Sinais dos tempos: voltar à missão e olhar para os pobres

Mônica kondiziolková | julho 2013| Presidente da CRB Nacional pós-ditadura militar, 1988 a 1995, Padre Edênio Vale, svd, recorda esse período e fala dos desafios da Vida Religiosa naquela época e na atualidade. Segundo o religioso “no mundo atual  mutante e em constante transformação os desafios são outros. A figura histórica da Vida Religiosa que eu tive como criança não tem mais espaço, não cabe mais hoje. O grande sinal que a Vida Religiosa não conheceu foi esse: voltar à missão e olhar os pobres”, avalia. Por ocasião da XXIII Assembleia Geral Eletiva da CRB Nacional em julho de 2013, na qual atuou como assessor,  padre Edênio concedeu entrevista à Assessoria de Comunicação da CRB Nacional.

A mudança dolugar social da vida religiosa pós-ditadura

Nasci em Belo Horizonte e vivo em São Paulo, mas naquele período eu me mudei para o Rio de Janeiro. Trabalhava em tempo integral na CRB com uma equipe grande, muito boa. Na época o Brasil estava saindo da fase da ditadura e iniciando um processo democrático, no qual surgiram pessoas como o Fernando Collor de Melo, o Lula e algumas lideranças que tinham sofrido a perseguição do regime militar anterior.O período em que fui presidente da CRB foi de transição, exatamente porque o país também passava por uma fase de mudança muito forte, sem ter uma prática democrática adequada. Quando eu comecei o trabalho na CRB eu não era novo, pois eu fui vice-presidente por duas vezes. Já havia trabalhado na Comissão de Teologia da CRB. Evidentemente que nesse espaço o meu papel era mais reflexivo, ou seja, havia seis anos que eu acompanhava a caminhada da CRB quando me tornei presidente.

Devido ao tipo de especialização que eu tenho, no campo da psicologia, acompanhei muito de perto o movimento de transformação dos religiosos do Brasil naquela época. Eu havia estudado teologia na Alemanha, ao voltar assumi a direção do maior Instituto de Teologia do Brasil eatuava como psicólogo atendendo padres, religiosos, religiosas, seminaristas que sentiam o impacto do Vaticano II. No meu trabalho de atendimento terapêutico-psicológico, assessorando as congregações, eu podia perceber, como num observatório, o que estava acontecendo com os religiosos brasileiros. Eu pude então entender e, de alguma maneira, diagnosticar o que estava se dando. E quando me tornei presidente da CRB já tinha conhecimento desse contexto.

Após o Vaticano II até a minha entrada na CRB, como presidente,ocorreu uma mudança do lugar social da vida religiosa. Naquela época nós já tínhamos milhares de religiosos comprometidos com os pobres, fora dos conventos tradicionais. Isso, naturalmente, provocava uma série de problemas do ponto de vista da identidade da opção religiosa, dividindo, inclusive, algumas congregações em grupos mais conservadores, tradicionalistas e outros mais abertos. Eu notava isso (o comprometimento com os pobres) muito forte entre as religiosas, devido à grande generosidade que é quase natural à mulher. Então, o surgimento da opção pelos pobres e a necessidade de uma leitura da realidade, que não fosse eclesiástica e alienada, mas que nascesse realmente de um conhecimento da realidade, havia levado centenas, milhares de religiosospara as comunidades de inserção. Estes aspectos faziam com que a antiga vida religiosa já não correspondesse mais aos anseios, sobretudo para os religiosos adultos.

Tensões e Politização

Outro elemento que eu já notava claramente naquela época em que eu era o presidente da CRB era a politização. Tudo passou a ser visto politicamente, devido à leitura da realidade a partir dos pobres e aí, inconscientemente até, os religiosos saiam de uma visão conservadora para uma visão de transformação da sociedade. Com muito pouco preparo intelectual, mas com muita generosidade, com base no evangelho, na caridade e no amor aos pobres. Mas eles entravam num mundo político muito complexo. Muitos caminharam na direção do PT, por conta do queo partido representava. Naturalmente, isso provocava, em relação à geração mais velha, uma série de tensões.

Ao mesmo tempo, quando eu assumi a direção na CRB já havia trabalhado muitos anos com o Padre Marcelo Azevedo, que foi a pessoa que realmente reestruturou a CRB, com o Irmão Claudino Falchetto,e isso me ajudou a discutir os problemas. A nossa Revista Convergência (eu era da equipe de teologia) foi pioneira nas discussões. As nossas Assembleias eram muito fortes e lá tentávamos refletir com todo mundo as questões, mas faltava a suficiente maturidade, o conhecimento da realidade, o conhecimento de si, o conhecimento da política para daí então fazer um discernimento mais evangélico. Não com base na generosidade, mas numa leitura adequada da realidade brasileira. Foi uma época em que um grande número de conventos, seminários e casas de formação fecharam.

Na minha congregação nunca diminuiu o número de vocações. Nós deixamos o seminário tradicional, com aulas em latim e com professores alemães, e passamos a viver em comunidades inseridas. Dos rapazes da época, praticamente 60% deles deixaram a vida consagrada. Muitos se casaram, ficaram famosos, outros entraram na política, no mundo do trabalho. Mas até hoje eles não perderam o carisma da congregação, com quase 70 anos de idade.

Naquela época víamos religiosos que estavam inseridos no sistema construído anteriormente: sistema hospitalar, sistema de escola e fomos percebendo a vinda de certa tendência socialista. A pressão que vinha do mundo empresarial ia colocar esse grupo em sérias dificuldades, como está colocando até hoje, pois vivemos num mundo capitalista.

Espiritualidade e abertura

De um lado, era preciso ter uma formação histórica, sociológica, uma visão política da realidade do Brasil. De outro lado, começávamosa acentuar a espiritualidade. Nós realizamos cursos de formação de diretores espirituais. Nessa época a CRB se abriu para a América Latina,de uma maneira mais marcante, via Confederação Latinoamericana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR) e começamos a trabalhar mais com a Bíblia. Começamos a articular um trabalho latino-americano de leitura da Bíblia, mas tivemos muitos problemas com a hierarquia e o trabalho foi proibido. Trouxemos o trabalho para o Brasil e tivemos o total apoio dos bispos. Foram sete volumes que nós escrevemos, em sete anos, pelos grupos de leitura orante sistemática da Bíblia. O resultado é que numa Assembleia como esta quase todo mundo tem uma visão adequada da Bíblia.

Então, o nosso principal trabalho,que nos orientava, era este de formar para a vida religiosa e a consciência social, ver a necessidade de reformular nossas obras e esse trabalho de espiritualidade com base na Bíblia, que é ler a Palavra de Deus. E aí, temos a necessidade de saber qual era a condição política no tempo que este texto foi escrito e isso nós fizemos. Foi uma fase de abertura.

Devido a uma análise histórico-sociológica, começamosa perceber o débito que nós tínhamos com o mundo que veio da África para o Brasil, que tínhamos colocado a Vida Consagrada muito no centro-sul do país. Então,começamos a nos preocupar também com as culturas e religiões negras, com os indígenas. Houve uma movimentação em direção à África e outra em direção à região Amazônica.

A importância da unidade na construção da nova figura histórica da Vida Religiosa

No mundo atual, mutante e em constante transformação, os desafios são outros. A figura histórica da vida religiosa que eu conheci como criança não tem mais espaço, não cabe mais hoje. A nova figura histórica não surgiu ainda e não vai surgir de maneira uniforme. Não será uma autoridade que vai defini-la. Nós teremos que criá-la. Então, eu acho que o grande desafio – e esta Assembleia nos ajuda -aponta na direção da nova diretoria, é que nós temos que manter a unidade. Isso nos unirá no seguimento de Jesus, na escuta e no discernimento da Palavra que Deus nos diz, pelo espírito dos sinais dos tempos.

O sinal que, em minha opinião, tivemos mais dificuldade de entender, é que aquele modelo de vida religiosa não voltará mais.Precisaremos dos nossos bispos, do nosso Papa. Eu acho, e quero dizer isso claramente, que o Vaticano brecava tudo. Nós teríamos avançado muito mais. Poderíamos ter hoje o dobro dos padres que o Brasil tem atualmente. Mas não temos porque foi um modelo (de vida religiosa) único, controlado. Acho que é preciso dar liberdade às Igrejas particulares, à unidade dos religiosos com os seus pastores, com os leigos. Essa unidade tem que ser elaborada aqui e esta é uma questão complexa a ser enfrentada, com rosto brasileiro.

Haverá uma acerta tensão, porque nós precisamos nos abrir às Igrejas irmãs, aos povos e culturas irmãs. Isso exigirá de nós uma série de processos de análise de realidade, de opções de trabalho.Nós queremos trabalhar com a conscientização de direitos, a autonomia, a participação real, a lucidez. Então, eu acho que nós temos um trabalho de educação política e social. Isso nós podemos fazer nas nossas escolas, nos nossos movimentos etc.

Eu vejo também que a CRB, devido a sua longa tradição, afinal ela existe há mais de 60 anos, por manter um grupo mensal pensantede antropólogos, historiadores, biblistas, psicólogos, teólogos – municiava a caminhada. Mas nós precisamos fazer parcerias com o episcopado. Eu temo que os laços estejam esgarçando. No tempo em que eu era o presidente da CRB nós éramos muito próximos à CNBB. Tanto que no projeto da leitura orante da Bíblia, apesar da oposição de boa parte do episcopado centro-americano e do Vaticano, quem escreveu o prefácio do primeiro livro foi DomAloísio Lorscheider, que era cardial e presidente da Comissão de Doutrina.É preciso criar mais proximidade com a CNBB no sentido de nos unirmos mais às Igrejas locais, aos bispos, às comissões nacionais de leigos, presbíteros, para caminharmos juntos.

Vocação Religiosa e missão

A nossa vocação de religioso tem suas especificidades. Acho uma coisa confusa você ser padre e religioso ao mesmo tempo. A vocação religiosa é laica. A vocação sacerdotal é um sacerdócio em função de dirigir uma comunidade de fé, de esperança, de culto, de amor, de ação, de presença, de anúncio da Palavra. Mas nós religiosos, precisamos ter mais liberdade e não ficar assumindo paróquias. Um exemplo é a congregação marista que está aqui em Brasília com dois belos colégios, os franciscanos também;mas na Assembleia tivemos a apresentação de um grupo de capoeira com uma meninada de Ceilânida (cidade satélite de Brasília) de uma de suas obras sociais. Este é o primeiro passo: trabalhamos com essa classe média sofisticada, mas também atendemos aos pobres.

Em São Paulo, pelo menos, os colégios já não evangelizam mais. Eu sempre defendi na minha congregação: “Vamos vender esses colégios e dar esse dinheiro aos pobres, por meio de obras inteligentes, de cultivo da espiritualidade, do conhecimento do Evangelho, das práticas cristãs, da vida, para ajudá-los a assumir a sua condição de povo”.

Eu sinto que a caminhada continua. O grupo eleito nesta Assembleia não teve a experiência que o Padre Palácio, o PadreLibânio e eu tivemos e o mundo é outro. É preciso escutar o grito que vem das ruas. Nós não temos ninguém trabalhando na cracolândia, com tantas congregações de educadores. É preciso voltar à missão, construir comunidades de base. O grande sinal que a vida religiosa não reconheceu foi esse: voltar à missão. Eacontecerá com esse Papa. Ele está provocando isso. Haverá uma oposição muito grande e ele está indo devagar…

O nosso carisma,às vezes, nos obriga a dizer não para um bispo. Isso é desobediência? Não. É obediência evangélica. Agora, não é possível mandar ou impor nada ao bispo. Ele é responsável pela Igreja católica. A vida religiosa precisa de autonomia, mas o Direito Canônico amarra muito. Tenho grande amor à Igreja e respeito aos bispos. Nesta nova fase, com um episcopado muito mais conservador, mas jovem, é que a nova presidência da CRB vai ter que lidar. Por isso, eu acho importante que as relações com o episcopado não se deem somente em Assembleias, mas no dia-a-dia.

Fonte: Assessoria de Comunicação da CRB Nacional – Entrevista realizada durante a Assembleia Geral Eletiva da CRB Nacional de julho de 2013

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