Iahweh – o Deus do deserto e do caminho

Cinco expressões verbais marcam profundamente a experiência de Deus feita pelo Povo de Israel por ocasião do êxodo ou libertação do Egito. A saída libertadora, convém ter presente, constitui o alicerce fundante do próprio Israel como nação independente e autônoma, seja o que quer que entendamos por independência e autonomia naquela época. Num diálogo espiritual e teológico entre os livros do Êxodo e Deuteronômio, essa experiência mítico-religiosa adquire um caráter único e surpreendente no mundo antigo.

Nestes breves parágrafos, limitemos esse diálogo ao confronto entre dois textos bem precisos: o primeiro, mais primitivo e menos elaborado (Ex 3,7-10), faz parte do episódio do encontro de Moisés com Iahweh, na imagem da “sarça ardente”; o outro, mais tardio e já formulado como uma espécie de “confissão de fé” ou “credo histórico”, passa a ser recitado nos cultos ao mesmo Deus (Dt 26,5-10). As referidas expressões verbais são extraídas do primeiro texto, conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém, não obstante o segundo remontar igualmente à descoberta da nova divindade. É esta última que, de acordo com o autor do livro em questão, explica de forma textual a razão da irrupção divina nesse momento da história humana: “o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo”. Os números indicados na citação abaixo referem-se não aos respectivos versículos bíblicos, e sim à sequência das expressões verbais assinaladas:

  1. Eu vi a miséria do meu povo que está no Egito.
  2. Ouvi o ser clamor por causa dos seus opressores,
  3. Pois eu conheço as suas angústias.
  4. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel (…).
  5. Vai, pois, eu te enviarei a Faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel.

Trata-se, como se vê, de cinco formas verbais, todas na primeira pessoa do singular, colocadas na boca de Iahweh. Revelam, por parte da nova divindade, extraordinária atenção e solicitude para com a real situação em que se encontra o povo, na condição de escravo e estrangeiro. Os cinco verbos – ver, ouvir, conhecer, descer e enviar – expressam também inusitada ternura e preocupação, sensibilidade e solidariedade de um Deus próximo e presente. Os três primeiros indicam compaixão e misericórdia, ao passo que o quarto e o quinto mostram movimento e ação. Estamos, pois, diante de um Deus que não penas vê, ouve e conhece, mas que também desce e envia seu mensageiro em socorro dos oprimidos. Constatada a opressão, segue-se a mobilização, a qual culminará com a marcha do povo em direção à Terra Prometida. A descida de Iahweh, por outro lado, de um ponto de vista teológico, encontrará sua plena realização no mistério da Encarnação, quando “o verbo se faz carne e vem habitar entre nós”.

Os povos antigos deixaram numerosos vestígios de seus altares, divindades e devoções. Porém, diferentemente dos impérios vizinhos, tais como Babilônia, Pérsia, Grécia ou Roma, Israel é o único cuja divindade se põe, com ele, na estrada. Não um Deus estabelecido no altar, no trono, no palácio, ou na Cidade-Estado, mas um Deus do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora. Não uma divindade a serviço do status quo, e sim de um Deus no caminho e a caminho. Só mais tarde surgirão o rei e a realeza, o palácio e o templo, a exploração e o sacrifício, coroados pelo brilho da pompa e solenidade. Os deuses dos impérios justificavam, legitimavam e abençoavam a opressão da cidade sobre o campo, através de pesados impostos e da corveia. Em lugar disso, Iahweh segue seu povo como um forasteiro em uma arca, o que faz lembrar o projeto de “Igreja em saída”, do Papa Francisco. A arca do Senhor acampa na tenda e esta, por sua vez, se arma e desarma de acordo com o curso e o ritmo da histórica humana.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 5 de dezembro de 2021

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