consagrada, alegre-se da mesma forma. Acompanhe-o(a) independente da sua decisão, querendo-lhe o bem. Por fim, uma característica fundamen­tal que deve marcar o perfil do animador, é aeclesialidade. As vocações não são para a sua congregação, mas para a Igreja. A razão de ser das ordens está no serviço à Igreja e ao Reino.

 

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