O “novo normal” no fenômeno migratório

Os dados revelam que a pandemia do coronavírus faz mais estragos entre as diferentes etnias que moram precariamente em países estrangeiros, afetando de maneira particular os imigrantes indocumentados. As coisas se agravam quando tais imigrantes são vítimas da rede mundial do crime organizado. Informativo recente das Nações Unidas chama a atenção para “o impacto da pandemia Covid-19 no tráfico de pessoas”. O documento alerta de forma textual e pontual: “No tráfico de pessoas humanas, os criminosos estão ajustando seus modelos de negócios ao ‘novo normal’ criado pela pandemia, especialmente por meio de abuso das modernas tecnologias de comunicação. Ao mesmo tempo, o Covid-19 afeta a capacidade das autoridades estatais e das organizações não governamentais em fornecer serviços essenciais às vítimas desse crime. Mais importante ainda, a pandemia exacerbou e trouxe à tona as desigualdades econômicas e sociais profundamente entrincheiradas, que estão entre as principais causas do tráfico de pessoas (Cfr. Publicado por UNODC – United Nations Office Drugs and Crime) – em português, Gabinete das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime (13/06/2020).

Por ironia do destino, este tempo de máscaras desmascara (e escancara) ao máximo semelhantes “desigualdades econômicas e sociais”. O balanço de empresas como Amazon, Microsoft e Apple, para citar alguns exemplos, ganharam cada uma delas, durante o flagelo, ao redor de um trilhão de dólares no mercado de ações. Além disso a pandemia deixa também, por onde passa, um rastro de desemprego subemprego. Evidentemente que, uma vez mais, os estrangeiros são os primeiros afetados. Por falta de documentação devidamente regularizada ou por falta de melhor qualificação profissional, não poucos de entre eles acabam por cair (ou retornar) à condição de trabalhadores “descartáveis”. Para muitos, o problema é voltar para casa, como foi o caso de centenas de colombianos que tiveram de permanecer por semanas acampados no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Não é diferente para os estudantes que estão se formando em outros países. Emigrantes brasileiros, por exemplo, se vêm obrigados a desistir de estudar em Portugal: “Pandemia e euro a R$ 6,00 podem provocar êxodo de alunos brasileiros de Portugal” (Cfr. Portal da Folha de São Paulo, online, 13/06/2020.

Quanto ao drama dos refugiados – aqueles que não podem voltar atrás, sob risco de perseguição e até morte – já antes da pandemia seu contingente vinha aumentando nos últimos anos. De acordo com a jornalista Flávia Mantovani, “o número de pessoas que deixaram suas casas forçadas por guerras, perseguições e crises humanitárias no mundo quase dobrou na última década, indo de 41 milhões em 2010 para o recorde histórico de 79,5 milhões em 2019 – o que equivale a 1% da população mundial. Ao mesmo tempo, com a persistência de conflitos antigos e o surgimento de novos, [apenas] uma pequena parte deles conseguiu voltar para seus países – 3,9 milhões, comparado com quase 10 milhões na década anterior. Com isso, a maioria se vê em uma situação de exílio duradouro” (Cfr. Portal da Folha de São Paulo, 18/06/2020).

À violência e às “crises humanitárias” de que são vítimas, acrescenta-se ano após ano o fator das catástrofes climáticas. Na exata medida em que o pêndulo do clima vem oscilando de forma cada vez mais rápida entre os extremos do espectro, aumentam em igual proporção os chamados “refugiados climáticos”. Estiagens prolongadas, furacões, tempestades atípicas e fora de época, inundações e deslizamentos – entre outros desastres – constituem o resultado nefasto (e de certa forma previsto e previsível) do aquecimento global. De resto, especialistas e ambientalistas, têm alertado para o fato de que a exploração predatória com a devastação do meio ambiente, por um lado, e o surgimento do Covid-19, por outro, não são coisas dissociadas uma da outra. Ao contrário, com a destruição do habitat natural dos animais selvagens, estes passam a conviver mais de perto com os seres humanos, o que pode explicar a série de novos vírus contraídos nas últimas décadas (gripe aviária, gripe suína, ebola, novo coronavírus, e assim por diante).

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 1º de julho de 2020

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