De frente pro crime

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Carlos Eduardo, homem em situação de rua, morreu dentro de uma padaria na zona sul do Rio de Janeiro. Era na sexta-feira, dia 27 de novembro de 2020. Como na canção de João Bosco, a sua morte não impediu que a vida cotidiana seguisse se curso. Até mesmo o estabelecimento comercial continuou com seu “funcionamento normal”. Indiferentes, os clientes puderam tomar o seu café da manhã sem serem incomodados.

Ao lado, jazia o corpo de Carlos Eduardo, provisoriamente revestido por um plástico escuro. Vã tentativa de fazer com que o falecido permanecesse invisível. A morte insuspeitada, porém, o fizera emergir da multidão anônima para as páginas dos jornais. Ali, oculto e esquecido como vivera, aguardava encaminhamento por parte das autoridades.

Por longas 2 horas o corre-corre da metrópole, frenético e endiabrado, seguiu seu ritmo. Até que a Polícia Civil se fez presente para as medidas previstas. A esta altura, mais do que multiplicar palavras sobre palavras, vale o silêncio reverente diante de uma vida humana ceifada de forma tão inusitada. E vale, ainda, trazer à tona a canção de João Bosco.

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém.

O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso pra vereador.

Veio o camelô vender anel
Cordão, perfume barato
Baiana vai fazer pastel
E um bom churrasco de gato.

Quatro horas da manhã baixou
O santo na porta-bandeira
E a moçada resolveu parar,

E então…

Veio o camelô vender anel

Cordão, perfume barato

Baiana vai fazer…

 

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém.

Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou num time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime.

E veio o camelô vender anel
Cordão, perfume barato
Baiana vai…

 

 

(Letra e música: Aldir Blanc e João Bosco)

 

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