Pe. Alfredo Gonçalves, cs

O lamento mantém os olhos fixos sobre as ruínas de um edifício, de um projeto ou da história, seja esta pessoal ou coletiva. O grito procura entre os escombros algo que sirva de alicerce para recomeçar o movimento. O lamento chora as perdas da crise ou da tragédia, sopesando suas nefastas consequências. O grito enxuga as lágrimas, ergue a cabeça e põe-se novamente em marcha. O lamento costuma estacionar no saudosismo, insistindo sobre “como eram bons aqueles tempos”! O grito, feita a análise da caminhada e ciente de que a história não se repete, tira as lições dos avanços e recuos, apontando para horizontes alternativos. O lamento tem um tom sufocado e oprimido, não raro silencioso ou silenciado de quem, ferido e abatido, se fecha num isolamento estéril e ineficaz. O grito se levanta, coloca a voz nas asas do vento, reúne outros gemidos ainda embrionários, sai às ruas e praças, manifesta-se e mobiliza-se em vista de mudanças urgentes e necessárias, de uma transformação histórica.

Em outras palavras, enquanto o grito vê nas ruínas e nas turbulências sinais de nova criatividade, o lamento limita-se a contabilizar os estragos e perdas. Enquanto o grito, apesar de tudo, matém uma postura ao mesmo tempo crítica e ativa, o lamento destila o gosto amargo de uma passividade incapaz de tomar qualquer iniciativa. Enquanto o grito, mesmo em tempos difíceis, acentua o lado positivo de uma retomada, o lamento não encontra meios para superar “este vale de lágrimas”. Em síntese, enquanto o grito faz dos escombros uma encruzilhada para um futuro de justiça, direito e paz, o lamento permanece voltado para o passado, curtindo a saudade do berço ou do paraíso perdido.

Não convém, entretanto, estabelecer uma fronteira nítida, precisa e taxativa entre lamento e grito. Essa fronteira costuma ser móvel e escorregadia. Lamentos e gritos se mesclam e se entrelaçam nos entraves da existência. Muitos lamentos, após um período inicial de prostração, acabam por maturar e, com força redobrada, se convertem em gritos de guerra. E inversamente, muitos gritos, após um momento de euforia precoce e superficial, retrocedem a um estado de desânimo, de apatia e de desencanto, como se improvisamente lhes faltasse o oxigênio da esperança. Na história recente do Brasil, não seria difícil multiplicar os exemplos desse tipo de superação ou desse tipo de retrocesso.

Por isso é que, na 24ª edição do Grito dos Excluídos, na Semana da Pátria, de pouco serve limitar-se a um lamento sobre a desigualdade, a violência e os privilégios dos setores dominantes. O país vive uma crise prolongada e prepara-se para as eleições. Em tal contexto, a crítica é sempre válida, evidentemente, mas com a condição de voltar-se para alternativas futuras viáveis. O tempo de ruas e praças compactas pela multidão organizada, o tempo e das mobilizações espetaculares não volta com a rapidez de nossas expectativas. Talvez seja hora de garimpar nos escombros da crise: retirar as pérolas que motivaram ações passadas, mas, ao mesmo tempo, abandonar vícios nem sempre reconhecidos e bem avaliados. A crítica sem a autocrítica costuma ser um ingrediente do populismo nacionalista. É hora, sobretudo, de acreditar nos pequenos gestos, nas pequenas ações, no trabalho de base miúdo e persistente, na semente oculta no seio da terra, nas novas e criativas expressões e linguagens – no sentido de superar o lamento e avançar decididamente para um grito pelo “Brasil que queremos”, onde seja respeitada “a vida em primeiro lugar”.

Quem sabe seja o caso de retomar a intuição e o esquema do movimento profético no antigo Israel. No Livro das Lamentações, por exemplo, seguindo o título da obra, o profeta lamenta amargamente a destruição do Templo e da cidade de Jerusalém, ocorrida no ano 587 a.C., seguida do exílio de seus habitantes para a Babilônia. O lugar de culto e a cidade santa, símbolos da religião e da identidade da nação, encontram-se inteiramente devastados. Varridos pela fúria do inimigo. O pranto adquire a tonalidade de um luto fúnebre. Mas o texto não se limita às “lamentações”. A partir dos próprios lamentos, emerge um profundo sentimento de confiança; no Deus fiel da Promessa, e na força organizativa da população. Passa-se do lamento ao grito. De fato, o fio condutor do livro, seu valor e mensagem essencial, é justamente o grito pela reconstrução da identidade do povo, do país e da própria história.

                                                                                                    Roma, 23 de agosto de 2018

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