Irmão João Alberto

Não sei nem me importa saber como tenha começado a polêmica no Carrefour

justamente na véspera de 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra;

Tampouco me importa saber de teus gestos e palavras imediatamente anteriores.

O que sei é que nada, absolutamente nada; ninguém, absolutamente ninguém,

justificam tamanha violência de quem estava ali com a tarefa de manter a ordem!…

O cenário atesta que o furor daquela sucessão de golpes frenéticos e agressivos

é fruto de um ódio lenta e longamente acumulado, digerido, destilado e nutrido

por um racismo com raízes no mais íntimo de nossas entranhas histórico-estruturais;

discriminação que com grande frequência se escondem atrás de piadas “inofensivas”,

preconceito nu, cru e cruel, que se revela nas relações de trabalho e no cotidiano,

refletindo um substrato obtuso e obscuro, implícito ou explícito, de superioridade branca!…

Em nome desse sentimento hostil e visceralmente letal para teus irmãos de raça,

sinto-me no dever cívico de pedir perdão, embora sabendo quão pouco isso significa:

perdão póstumo a você, João Alberto, e perdão à tua esposa, filhos, familiares e amigos,

mas também perdão a todas os irmãos e irmãs que cuja pele é diferente da minha,

perdão em nome daqueles que, do alto de seu trono e de seu poder branco,

insistem em falar de “cultura miscigenada e cordial” ou de “um Brasil sem racismo”!…

Não, as imagens e gritos da tragédia, de imediato navegando pelas redes sociais,

constituem uma antologia pública, negativa e macabra da mais infame barbárie,

barbárie que tem perdurado ao longo dos séculos e assassinato contemporâneo.

Tenho o dever de confessar que, diante de uma atrocidade tão covarde e brutal,

somente a muito custo consegui reter as lágrimas, irmãs da culpa e da vergonha,

pela marca impressa a ferro e fogo que, desde a escravidão, e apesar da “abolição”,

segrega e estigmatiza teu povo de raízes africanas e de horizontes adversos!…

Ao lado da culpa e da vergonha, juntam-se a indiferença, o comodismo e o silêncio

de um branco que, como tantos outros, não sofre na pele, no coração e na alma

o olhar oblíquo, enviesado, desconfiado – por parte da polícia e da sociedade,

e que por isso mesmo pode caminhar livremente pelas ruas e praças da cidade,

enquanto teus irmãos e irmãs são forçados a baixar a cabeça ou esperar o “castigo”!…

Quantas frases envenenadas, quantas atitudes de desprezo e quantas prisões e mortes

serão ainda necessárias para que todos possamos despertar para crimes tão hediondos

e que se repetem a cada minuto, a cada hora, a cada dia, a cada semana, a cada mês…

Sim, crimes que nas estatísticas e na proporcionalidade se repetem e crescem todo ano:

palavras, gestos, socos, pontapés, cassetetes e balas – irmãos George Floyd e João Aberto –

tudo infinitamente mais pesado quando cai sobre os ombros de tua gente de pele negra!…

Basta! Mas não basta o mero “basta”! Faz-se urgente o vigor da denúncia e do anúncio;

faz-se urgente depurar os corações, casas e sociedades cerradas a tudo que é diferente;

como na última carta encíclica do Papa Francisco, faz-se urgente gritar, alto e bom som,

que todos e todas somos irmãos e irmãs, sem distinção de raça, sexo, credo ou língua;

faz-se urgente tomar consciência, enlaçar as mãos de todas as cores e mobilizar energias

para a construção da “terra sem males”, retomando os valores indígenas e africanos,

uma mesa farta, um banquete festivo, onde ninguém seja barrado do lado de fora!…

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2020

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