Por Ilka Oliva Corado| 10.04.14|  Frei Tomás González, apelidado de “Frei Tormenta”, dá voz aos milhares de migrantes que transitam pela América do Norte sem documentação e enfrenta o Estado para combater a violência por que passam dia a dia. O sacerdote Frei Tomás González é quem está a cargo da Casa do Migrante em Tenosique, Tabasco, México, que leva como nome Lar-Refúgio para pessoas migrantes “A 72”.

Em julho de 2010, enquanto estava como tutor de franciscanos em Izamal, Yucatán, o enviaram a Tabasco para ser o pároco da igreja Cristo Ressuscitado, ali poderia se dizer que iniciou sua árdua luta em defesa dos direitos humanos dos migrantes sem documentos, que atravessam o México em busca de chegar à fronteira com os Estados Unidos.

Seus amigos migrantes o chamam “Frei Tormenta”. O padre Alejandro Solalinde se refere a ele como um irmão “explosivamente profético”. Nas palavras do bispo Raúl Vera: “Imediatamente, se fez notar por sua ousadia. No terreno da migração, é uma das pessoas que se destaca pelo grau de dificuldade”.

Em setembro de 2013, obteve o reconhecimento do Prêmio Franco-Alemão de Direitos Humanos “Gilberto Borges”, concedido pela Alemanha e França. É o sacerdote mais próximo da fronteira entre Guatemala e México, pelo lado do rio Suchiate, é quem recebe, durante três anos consecutivos, a Caravana de Mães de Migrantes Desaparecidos. A Casa do Migrante “A 72” é a mais próxima da linha do trem onde abordam “A Besta” milhares que buscam chegar aos Estados Unidos.

Frei Tomás González veste uma túnica de São Francisco, caracterizada com cor café e um cinto branco amarrado à cintura. Não pode passar despercebido por quem está contra a defesa dos direitos dos migrantes sem documentos. Tive a oportunidade de entrevistá-lo por telefone, escutei a voz de um homem decidido, íntegro e, sobretudo, justo.

Deixo com vocês um dos homens que fazem a diferença dentro e fora da igreja.

O que aconteceu quando lhe avisaram de sua mudança de Yucatán, onde era tutor de franciscanos e lhe enviaram a Tabasco para ser pároco de uma igreja?

Olha, nós estamos acostumados a esse tipo de situações de mudanças, porque, assim, somos todos os religiosos, de repente nos mandam para uma missão, é assim mesmo, e eu vim com muito prazer para cá.

Com o quê você se deparou ao chegar a Tenosique?

O albergue funcionava na paróquia. O projeto de ajuda ao migrante teve início em 1995, era um projeto de atenção dentro do projeto da paróquia de franciscanos, era um grupo a mais. A Pastoral de Migrantes atendia àqueles que, eventualmente, chegavam à paróquia para pedir comida ou hospedagem. Quando eu cheguei, retiramos o albergue da paróquia, conseguimos um prédio muito maior, de 3 mil metros quadrados, e começamos a construir e a trabalhar.

Como surge “A 72”?

“A 72” surge porque me mandaram para Tenosique no início de julho de 2010 e me deparei com um projeto muito bom, mas muito simples, com normas que cumpriam, até o momento, o projeto: as famílias não podiam ficar por mais de três dias, não aceitavam mulheres, não havia um trabalho de defensoria dos direitos humanos, era um trabalho meramente assistencial, era bom, mas para a realidade que estávamos vivendo no momento, em Tenosique, já não era suficiente.

Porque estavam chegando muitas vítimas de sequestro, abuso sexual, conflito com as autoridades e, em agosto daquele mesmo ano, ocorreu o assassinato de 72 migrantes em San Fernando, Tamaulipas, e eu estive muito próximo da investigação. Investiguei por conta própria quem eram, de onde vinham e muitos dos que foram massacrados passaram por Tenosique. Então, decidi retirar o albergue de lá e nos entregar com mais afinco, sobretudo, à denúncia de tudo o que estava acontecendo na região, porque se escutava em Tenosique, especialmente por ser uma área fronteiriça de cruzamento, os migrantes, quando chegavam ao centro ou ao norte do país, davam alguns testemunhos e já se animavam em dizer tudo o que estava acontecendo.

Convocamos uma primeira observação e, meses depois, vieram 10 organizações, fizemos um trabalho de pesquisa e publicamos um informe, que se chamou “A Fronteira Esquecida”, no qual dávamos conta de todas as atrocidades que se passavam na fronteira de Tabasco, em Tenosique, e na rota da ferrovia de Tabasco.

De 2010 até hoje, quantas pessoas passaram pelo albergue?

Nós atendemos a mais de 25 mil migrantes.

O que fazem com as pessoas feridas, as atendem aí ou as levam a algum hospital próximo? Vocês têm os recursos médicos ao alcance?

Olhe, se eu lhe dissesse como temos atendido às pessoas feridas seria um catálogo, um catálogo muito grosso. Para começar, todos e todas são vítimas, porque vêm fugindo de uma situação econômica muito precária em seus países de origem, é gente que se endivida e que vêm praticamente esfolada, nós recebemos a migração mais pobre porque são os que sobem no trem, “A Besta”.

Pessoas que não têm dinheiro para pagar um ônibus ou para pagar uma extorsão e, ainda assim, muitas delas não imaginam o que pode acontecer no trajeto, por isso lhe digo que falamos de um catálogo muito, muito grande, porque quem não os assalta, os despe, não veem distinção entre homens e mulheres. As autoridades os extorquem, cobram cotas para embarcar no trem. Os testemunhos que recebemos são de sequestros, mortes, violação sexual e impunidade das autoridades corruptas.

As autoridades do Instituto Nacional de Migração estão trabalhando junto aos cartéis. O que ocorre em Tabasco?

Eu, quando cheguei a Tenosique, denunciei vários sequestros massivos. A Migração atuava da seguinte maneira em conexão com o crime organizado: faziam operações, paravam o trem fora de Tenosique, à parte que atuavam sem que ninguém dissesse nada. Levavam dois, três, quatro caminhonetes do Instituto Nacional de Migração. O trem sempre vai com mais de 200, 300 pessoas. É lógico que os agentes de migração não podem deter todos. A tática era que, uma vez que os levavam, o INM, ali chegava o crime organizado e sequestrava o que podia, que era a maioria, porque eles, com armas pesadas, submetem as pessoas.

Nós denunciamos essa corrupção, como é possível que coincidissem quando havia blitzes. Uma vez tudo bem, mas era sempre. Era toda uma tática, uma operação do crime organizado.

Como está a situação com o governador do Estado? Que apoio vocês têm?

Até agora, o senhor governador nos tem mandado embaixadores em seu nome. Dir-lhe-ia que o presidente municipal e outras pessoas [têm dialogado], mas ele nunca se faz presente. Quando o senhor governador fala sobre o fenômeno migratório nos damos conta de seu total desconhecimento não somente da migração da América Central, mas também na migração em geral.

Mas, tudo bem, no governo anterior, como disse Salinas, “nem nos veem, nem nos escutam”. Nesse momento, pelo menos, já nos escutam. Isso já é um lucro.

Nós seguimos insistindo em que deve haver uma política migratória local de atenção sensível à população migrante. Uma política migratória que tenha a ver com as políticas sociais. O México tem que abrir suas portas como as abriu no século passado para receber os refugiados guatemaltecos, os refugiados europeus que vinham fugindo das guerras civis. Isso é o que se está propondo.

Que apoio vocês têm tido dos consulados centro-americanos em Tabasco?

Para lhe dizer uma coisa, a Direção do Migrante do Estado de Veracruz propôs ao cônsul-geral de Honduras em Veracruz um prêmio outorgado pelas pessoas das Nações Unidas. Várias organizações levantaram a voz, assinamos para que isso não fosse possível. Umas semanas depois, o embaixador de Honduras no México deu um prêmio ao governador de Veracruz por sua atenção aos migrantes. Isso, para nós, é uma gozação, porque são pilotos mandados pelas autoridades, e, desafortunadamente, Veracruz é hoje o estado onde mais sangue derramam os migrantes.

O que quero dizer com isso é que, longe de ajudar seus compatriotas, estão traindo, porque não há nenhuma denúncia enérgica do corpo diplomático de nenhum país para fazer com que o Estado mexicano veja o que estão fazendo com seus compatriotas.

Quantas pessoas chegam por dia à Casa do Migrante?

Agora que estamos em alta temporada chega uma média de 50 pessoas por dia. Quando chegam à casa, explicamos as normas, perguntamos quem quer solicitar um visto humanitário, quem quer legalizar sua situação, quem vai solicitar refúgio. A maioria depende do trem cargueiro da “Besta”. Na hora em que passa, a maioria se vai. Despedimos-nos. Não temos uma norma que indique o tempo que eles têm que ficar na casa.

Vocês, como Casa do Migrante, têm resgatado pessoas sequestradas?

Nós somos mediadores dos sequestrados, para que liberem as pessoas que estão sequestradas. E, claro, chegam pessoas que escapam de ser sequestradas ou que escapam das casas onde foram mantidas sequestradas.

Chegam meninos e meninas que viajam sozinhos?

É uma população que tem crescido de maneira surpreendente, tem disparado o fluxo migratório de meninas, meninos e adolescentes que viajam não acompanhados. No ano de 2012, 5% da população que viajou eram menores de idade não acompanhados. No ano de 2013, subiu para 20% e o que temos em 2014 é que já chega a 16%.

Sei que vocês têm sofrido hostilidade, assédio e, inclusive, ameaças de morte.

Aqui todo mundo vem nos ameaçar, inclusive mandam e-mails da parte do crime organizado, da delinquência comum ou das autoridades. Recebemos assédio de todos.

Em setembro de 2012, depois de fazer uma denúncia contra o Instituto Nacional de Migração e o Exército mexicano, porque nos reforços que colocavam estavam despindo as pessoas e obrigando-as a fazerem coisas muito vergonhosas. No dia seguinte, o Exército mexicano me cercou junto a outros colaboradores, em torno de 25 pessoas. Cercou-nos durante mais de cinco horas. Apontaram-nos uma arma, diziam que éramos suspeitos de portar droga.

Posteriormente, fizemos uma denúncia, pediram desculpas depois e, até o momento, não apontam quem me ameaçou. Porque houve um alto funcionário do Exército que chegou a me ameaçar, a querer me agredir.

Diga-me, o que tanto pesa nisso de “estamos para servir” quando a causa é a defesa dos direitos humanos de migrantes sem documentação em um lugar como Tenosique?

Claro que é difícil. Eu digo que estamos no meio de uma guerra contra gente inocente, como geralmente são as guerras de verdade, uma perseguição, uma política migratória de extermínio, que as pessoas não conseguem entender por que a sociedade mexicana, por que as autoridades mexicanas, por que nos postos de segurança, as agridem, despem, violam, por que tanto ódio contra elas.

Os migrantes dizem muito bem: o único que queremos é cruzar seu país. Se o México não atravessasse o caminho, não nos interessaria para nada. Algumas vezes nos dizem: não queremos ficar no México porque o dinheiro mexicano não vale. E têm muita razão.

O que eles querem é ganhar dólares. Nas mesmas fábricas que estão em seus países de origem e vêm dos Estados Unidos, que são instaladas ou impostas em seus países de origem, eles não querem trabalhar lá porque pagam com dinheiro [que] dizem que não vale. Dizem que o dinheiro do dia na Guatemala não vale porque não podemos viver com isso.

Então, de maneira muito consciente, chegam a trabalhar para os Estados Unidos na mesma empresa de manufatura, mas com outro salário.

Há câmeras de segurança dentro e fora do refúgio, mas têm passado pessoas que trabalham com o crime organizado que se fazem passar por migrantes. Como as detectam?

Temos de ser muito inteligentes, muito astutos. Elas trabalham com o medo, sua estratégia é violenta. Nossa estratégia deve ser totalmente outra. Nós acreditamos que temos razão. Se entra um “zeta” [membro de organização criminosa mexicana cujos principais negócios são o tráfico de drogas, a extorsão, o sequestro, o homicídio, o tráfico de pessoas e o roubo de automóveis] na nossa casa, um mara [membro da organização criminal Mara Salvatrucha], um coiote [pessoa a quem se paga para transportar imigrantes às escondidas para cruzar as fronteiras entre México e Estados Unidos], falcões [informantes do crime organizado], sabemos perfeitamente o que temos que fazer com eles. Não os enfrentamos diretamente porque perderíamos, dizemos que têm de sair da casa e se alguém se obstina em querer fazer mal, para isso existem as autoridades.

Sei que vocês fizeram uma denúncia ante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Efetivamente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos ditou medidas cautelares porque, inclusive, um mês depois de que havíamos sido beneficiados por um mecanismo para defensores e defensoras de direitos humanos e jornalistas aqui no México, ainda assim continuavam nos prejudicando com tudo o que isso significava. Supõe-se que já tínhamos a proteção do Estado mexicano e seguiam nos prejudicando. Claro, isso demonstra a simulação que o Estado mexicano estava orquestrando.

A Comissão Interamericana, então, ditou medidas cautelares, é um mandato ao Estado mexicano, que tem que obedecer.

Isso tem funcionado?

Para nada. Pelo contrário, não se tem revertido a situação. Para dizer algo, os policiais federais que estão a cargo da segurança do albergue há dois meses prejudicaram os migrantes, os agrediram, os ameaçaram de morte, quiseram tirar seus celulares. Essa é uma situação muito complicada.

Ou seja, não se pode confiar para nada nos policiais que estão aí 24 horas por dia, em uma patrulha estacionada fora do refúgio.

Para nada, não se pode confiar neles em absoluto.

No ano de 2012, você se acorrentou às grades da cerca que circunda o escritório da delegação local do Instituto Nacional de Migração, inclusive ali mesmo fez jejum de 12 horas. Seu pedido era a “cessação das operações violentas e fora da lei”. O que conseguiu com isso? Alcançou seu objetivo?

Sim, nesse momento estavam todas as operações que, até o dia de hoje, não se fazem. Esse jejum nós realizamos com a equipe de voluntários da Casa do Migrante.

Temos visto a mutilação de pessoas nas vias do trem. Normalmente, nos deslocamos a cada vez que vem o trem para acompanhar os migrantes. Estamos próximos, a Casa do Migrante está localizada a 200 metros da ferrovia.

Que população migrante é a que mais transita?

Hondurenha, guatemalteca, salvadorenha, nicaraguense e, ultimamente, estamos recebendo muitos cubanos.

Quando soube do apelido que lhe puseram me causou muita graça. Que tão Tormenta é você?

Esse apelido me colocaram os companheiros migrantes em uma caravana que fizemos no trem no qual fomos com eles. Então, íamos denunciando nas praças públicas, levantando a voz e, bem, alguém colocou esse adjetivo.

Se quiser acrescentar algo a mais a essa conversa o espaço é seu.

Aqui seguiremos. Os meios de comunicação, vocês jornalistas, comunicadores sérios, são os primeiros aliados que temos. Se chegássemos a nos calar alguma vez, significaria não somente a nossa morte, mas a de milhares de pessoas. Quando alguém faz alguma entrevista, nos visibiliza, está sendo também parte de nossa equipe, de nossa denúncia, porque a voz que têm as pessoas migrantes não é escutada tanto quanto quando alguém levanta a voz nos meios de comunicação. Então, eu lhe agradeço muito, aos jornalistas, a todos os comunicadores por essas ações, por esse trabalho que estão fazendo. Aqui estaremos fazendo um chamado a toda a sociedade para que trate e respeite todas as pessoas que migram, porque são seres humanos.

Fonte: www.adital.com.br

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