A arte de educar

Nem sempre a brisa reúne energias para sacudir as folhas secas que a árvore se recusa a liberar. Então, faz-se necessário o vento. Um gesto nobre do ar. Ele sabe quando ser brisa e quando ser vento. E se o vento não dá conta de desprender as folhas, é porque elas ainda estão no seu tempo. E seria agressivo e injusto arrancá-las com um vendaval.

O vazio deixado pela folha possibilita a próxima estação. Segundo os versos do poema A atuação do invisível no visível, de Lao-Tsé, século VI a.C.,

“O oleiro faz um vaso, manipulando a argila,

Mas é o oco do vaso que lhe dá utilidade”.

Sem espaços, não haveria movimento, nem vida. Educar envolve também ensinar a arte de desaprender – efeito da brisa ou do vento. Desaprender é deixar espaço ao inédito. O aprender e o desaprender integrados, contínuos…

Do filme A Sociedade dos Poetas Mortos aprende-se a arrancar dos livros páginas sem vida, a abandonar metodologias inadequadas, a buscar conhecimentos significativos, que provoquem sede, fome, desejo, sonho: vazios que geram movimento íntimo.

A própria formação da Terra fez-se do vazio. O Gênesis revela que no princípio havia caos: “A Terra estava sem forma e vazia.” E para que o educador possa continuar a obra da criação, deve aprender com o Criador: criar a partir do vazio e do caos. O espírito que paira sobre o ambiente educativo tem de estar encharcado de vida.

Clarice Lispector confessa: “Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é minha parte melhor: é a minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que não sei é que constitui a minha verdade”.

Vazio relaciona-se também com mente aberta. O livro dos Reis diz que “Deus concedeu a Salomão sabedoria e inteligência extraordinárias, e mente aberta como as praias do mar.” O Criador – Artista – concede ao ser humano mente aberta, sabedoria, vazio, caos para que ele se torne, como Deus, criador – artista. Alicerçado no amor e na liberdade de Deus, vazio de conceitos desgastados e de preconceitos, o ser humano está autorizado a criar as mais variadas formas de amar e de fazer o bem. Primeiro, criando espaços interiores para os valores vitais. Depois, como conseqüência, refletindo sobre o mundo seu jeito de ser e de viver, a arte e o sonho.

Ser brisa… ser vento… a circunstância determina. O educador, sempre alerta, lê os sinais. A energia, para ser eficaz, precisa ser acionada na medida certa. Um equilíbrio possível para o educador capaz de amar.

Em I Reis, a Bíblia descreve uma passagem bela: quando Deus apareceu ao profeta Elias, primeiro veio um furacão, depois um terremoto e em seguida o fogo, mas Deus não estava nesses fenômenos. Por fim, ouviu-se um vento suave. E Elias reconheceu a presença de Deus. O educador é reconhecido pelo amor – um vento suave que provoca e preenche espaços na mente e no coração dos alunos.

Lauro Daros, fms

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