BS|09.07.14| Com seus muito bem vividos 100 anos, padre Ladislau Klinicki é exemplo para muitos e respeitado por todos. Este querido padre viveu dias de terror nos campos de concentração da Alemanha de Hitler. Contudo, nunca perdeu a fé e sempre confiou em Jesus Cristo e em Maria Auxiliadora, a quem tem expressa e fervorosa devoção

Sim, ele é uma lenda. Uma lenda que todo mundo gosta de mencionar. Lenda esta que distribui balinhas e santinhos. Padre Ladislau, um salesiano centenário que tem muita história para contar, claro. Quem conhece padre Ladislau apenas das confissões, não faz ideia da história de vida que tem. Ele seria aquele avô, e faz isso muito bem, que viveria cercado de netos sedentos para ouvir suas histórias. Histórias essas tristes, mas que são perfeitos milagres.

Ladislau Klinicki nasceu na Polônia, em 1º de junho de 1914. Em 1939 já era seminarista e estava prestes a partir para Roma para estudar Teologia. Foi aí que sua saga começou. A Segunda Guerra Mundial pegou a Europa de surpresa e a Alemanha, de Hitler, foi cenário para um período da história que todos gostariam de esquecer.

Apesar de já ter sofrido, um pouco, com o início da Segunda Guerra, durante os dois primeiros anos, padre Ladislau pôde se dedicar aos estudos, em Roma. Os russos tinham entregado a cidade aos lituanos e, por isso, a paz até então estava garantida. Porém, em 1941 a cidade foi ocupada pelo poderoso exército alemão, que de cara já apareceu na casa salesiana, isso em 4 de março de 1942. Padre Ladislau foi levado para a “prisão” de Hitler. Ele e os outros colegas.

 Dias de prisão

Não foi novidade para eles. Depois de declarada a guerra russo-alemã, todos tinham em mente que as tropas poderiam começar a exterminar os católicos após fazerem isso com os judeus: prisão, campo de extermínio, crematório. Os homens da Polícia Secreta Estadual prenderam todos os professores e estudantes de Teologia, que foram convidados a ocupar seus lugares nos caminhões cobertos de lonas e levados à prisão chamada Lukiszki.

“A maior ajuda espiritual para nós foi a confiança na Misericórdia de Deus e a oração”, afirma padre Ladislau em seu livro de memórias, A um Passo da Morte (p. 13). Todos que estavam na cela foram interrogados e, para provar que a misericórdia de Deus é, de fato, infinita, os próprios alemães chegaram à conclusão de que as acusações feitas a respeito deles eram falsas. Todos foram libertados, os alunos seriam enviados para a Alemanha, com o intuito de fazê-los trabalhar em fábricas daquele país e os professores foram deportados para a Lituânia.

Menos de um ano depois disso, como meio de tentar salvar os futuros sacerdotes da Alemanha Nazista, padre Ladislau, no dia 14 de fevereiro de 1943, foi ordenado sacerdote. Trabalhou apenas um ano como catequista da Casa Inspetorial de Varsóvia e teve de voltar à prisão. Até o fim da guerra viveu nos campos de concentração de Gross-Rosen, Dora e Nordhausen.

 Morte iminente

A partir daí, padre Ladislau esteve, por várias vezes, a um passo da morte. Certa vez, ainda no colégio salesiano em Varsóvia, foram despertados pelos soldados alemães. Eles queriam achar qualquer indício que provasse que os padres e alunos eram “amigos” dos guerrilheiros e, com isso, justificariam todo aquele desrespeito. Revistaram salas, quartos e acharam vinhos, tâmaras, dinheiro: tudo que precisavam para celebrar missas, comprar comida etc. Os soldados, por sua vez, os acusavam de contrabandistas, de espiões. Sob forte ameaça de fuzilamento, todos os padres e alunos foram levados para o pátio do colégio, aguardando o apertar dos gatilhos.

Os soldados alemães amedrontavam ainda mais todos com a contagem regressiva. “Falando humanamente, nossos minutos de vida estavam contados. Eu, porém, não tinha medo de morrer.” Obediente, padre Ladislau rezou o ato de contrição tal como pediu o superior, padre José Oleksy. “Persuadido de que chegara minha última hora, rezei o ato de contrição e disse a Jaculatória: Jesus, eu confio em vós!”.

Mais um exemplo de estar a um passo da morte foi no dia 4 de abril de 1945, quando poderia ter sido atingido a qualquer momento por estilhaços de bombas que explodiam por todo lugar. Mais uma vez, protegido por Cristo e, claramente, por uma missão, foi absolvido.

O fim do terror

Depois de viver dias de agonia e muito sofrimento, vendo seus amigos perecerem e escapando da morte dia após dia, padre Ladislau se viu livre. Foi no dia 12 de abril de 1945, por volta das 10h da manhã. Soldados americanos anunciavam o fim da guerra e a derrota dos alemães. “Atenção, atenção! A todos os prisioneiros de guerra, de campo de concentração e a todos os trabalhadores estrangeiros informamos que a guerra chegou ao fim. Em todas as frentes, o inimigo foi derrotado”.

Com ajuda do vigário no Santíssimo Sacramento, padre Ladislau pode ser cuidado em uma casa salesiana em Kassel, onde conseguiu roupas novas e a recuperação de sua saúde. Essa viagem mudou os caminhos de seu apostolado e anulou seus planos de retorno à Polônia, detendo-o na Alemanha por cinco anos ainda, facilitando sua decisão de emigrar para a América do Sul.

 Aprendendo a rezar a missa, de novo

“Reconquistada a saúde, eu ia visitar a igreja diariamente e assistir à missa celebrada pelo vigário, cônego Werner. No campo de concentração, devido à desnutrição prolongada, sofri grande perda de memória. Tive de aprender de novo como se celebra a Santa Missa.” Foi em maio que padre Ladislau voltou a celebrar, sozinho, a Santa Missa e, no campo de concentração, depois da perda da memória, só se lembrava desta oração, que rezava em latim: “Oferecemos-te, Senhor, o cálice da salvação, pedindo tua misericórdia, para que suba, qual perfume agradável, pela nossa salvação e a de todo mundo.”

Suas raízes são fincadas no Brasil mas, antes, passou pelo Equador: primeiro país a conhecer quando veio para a América do Sul.

Padre Ladislau continua o mesmo. Mesma fé. Mesma obediência. Distribui balinhas e atende a confissões. Vive na Casa Salesiana de Santa Teresinha onde, todos os dias na hora do almoço, conta piadas para a alegria de todos que vivem com ele.

Matéria originalmente publicada no jornal Santa Teresinha em Ação (Ano XIII, Número 89 – Junho de 2014)

Fonte: Boletim Salesiano

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