Solidariedade – a palavra mais exata para definir Fr. João Xerri, op, na sua Páscoa


Frei João Xerri, OP

Nascimento: 19 de maio de 1947, na República de Malta, no Mediterrâneo

Ordenação: 14 de março de 1971

Função Exercida: Vigário Paroquial da Paróquia São Judas Tadeu em Goiânia

Faleceu: em Goiânia (GO), 30 de maio de 2021.

Xerri nasceu em 1947, na República de Malta, no Mediterrâneo, ainda uma colônia inglesa. Embora seja um opositor ferrenho do colonialismo, foi criado na cultura colonial: “Meu pai mesmo era contra a separação da Inglaterra”. A ilha tornou-se independente em 1964, quando João ingressou no seminário dos dominicanos, por orientação da família, tradicional e católica, e foi ordenado em 1971. O papel do frei João Xerri nos embates dos quais participou foi articular nos bastidores apoio e guarida a perseguidos, recursos para mobilizar campanhas, telefonemas estratégicos

O frei dominicano João Xerri presenciou, no Brasil e no mundo, importantes conflitos do século 20. Andou pelas favelas de Soweto na época do apartheid na África do Sul, sentiu o cheiro de queimado do Timor Leste destruído, defendeu os refugiados do Haiti, apoiou os índios de Chiapas, no México.

A militância do frei era inspirada pela “opção referencial pelos pobres”. 

 

João era um homem encíclico. Nele as mínimas coisas se vinculavam a causas maiores, em contornos sempre novos e surpreendentes. Ele tinha a arte da conexão, das linhas e das redes, dos círculos de amigos que se conectavam, que ele agregava e interligava em muitos laços e articulações em nome das grandes utopias que o mobilizavam e colocavam em ação. João era um homem centrífugo. Tudo o que lhe chegava às mãos, ele espalhava, divulgava, fazia grandioso. Sua inteligência, sagacidade e cultura eram admiráveis e se somavam ao exercício da crítica, à sobriedade das ideias e a uma fé lúcida e equilibrada, na melhor versão da tradição dominicana que ele celebrou em vida e que remonta a Domingos, Las Casas, Montesinos e Frei Tito de Alencar.

Quando o vi pela primeira vez, em 1990, senti uma inquietação terrível, nascida das ideias que ele professava e do jeito de comunicá-las, que aliava uma voz rouca e potente, um sotaque peculiar, um gestual sólido e um coração infantil que parecia não combinar com nada do que ele aparentava ser. Por ele ecoavam as grandes causas do mundo. Com Lilia Azevedo, outra amiga-irmã que nos deixou antes dele, criou o Grupo Solidário São Domingos, que apresentou ao nosso país e ao mundo as causas da África do Sul, do Timor Leste, da Palestina, de Chiapas e do Iraque, além de tantas lutas brasileiras e latino-americanas que o aproximaram dos sem terra, dos indígenas, dos sem teto, das mulheres e dos gays. Dessa gente, ele sempre trazia notícias, cartões postais, artigos, livros e sobretudo afetos. Era assim que ele costurava as suas redes.

Não haveria palavra mais exata para defini-lo do que solidariedade. Não aquela das caridades e das benevolências em falso e de mão única. A solidariedade que ele praticava era feita em círculos, praticada não como uma mera ideia, mas como um princípio de vida e, sobretudo, como uma denúncia das contradições sociais e das violações de direitos. Essa solidariedade nos coloca em ação, retira do conformismo e da apatia, azeita e politiza as nossas vidas que, do contrário, reservam-se à ineficácia da mediocridade. Por isso, João entendeu como ninguém, que a solidariedade era um valor central do cristianismo e mesmo da tradição dominicana, na medida em que ela se articulava com o grande valor da compaixão, como uma espécie de complemento politizado e secular de antigas práticas religiosas. A sua solidariedade era de um tipo inédito, vivida por poucos: um sentimento sempre comunitário, coletivo, político.

Além disso, contudo, João ensinou que uma tal solidariedade tem um caráter ontológico, porque ela forja os indivíduos a partir de um vínculo que não é motivado pela desgraça, mas pelo afeto acolhedor, pelo cuidado e pela responsabilidade com o outro. Essa solidariedade é um antídoto contra o desânimo, portanto, uma partilha de preocupação que João via no primeiro milagre de Jesus na Bíblia: “todos partilham o pão, porque não era Jesus que trazia o pão no bolso”, ensinou ele em um vídeo recente, gravado para uma campanha de distribuição de alimentos promovida pela Escola Nacional Paulo Freire. A solidariedade de João era sempre uma aula de ajuda mútua; uma multiplicidade associada; uma assembleia, um sistema, um ordenamento de afetos que deixava ver sempre a beleza plural que o mundo contém.

João nos deixa hoje, quando o mundo mais precisa dessa mensagem. Quando o egoísmo e a apatia diante da dor alheia se tornam política de estado, quando o negacionismo venda os corações e os olhos para esse que é o mais poderoso dos afetos, o afeto que nos empurra para a construção de um mundo comum, o assunto maiúsculo da fé e da política. Porque nunca separou o reino da terra do reino dos céus, João soube que a política também é assunto de fé. E ele aprendeu isso no Brasil, convertendo-se ao nosso povo e às suas causas.

João foi um dos meus maiores, mais fieis e mais profundos amigos. Aprendi com ele tantas coisas, que muito de mim se confunde com o que veio dele. Devo tanto a esse homem! Em 1993 enviei-lhe alguns poemas que foram publicados em um livro sobre Frei Tito, organizado pelo Frei Betto. Meu primeiro livro de poesias, Terra de livres, foi publicado com dinheiro emprestado por ele, que me levou pessoalmente ao editor em São Paulo. Ele patrocinou muitas das minhas viagens a eventos de direitos humanos, em vários lugares. Quando fui a Malta estudar inglês, ele ajudou a pagar o bilhete, me indicou para uma bolsa de estudos e me arranjou hospedagem, primeiro com Joan Portelli, uma apoiadora de causas internacionais, e depois com sua irmã Maria, seu marido Alfred e seus filhos Christina e Andrew, que viraram minha própria família no meio do Mediterrâneo. Ele me indicou para o meu primeiro emprego, na CPT e anos depois, batizou meus afilhados Ivan e Guilherme. Com João sentamos à mesma mesa com gente tão admirável como Desmond Tutu, Xanana Gusmão e Pedro Casaldáliga, Eduardo Suplicy e Lucélia Santos (que ele acompanhou ao Timor, para as filmagens do documentário Timor Lorosaeo massacre que o mundo não viu), entre tantos outros. Escrevemos juntos e conversamos muito. Frequentou minha casa e os meus dramas um a um. Celebrou minhas conquistas e compartilhou as minhas dores. E sobretudo, encheu a minha vida de pessoas boas e admiráveis, amigos e amigas ao redor do mundo, com os quais hoje choro a sua perda.

Nos últimos dias, estivemos juntos em uma reunião da Escola Nacional Paulo Freire para falar das celebrações do centenário desse líder brasileiro e estávamos trabalhando, junto com Vilma Ribeiro, na publicação de um livro sobre as questões ambientais e a tradição dominicana. Depois de uma das reuniões, ele me enviou um áudio cheio de palavras bonitas, de esperança e incentivo. E me disse: “não esqueça que todo o projeto pedagógico e espiritual do papa Francisco está ancorado nos movimentos populares, do pessoal ‘de baixo’. Todos os gestos que ele fez têm algo em comum: tudo começa pelo pequeno”. Essa é a voz de João que vou sempre ouvir e que sempre costurou os pequenos gestos e as grandes esperanças. Seu olho tinha esse dom de ver a utopia que morava, silente, na concretude do real – uma forma de ver que é própria dos grandes profetas e místicos, que podem incluir tanto um Bartolomeu de Las Casas quanto um Dom Quixote.

Seu mundo, afinal, estava sempre coberto com o manto das belezas e das esperanças, das bondades e das grandiloquências que só quem tem o olho encharcado de utopias poderia enxergar. Seu estado era sempre um estado ideal capaz de projetar-lhe para fora da dura e fria realidade, sem nunca, contudo, arredar o pé do chão onde pisava. Sua utopia não era não-lugar, como aprendemos com a etimologia da palavra, mas um além-lugar, um lugar-outro, no qual à realidade era sempre acrescentada a esperança nascida de uma convicção original no valor da vida humana. João sabia que toda utopia tem esse dom de converter (e de perverter) o sentido último das coisas não pela estratégia da negação, mas da afirmação radical daquilo que está ali, mas que ninguém vê com facilidade. O que João via e nos mostrava sempre é que o futuro mora já no presente, embora esmagado, às vezes, pelo peso do real. Sua utopia era o ensaio de um mundo melhor que nunca era uma ficção acéfala, mas pela solidariedade concreta, um sonho de pés descalços, traduzido pelo esforço de quem vê o que não é visto, quase como um maravilhamento. Ele sabia de coração o que escreveu Oscar Wilde, dando voz aos partidários das grandes utopias: “um mapa do mundo que não inclua a Utopia não merece o mais breve olhar”.

João olhou o mundo como ele merecia ser olhado. E sempre nos chamava para contar porque ele sabia que o valor da utopia é o fato de ser um método: elas ajudam a gente a remodelar o mundo que nos cerca. Foi por isso que João sempre defendeu a potencialidade prática que toda utopia guarda. Lá do céu, a sua última utopia, haverá de nos guardar. Não é difícil imaginar que lá chegando já tenha convocado todos os santos e santas para uma reunião em nossa defesa. Lília terá redigido um belíssimo texto e traduzido para todas as línguas, enquanto Tomás agendara uma reunião com o próprio Deus, com a brevidade das grandes urgências e Henri passara a noite preparando os argumentos da defesa. Frei Mingas, na outra sala, estará compondo música nova para o momento.

Frei João Xerri nos deixou essa manhã. Morreu longe de Malta, sua querida ilha e de sua amorosa família. Morreu de complicações da Covid-19, vítima, como outras quase 500 mil pessoas, das irresponsabilidades desse governo que ele tanto denunciou e combateu. Seu olho se fechou para ver a maior das utopias. Ele agora está pleno de luz.

Jelson Oliveira – da Comissão Dominicana de Justiça e Paz

 

Celebração da Páscoa do Frei Xerri no dia 31 de maio, às 10h

📍Facebook: www.facebook.com/ComissaoDominicanaJusticaePaz

📍Youtube: Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil


NOTA DA CRB

A CRB Nacional se solidariza com a família de origem, a dominicana e a arquidiocese de Goiânia, e reconhece a marca da solidariedade na pessoa e na missão do Frei João Xerri que, em diferentes momentos e diversos lugares, definiu-se claramente na defesa dos mais fragilizados. Por isso, pode estar agora  como ele já estava,  aqui entre nós, “coberto com o manto das belezas, das esperanças, das bondades”.   Deus  lhe conceda, agora,  experimentar as alegrias de um mundo melhor, aquele do Projeto Trinitário.

Solenidade da Santíssima Trindade

Brasília, 30 de maio de 2021

Ir. Maria Inês Vieira Ribeiro, mad

Presidente da CRB Nacional

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