A indústria da pandemia

Maldita expressão! Semelhante a tantas outras, simultaneamente ambíguas e perversas. Por exemplo: indústria das fake news, indústria da saúde, indústria da influência política, indústria da fé e da religião, indústria da migração e exploração sexual e trabalhista; do ponto de vista histórico, temos a indústria do colonialismo e da escravidão negra; pior que tudo, porém, é a indústria ligada ao comércio de drogas e de armas, ao tráfico de pessoas e de órgãos humanos, ao trabalho infantil e à prostituição precoce.

Todas expressões malditas! Em todas elas, a palavra “indústria” figura como artifício perverso para explorar uma situação de extrema vulnerabilidade: doença, dúvida, incerteza, pobreza, medo, guerra, violência… Ou também “indústria” como a criação e desenvolvimento criminoso de redes nacionais e internacionais, no sentido de beneficiar-se da fragilidade de pessoas em condições precárias e cuja vida se encontra ameaçada… E ainda como um pérfido oportunismo de lucrar e enriquecer com catástrofes imprevistas que se abatem sobre certas regiões, povos e países despreparadas… Tudo isso se agrava quando a catástrofe ganha proporções mundiais, trazendo consigo um “inimigo invisível, silencioso e letal”.

Evidente que a pandemia do Covid-19 pertence a esta última espécie. Onda sombria e trágica que, de nação e nação, vai ceifando vidas e enlutando famílias. Os infectados em todo o planeta já se contam aos milhões, enquanto os mortos se medem em centenas de milhares. Acima dos números, entretanto, a consciência nos adverte de que se tratam de nomes, rostos, histórias, sonhos e esperanças. Quantas famílias sequer puderam despedir-se de seus entes queridos! Justamente nesse tecido social dilacerado – revestido de tantas perguntas sem resposta e de tantas dores sem perspectiva de remédio – justamente aí, insistimos, nascem e proliferam os oportunistas de plantão. Sempre atentos à debilidade alheia, um terreno fértil e fecundo para seus crimes criativamente nefastos. Sempre frios, indiferentes e irresponsáveis quanto às consequências de seus atos. Pessoas, grupos e mesmo corporações inteiras, potencialmente industriosos quando se trata de “levar vantagem em tudo”.

Limitando-nos ao Brasil, não faltam exemplos: empresas despreparadas ou de fachada que, apesar de tudo, asseguram o fornecimento de equipamentos hospitalares, incluindo respiradores impróprios para combater o coronavírus; autoridades de alto escalão que se aproveitam do estado de emergência ou de calamidade para, sem licitação e através de fraudes e corrupção, firmar contratos superfaturados, desviando recursos da esfera pública para o setor privado; pessoas com renda familiar razoável ou acima da média e que, não obstante, fazem de tudo para meter a mão nos R$ 600 do “auxílio emergencial”; poder público usando a sua influência no processo de construção dos hospitais de campanha, no sentido de tentar, aqui também, “tirar algum tipo de vantagem”; fabricantes, intermediários e comerciantes inescrupulosos que, aproveitando-se da ocasião, elevam o preço dos produtos básicos de saúde! As próprias quadrilhas do crime organizado – o cangaço urbano – estão de olho nesse auxílio emergencial, atacando agências bancárias e espalhando o medo pelo interior do país.

Indústria maldita! Entre as cinzas, ruínas, escombros e túmulos de tamanha tragédia humana, astutamente impõe, de forma mais dura e cruel, as leis férreas do mercado subterrâneo. Roubo elevado à quinta potência, filho direto do egocentrismo como comportamento pessoal e do liberalismo econômico enquanto projeto político. Felizmente, ao lado do flagelo pandemônico e do delito engenhosamente industrioso dos oportunistas, nascem, crescem e se multiplicam os gestos de ação solidária em favor das pessoas e famílias mais atingidas e abandonadas. Por todo o território nacional, um valoroso exército de formiguinhas luta por maior justiça e igualdade social. Nesse jogo duplo de contrastes, incertezas e ambiguidades, o grande desafio é combater o vírus do individualismo e da indiferença com a vacina da solidariedade.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente so SPM – Rio de Janeiro, 15 de junho de 2020

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