No coração da Igreja, o testemunho de um religioso

Bispo religioso, arcebispo de Manaus, D. Leonardo Ulrich Steiner, OFM, é entrevistado e fala do momento que vivemos em que celebramos os 25 anos do Dia Mundial da Vida Consagrada

Não houve preparação. Houve descaso, houve ignorância, houve negação da ciência, e nós estamos atualmente numa situação de muita dor. Existe muito sofrimento. Aqui na arquidiocese de Manaus, vieram a óbito, nesta segunda onda, quatro sacerdotes. Quatro! Também lideranças nossas, nas comunidades; ministros que levam a Palavra, a Eucaristia, também vieram a óbito. É difícil encontrar uma família que não tenha sofrido com o falecimento de algum ente querido. A situação é de imensa gravidade. Há filas de pessoas para serem internadas; há filas de pessoas para serem colocadas em UTIs, há filas de pessoas para serem levadas para outros Estados.”

Esse é o retrato do Amazonas segundo as palavras de dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo da arquidiocese de Manaus. Em entrevista ao TUTAMÉIA, ele afirma: “A situação no Amazonas, especialmente em Manaus, é de colapso. Uma secretária de Saúde de um de nossos municípios diz: ‘As pessoas estão morrendo porque não tem como transportá-las para Manaus. Não temos UTI na nossa região´. Realmente, todos os hospitais que têm UTI e estão mais equipados estão em Manaus. O interior sofre muito. Mas em Manaus mesmo muitas pessoas têm ido a óbito porque não há lugar nos hospitais. Há pouco, tínhamos a falta de oxigênio, as pessoas dentro dos hospitais vindo a óbito por falta de oxigênio. Nosso sistema de saúde está colapsado. Nós estamos exportando doentes para outros Estados”.

E não há resposta condizente das autoridades, aponta o religioso:

“Quando cá esteve o ministro da saúde para tentar encaminhar algumas coisas, o resultado foi não o oxigênio, mas o chamado kit prevenção, que nós sabemos que não funciona. Como pode? Alguém que tem uma responsabilidade diante da Nação, em vez de se interessar pelas questões de fundos e pelas questões mais prementes, que era a questão do oxigênio, ficar indicando um kit que realmente não funciona. Está comprovado que não funciona. É inclusive uma questão ética, uma questão grave. É antiético! Como prescrever alguma coisa que não é comprovada pela ciência?! O presidente chega a dizer que não é tarefa do governo federal enviar oxigênio para Manaus! Pode uma coisa dessas? É um absurdo! Se percebe que se perdeu o limite da ignorância. Se perdeu o limite das ações que vão contra a população. Foram eleitos para cuidar do povo, mas não é isso que está acontecendo”.

Em contraste, a população tem dado exemplo de solidariedade, diz dom Luciano, lembrando campanhas de arrecadação para compra de cestas básicas, oxigênio, material de prevenção: “Comove. Pessoas que depositam um real, sinais de uma solidariedade extraordinária, de um humanismo que encanta, pessoas que não perderam sua humanidade. Pessoas que não perderam o que é ser pessoa. Ao passo que o presidente não se preocupa. O presidente não se interessa. O presidente toma distância. O presidente ignora. Isso é gravíssimo. É um caso de processo de Justiça. Por quê? Porque não governa, não está governando em benefício do povo. Diante de tanta dor, diante de tanto sofrimento, vemos como existe solidariedade, como existe humanidade. Eu penso que o presidente perdeu a sua humanidade”.

DEMOCRACIA EM RISCO

Secretário-geral da CNBB por dois mandatos, de 2011 a 2019, o religioso fala que há “uma desgovernança”, cita documento apresentado por procurados e procuradores da república que listam crimes praticados de Bolsonaro e afirma que “motivo haveria” para o impeachment de Bolsonaro. Mas considera que “não há ambiente no Congresso para o impeachment. Não existe vontade política no Congresso nacional neste momento”.

Perguntamos a ele por quê. Que interesses seguram Bolsonaro, afinal?

“São os interesses de um bom grupo que está no Congresso Nacional e foi eleito para isso. Agora os interesses que existem não são os interesses dos pobres. Não há interesse de que haja saúde melhor para todos. Como está o SUS? A Constituição de 1988 nos deu o SUS como um elemento de fraternidade, um elemento de equidade, como um elemento de universalidade, como um elemento de cuidado em relação a todos os brasileiros e brasileiras. Na realidade não é o que está acontecendo. O interesse é diminuir a influência. Mas não só em relação ao SUS [há indiferença]. Em relação à educação, em relação à própria política. Cada vez mais se concentrar em alguns poucos interesses.”

Trata-se de algo construído com método, explica dom Leonardo: “Por detrás disso tem um modo de pensar a economia. Esse modo de governar que se tem chamado neoliberalismo, em que o que vale é a aplicação do dinheiro. Não é mais sustentar as nossas fábricas. Cadê a nossa pesquisa? Cadê o trabalho todo que se fazia, por exemplo, para as plataformas da Petrobras? Hoje se manda fazer tudo no exterior, o que se fazia tudo aqui, com engenheiros e pessoas de especialidade de grandíssimo valor. Cadê isso tudo? Estão beneficiando a quem com isso? O povo brasileiro ou a um determinado grupo? No tempo da pandemia, os trilionários enriqueceram mais ainda. Os preços dos remédios aumentaram, o preço das cestas básicas também. Esse sistema todo em que nos encontramos, em que está imbricada a economia, está imbricada a política, um pensamento de Estado, isso tudo está nos levando a uma deterioração da política, e está colocando inclusive, a democracia em risco… O que temos hoje no Brasil espelha um pouco isso.”

Reafirmamos a questão: a democracia está em risco? A resposta: “É claro, não tenha dúvida. Se não conseguimos mais atender aos pobres, se não conseguimos mais nos organizar de tal forma para que, realmente, as pessoas sejam cuidadas, cadê a democracia? Cadê a democracia?”

A PALAVRA DE DEUS

Ao longo da entrevista, conversamos também sobre os ataques à religião, a disputa com outras denominações religiosas, as divisões existentes no interior da igreja católica. Sobre isso, ele afirma:

“Há na igreja diversas diferenças em concepções. Isso não pode nos atrapalhar. Papa Francisco tem nos mostrado que a igreja será igreja na medida em que souber acolher os pobres, souber estar ao lado dos marginalizados, dos descartados –como ele mesmo diz. Para usar uma expressão que ele costuma usar, estar ao lado da carne de Cristo –os pobres como carne de Cristo, a carne sofrida de Cristo. Eles também são o corpo de Cristo”.

Com o que o assunto volta para a política, a situação brasileira e a figura do presidente da República. Lembramos que o teólogo Leonardo Boff disse em entrevista ao TUTAMÉIA  considerar que Jair Bolsonaro tem “atributos do anticristo”.

Dom Leonardo sorri ao ouvir a frase de seu xará, mas não dá opinião explícita sobre a questão específica. Em vez disso, afirma:

“A palavra de Deus é misericórdia. A palavra de Deus é acolhimento. A palavra de Deus é perdão. A Palavra de Deus é amor. A palavra de Deus é esperança. A palavras de Deus é fraternidade. A palavra de Deus é samaritana. A palavra de Deus é graça. A palavra de Deus é vida. Veja que a palavra de Deus é, assim, extraordinariamente, para elevar. Não sei se essas características todas da palavra de Deus estão presentes no nosso presidente.”

MUNDO PÓS-PANDEMIA

Ainda que imersos todos nós nos sofrimentos de hoje, há que pensar no que pode vir pela frente. Como o mundo sairá dessa pandemia? Qual a visão do religioso? Eis a reflexão de dom Leonardo:

“Eu já cheguei a afirmar que sairíamos melhores. Mas, vendo agora toda a disputa em torno da vacina, eu fico em dúvida. Não se pensa na humanidade como um todo. Esse fura-fila que acabou acontecendo aqui em Manaus em relação à vacina é uma evidência de que não nos tornamos melhores. Agora podemos ter uma certeza: os pobres não se esquecerão da pandemia. Eu penso que entre os pobres, apesar de todas as dificuldades que existem, a gente não quer idealizar ninguém, mas penso que entre os pobres vai ficar uma marca, a marca da solidariedade.”

E continua: “Penso que nós como igreja vamos aprender a voltar ao nosso lugar, que é o lugar dos pobres. Nós teremos muito mais pobres. Eu já vejo isso nas ruas de Manaus. O número de desempregados em Manaus vai ser altíssimo. Estamos vendo que a pandemia está levando não apenas ao esgotamento psíquico, mas também ao esgotamento econômico de muitas pessoas”.

Também diz: “Não sei se a pandemia vai nos ajudar, mas vejo que mais de uma pessoa teve de olhar o rosto da morte. Isso pode nos devolver a essencialidade da vida, aqueles valores insubstituíveis, que nos fazem ser mais pessoas, nos fazem ser humanos. Talvez aqui esteja um elemento que possa marcar o nosso futuro. Mas muitas pessoas não precisaram olhar o rosto da morte e continuarão vivendo na superficialidade e no egoísmo. Sempre aprenderemos muito. Nós como igreja de Manaus estamos aprendendo a ir ao encontro daqueles que estão passando fome.”

CONVULSÃO SOCIAL

Fome que, dizem economistas e cientistas sociais, deve voltar a atingir com força o povo brasileiro, se confirmada a decisão do governo federal de não renovar o auxílio emergencial. Estudos apontam que o corte jogará cerca de 63 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza; e cerca de 20 milhões na pobreza extrema.

O que isso pode ter como consequência? Dom Leonardo responde:

“Eu tenho receio de uma convulsão social. As pessoas, quando estão com fome, elas não pensam duas vezes. Não tem como dialogar. Quando as pessoas começarem a não dormir por fome, pelo estômago doendo, não sei do que as pessoas serão capazes. Não sei. Eu tenho dificuldade de ver alguma saída que seja equânime. Sem o auxílio emergencial, não sei o que será dos pobres. Tenho receio de uma convulsão social. Os pobres são muitos”.

Fonte: Tutaméia

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