Bondade

Bondade é virtude de quem tem alma nobre e generosa. É qualidade de quem, como Jesus Cristo, é capaz de amar sem limites e de fazer sempre o bem a si próprio, ao outro e à natureza. Bondade gratuita, contínua, ampla, manifestada nas pequenas coisas – simples e discretas como violetas – e também nas grandes – imponentes e distintas iguais a sinos. Porém, se tenho poucas oportunidades de realizar atos vistosos, o cotidiano me oferece inumeráveis possibilidades de singelos atos de bondade. Willian Wordsworth expressa que “as melhores porções da vida de um ser humano digno são seus pequenos, anônimos e despretensiosos atos de bondade e amor”. Sou capaz de atos grandiosos apenas se meu coração é suficientemente grande para perceber e realizar as pequenas coisas. “Ponha o coração, a mente, o intelecto e a alma mesmo nos atos mais simples”, aconselha Swami Sivanada.

Bondade é dedicação integral ao bem, sem contar com gratidão. Não há mérito em fazer o bem esperando retribuição. Bondade é fruto do amor verdadeiro, que é livre, gratuito e incondicional. “Faça tudo com a mente desapegada. Não espere elogios ou recompensas”, diz Achaan Chad. Aprendo com René Spitz que, mesmo estando muito ocupado, devo sempre arranjar tempo para fazer alguém se sentir mais importante. Madre Tereza me ensina que não devo permitir que alguém saia da minha presença sem se sentir melhor e mais feliz. Sendo bom, consigo perceber quando o outro precisa de mais amor. Um provérbio chinês me mostra que é necessário amar alguém mesmo quando menos merecer, pois é quando mais precisa.

A bondade origina-se de Deus e se manifesta no milagre da existência e da vida, na beleza da criação e na bela complexidade humana. Uma das belezas que Deus concedeu ao ser humano é a capacidade de ser bom, que, de modo geral, permanece sufocada e atrofiada. A bondade é contagiante e realiza milagres. Há sempre milagres onde há bondade e amor. Acontece milagre quando respondo com bondade a quem me faz o mal. Acontece milagre quando promovo a bondade onde há agressão verbal ou física. Acontece milagre quando estendo olhar de bondade sobre as violências humanas, como pobreza, analfabetismo, depredação ambiental, entre tantas outras. Mesmo que muitos abusem da minha bondade, devo persistir.

Quando sou bom, não julgo. Julgar é estar vazio de Deus. É ter coração pequeno. “Um ser humano julgando outro é um espetáculo que me faria estourar de riso, se não me desse uma grande pena”, declara Gustave Flaubert. Igualmente, quando sou bom não critico nem faço sofrer. Só se sente bem em diminuir o outro e pisar nele quem é muito pequeno e de pouco valor.

Sou inteiramente injusto quando culpo Deus pelos males da Terra. Tudo o que Ele criou é bom e seus planos são perfeitos. A história da humanidade é determinada pelo que acontece em meu coração e em minha mente. Se Deus está no centro da minha vida, é natural escolher a bondade. Isso é sabedoria. Ser bondoso é um modo de ser sábio. “Seja rápido para amar, tenha pressa em ser bom”, ressalta Henri Frederick Amiel, e William Penn me faz este alerta: “Se houver alguma gentileza que eu possa demonstrar; ou qualquer coisa boa que possa fazer a qualquer ser humano, que eu o faça agora, e não me detenha ou o ignore, porque não cruzarei novamente este caminho.” Não devo, pois, esperar. Amanhã pode ser muito tarde.

Ser bom muitas vezes exige-me sacrifícios: ter abertura mental; substituir o coração de pedra pelo coração de carne; limpar o coração de preconceitos e discriminações e acolher as diferenças; sentir-me natureza; abrir mão do materialismo exagerado e do racionalismo sem sensibilidade; cultivar consciência crítica e questionar meus valores; sair do comodismo e da rotina; aceitar terapia espiritual e emocional; fazer mais doação de mim que de coisas; crescer sempre. Porém, onde há amor, o sacrifício não dói. “O amor faz estimar como bem próprio o que é dever”, acentua Juan Luis Lorda.

Quando sou bom, aviso, aconselho, corrijo, oriento, em vez de permanecer indiferente ou de sentir prazer em ver o outro se afundar. Quando sou bom educo com segurança, firmeza e afeição para os limites, em vez de fazer papel de “bonzinho”. Quando sou bom liberto a mente e o coração de pensamentos, sentimentos e emoções que machucam e deixo fluir a alegria e a vontade de viver e conviver.

A bondade me faz ver que sou ser humano carente. Por isso, é também bondade ter a docilidade de me submeter à bondade do outro. Pela bondade e pelo amor que dou e recebo, sinto-me conectado à corrente humana. Ao dar amor, compreendo que estou preso à teia da vida e entregue à minha condição humana, pensa Daphne Rose Kingma.

Se a bondade divina me fez natureza e me deu como companhia os seres não-vivos e vivos, é coerente que eu também, como ser humano – criado à semelhança do Criador – seja bom para com a natureza, não poluindo o ar, a água e o solo e cuidando das demais espécies vivas – animal e vegetal.

Se a bondade para com o outro e para com a natureza é difícil, também para comigo não é fácil. Às vezes, vem acompanhada de complexo de culpa, porque, devido a falsas crenças religiosas, acho-me desmerecedor do que é bom e parece egoísmo cuidar de mim. É necessário ver que a bondade não nasce do vazio. Sem encher meu coração e mente de bondade, que vem de Deus, não tenho muito a oferecer ao outro e à natureza. O livro Gestos de Bondade[1] oferece bela e indispensável reflexão:

“É crucial, portanto, que reabasteçamos nosso próprio espírito para que possamos exercitar a compaixão pelos outros. Nossos empregos exigem tempo e energia, porque essa parte de nós é comprada e remunerada por isso. De muitos de nós, o trabalho exige ainda mais – que o levemos para casa, que nos preocupemos com ele, que esgotemos nossas preciosas reservas de tempo, energia e concentração, em detrimento de nossas necessidades pessoais, desejos e prazeres. Então é a vez da família. Filhos, companheiros, pais, irmãos sempre nos cobrando algo. (…) Para algumas pessoas, principalmente as boazinhas, meigas almas generosas (…) o fazer pelos outros nunca tem fim, ao contrário, cresce, à medida que os “outros” acostumam-se mais e mais a ter alguém que faça por eles. Portanto, o que começa como generosos atos de bondade pode se transformar aos poucos em atos de servidão sem nenhum sentido. Quem os pratica, empobrece-se duplamente. Primeiro, porque os atos em si deixam de ter o valor de um presente e passam a fazer parte da rotina e do peso da obrigação; e segundo, eliminam a possibilidade do cuidado com si próprio. (…) Não há dúvida de que há inúmeras razões que nos levam a adotar esse triste padrão de comportamento. Acredito que a raiz do problema se constitui um fato ainda mais triste – o de que damos tão pouca atenção a nossos desejos e necessidades, que acabamos ficando em permanente estado de carência e insatisfação e querendo, sempre querendo, esperando que alguém os realize por nós. Para que gestos de bondade floresçam, é preciso começar no lugar mais difícil, em nosso próprio coração. Para colher frutos abundantes, precisamos começar por simples gestos de bondade com nós mesmos. Só então, como conseqüência e com um coração transbordando de amor e bondade, seremos capazes de dar aos outros com sinceridade”.

Para Janet Falldron, “a mãe que renuncia à sua vida pelos filhos não lhes faz nenhum bem; ao contrário, sobrecarrega-o com o legado de uma vida não vivida”. É sábio ajustar a medida entre cuidar do outro e cuidar de mim, para que eu não sufoque ninguém, com excessivo amor, nem prejudique a mim, com amor escasso.

O cuidado para comigo deve se dar em nível abrangente: no bem-estar físico, na saúde espiritual, no equilíbrio emocional, no progresso intelectual, no convívio social e ambiental, nos direitos humanos, no lazer, na amizade, no amor. E isso não é nada demais, não há nenhum exagero, nem vai contra a natureza humana nem contra a natureza divina.

É saudável ter consciência de que nem sempre estou na plenitude de minhas forças e é essencial perceber que sozinho pouco posso. Por isso, na humildade, simplicidade e serenidade, aceitar minha fraqueza humana e centrar minha vida em Deus. E cuidar para que as quedas não me abalem a auto-estima nem impeçam que eu me sinta amado. Para isso, é vital contemplar a face bondosa Deus e deixar-me invadir por sua imensa ternura.

Compor nesta vida a melodia da bondade é um meio de me sentir verso de um belo poema. Os fluidos bons fertilizam o universo, no tempo e no espaço. Ser bondoso é mais importante que estar certo, porque a bondade supera a justiça.

O parâmetro da minha breve vida deve ser o instante em que Deus me chama à eternidade. Nesse sublime acontecimento, o que mais conta é o quanto amei e todo o bem que consegui fazer dentro de minhas possibilidades. Tudo o mais é vaidade.

[1] Os Editores de Conari Press. Gestos de Bondade – uma coletânea ao acaso. Trad. Vera Palma. São Paulo: Ágora, 1995, p. 163-165.

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