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Deus é tão frágil e ao mesmo tempo tão forte, porque sua única arma é o amor

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Quem ama converte-se numa flor frágil, batida por todos os ventos, todas as estações e todas os ataques e todas as tempestades. As pétalas mal se mantêm unidas ao botão, mas o amor supera as mais duras adversidades, venham elas de onde vierem. Não será diferente a travessia terrena de Jesus Cristo, a revelação encarnada do Verbo divino. Pelo menos em três ocasiões precisas, tornar-se conhecida e notória a fragilidade e a força do profeta itinerante de Nazaré: por duas vezes revela sua sede e sua água; no jardim do Getsêmani, questiona mas aceita o cálice que lhe oferece o contexto histórico de extrema violência; e no alto da cruz, não obstante o sofrimento e a agonia, é capaz de trocar a violência pelo o perdão.

Que significa um Deus-humano ou um homem-divino revelar sede/água a uma mulher? Mulher cujo encontro era triplamente proibido: um judeu não podia dirigir a palavra em público a uma mulher; ademais, ela era de outro povo, uma samaritana; e o mais grave, mantinha uma vida nada recomendável do ponto de vista moral e religioso. O episódio nos é narrado no Quarto Evangelho (Jo 4, 1-42). João, “o discípulo que Jesus amava”, como que brinca com os símbolos. Na narrativa, entram em cena duas pessoas, dois tipos de sede e dois tipos de água. Jesus revela a sede e, ao final, propõe a água viva e verdadeira; a samaritana vem buscar a água para o seu cotidiano e, ao final, acaba por pedir essa estranha água àquele estranho judeu. Mas retomemos a pergunta: que significa revelar a própria sede? É o mesmo que reconhecer: “Mulher, preciso de ti”! Sim, preciso de ti, seja para receber a água que satisfaz a necessidade do corpo, seja para oferecer a água que preenche o vazio da alma, a água do amor sem limites e da salvação. Só o diálogo, livre e transparente, à beira do poço/encontro, é capaz de intercambiar água e sede. O mesmo se verá na cruz, onde uma sede atroz fazia sofrer o agonizante.

No Getsêmani, a hora é chegada. As forças do mal já estão à espreita. Já se aproximam Judas, o traidor, juntamente com os guardas. Vendo o fim batendo à porta, o lado humano de Jesus nada tem a oferecer ao Pai. Quais os frutos de tanta renúncia, tanto esforço e tanta abnegação? Ao lado dormem “doze gatos pingados”, que logo pôr-se-ão em fuga. “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita” (Lc 22,42). Não haverá outra alternativa ao contexto de sujeição do povo? O silêncio é a única resposta à oração nua e frágil, que brota das entranhas do Nazareno. “O Pai representa silêncio, o Filho é a palavra e o Espírito o encontro”, diz o teólogo italiano Bruno Forte. Jesus conhece o silêncio do Pai. Durante a vida pública, passava noites inteiras nessa intimidade de deserto – que nada diz, mas tudo ilumina. Interpretando o silêncio do céu, Jesus se dá conta que deve aceitar o cálice: “minha alma está triste até a morte” (Mt 26, 38). E parte para a via-sacra que o levará à paixão e crucifixão.

No alto da cruz, instrumento de tortura e morte reservado aos piores malfeitores, além de sentir sede, o Mestre oferece a última coisa que lhe resta: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). À agressão injusta contra um inocente que “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38), Jesus devolve com o perdão. O contraste é de tal forma grandioso que um raio cai sobre a cabeça dos que o ouvem. Encontram-se, confrontam-se e se batem a violência e a maldade gratuitas contra o amor, igualmente gratuito. Uma espécie de curto-circuito positivo faz explodir a faísca mais luminosa de todos os tempos e de toda a humanidade. A resposta de Deus ao crime e ao pecado humano é o amor misericordioso. A vingança do Pai contra a morte cruel do Filho é o perdão. A fragilidade inaudita revela uma força inusitada. A luminosidade desse último gesto é tamanha e tão espantosamente surpreendente que o pior instrumento de tortura e de morte se converte em símbolo de doação total. A cruz maldita passa a figurar como sinal de benção e de graça para os que a ela haverão de recorrer ao longo dos séculos.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Guaporé/RS, 26 de setembro de 2021

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