“Precisamos pedir a graça da imprudência”, diz monsenhor Piergiorgio aos jovens

Por Rosinha Martins| 16.12.13| Por ocasião do Encontro Nacional de Revitalização da Pastoral Juvenil realizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),  em Brasília de 11 a 15 de dezembro, presidiu umas das celebrações eucarísticas, o representante da Santa Sé, encarregado de negócios da Nunciatura Apostólica, monsenhor Piergiorgio Bertoldi.

Em sua homilia, Piergiorgio salientou o tempo do advento e exaltou os atos missionários de Maria ao enfrentar os desafios das montanhas e demais empecilhos impostos pelo caminho para servir a sua parente, Isabel. Ao frisar a importância de sempre estar a caminho para o encontro e para o serviço, convidou os jovens a pedirem a Deus a graça da imprudência que, segundo ele, é fundamental para  o anúncio do evangelho. “Neste Santuário de Dom Bosco, que sempre confiou seus jovens à proteção da Bem-aventurada Virgem, peçamos, pois, a Maria, que acompanhe o nosso caminho pelas estradas dos jovens, implorando-lhe a graça da imprudência de quem leva consigo o tesouro mais precioso, a alegria do Senhor, para que, como Isabel, que assim que a voz da saudação de Maria chegou aos seus ouvidos, fez a criança exultar de alegria em seu seio (cf.Lc1,44), aqueles que encontramos possam sentir-se contagiados, no seu interior, pela alegria que  o Senhor nos deu, de maneira que nos encontremos em sintonia com o caminho de fé, que o Papa Francisco nos sugeriu, com a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, que é exatamente a alegria do Evangelho”, disse.

Antes de mais nada, gostaria de agradecer-lhes o convite para participar deste momento com vocês.  Ao mesmo tempo deverei pedir-lhes desculpas. Ainda envolvido pelo entusiasmo da JMJ no Rio – vocês haviam convidado o Núncio (que no momento se encontra na Itália) – e, agora, se encontram diante de mim.

Por outro lado, o caminho – e é precisamente sobre o caminho que procurarei refletir com vocês – é o lugar onde acontecem os mais variados encontros. Nos caminhos de Copacabana cruzamos nossos passos com os do Papa Francisco; em Brasília, o encontro não é tão emocionante; afinal quem está aqui sou apenas eu.

Pois bem, dizia que gostaria de refletir sobre o caminho, e quero fazê-lo porque é junto ao caminho que se desenvolve a cena do Evangelho de hoje. Contudo, gostaria de partir de outro trecho do Evangelho, aquele que ouvimos ontem, na Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira das Américas: o Evangelho da visitação (Lc 1, 39-45).

Também naquele texto, o caminho é um elemento importante. Com efeito, depois da visita do anjo, Maria “levantou-se e foi depressa para a região montanhosa, a uma cidade da Judéia”.

E aqui há uma particularidade interessante. Maria está em Nazaré, na Galiléia; ora, para ir a Jerusalém ou para a Judéia, os galileus nunca passavam pela região montanhosa, isto é, pela Samaria, porque era perigoso, havia inimizade e corria-se o risco de pagar a ousadia com a vida. Por isso, percorriam sempre o caminho mais longo, e sem dúvida mais seguro, que seguia o vale do rio Jordão.

Ora, aqui, porém, o evangelista nos informa que Maria enfrenta a região montanhosa, enfrenta o perigo, enfrenta o risco, porque forte era o desejo de colocar-se a serviço de sua parente. É o amor que não conhece dificuldades. Então passa pela Samaria, um caminho certamente mais curto, porém, mais perigoso.

Como Maria também o Santo Padre parece fazer escolhas imprudentes. Não só renuncia ao carro blindado para enfrentar os dias, no Rio, ou a multidão na Praça São Pedro, mas renuncia a uma série de seguranças, como por exemplo, a segurança dos temas sobre os quais fala ou das pessoas a serem encontradas. A entrevista concedida no avião que levava o Papa Francisco de volta para Roma, depois da JMJ, é quase um ícone dessa imprudência.

E o é ao menos para nós encarregados dos trabalhos pastorais; e por encarregados não entendo somente nós que trabalhamos na Nunciatura, os Bispos, os sacerdotes, mas também vocês, responsáveis pela Pastoral da Juventude. Todos nós estamos empenhados em administrar o comum, a programação das coisas a serem feitas ou ditas que, quase instintivamente, fugimos das complicações que possam torná-las mais difíceis e, por isso, escolhemos o caminho, talvez mais longo, porém, mais seguro.

Contudo, Maria – que o Evangelho de Lucas apresenta como a Arca da Aliança, porque é ela que leva consigo o Filho de Deus – faz outra escolha: é a única escolha a consentir que também os samaritanos sejam abençoados pela passagem de Deus entre eles. Isto é nem sempre a segurança de nosso caminho coincide com o objetivo que nos leva a percorrê-lo.

Por outro lado, também o sucesso dos dias do Rio de Janeiro e, mais em geral, do início do Pontificado do Papa Francisco, nos diz que tal imprudência vale a pena: também os assim chamados distantes, talvez não se tenham convertido todos, mas ao menos, sentem-se menos distantes e menos excluídos.

Afinal, é claro que pelo caminho, como ocorre com as crianças do Evangelho de hoje, poderá acontecer de não sermos compreendidos. O jogo da vida que se desenvolve à beira dos caminhos é sempre complicado: há os que participam com entusiasmo; existem aqueles que, só para contrariar, não respeitam as regras – de maneira a fazer cara de luto no momento da alegria ou a rir quando é para chorar –  ou os que se sentem adultos para continuar a brincar, esquecendo-se de que aquele jogo é a própria vida.

É preciso enfrentar o risco e deixar-nos guiar pelo otimismo do Evangelho, confiando antes na alegria que o próprio Evangelho sabe infundir no coração da pessoa e que se transmite no encontro.

Assim, o caminho é o lugar do encontro. O lugar onde Ele se encontrou conosco como encontrou os discípulos de Emaús – como nos foi lembrado pelo Papa Francisco no Rio – e o nosso coração se aqueceu de alegria.

A Pastoral da Juventude e todas as outras pastorais só podem acontecer no mesmo lugar e com a mesma liberdade de espírito; devemos, portanto, deixar-nos guiar por aquilo que nos sugere Paulo, na segunda carta aos Coríntios: “Não é nossa intenção dominar a fé que vocês têm, mas colaborar para que vocês tenham alegria” (2Cor1,24).

Trata-se de voltar ao essencial do anúncio – os entendidos falariam de Kerigma – voltar à conversão anunciada por João Batista e, em seguida, para a dança do Emanuel, Deus conosco. Por outro lado, foi esse o percurso de preparação para a celebração da JMJ: primeiramente a peregrinação penitencial da Cruz, por todo o Brasil, para enfim chegar para a festa da fé, no Rio de Janeiro. Provavelmente, uma das razões da JMJ foi a essencialidade desse percurso.

Neste Santuário de Dom Bosco, que sempre confiou seus jovens à proteção da Bem-aventurada Virgem, peçamos, pois, a Maria, que acompanhe o nosso caminho pelas estradas dos jovens, implorando-lhe a graça da imprudência de quem leva consigo o tesouro mais precioso, a alegria do Senhor, para que, como Isabel, que assim que a voz da saudação de Maria chegou aos seus ouvidos, fez a criança exultar de alegria em seu seio (cf.Lc1,44), aqueles que encontramos possam sentir-se contagiados, no seu interior, pela alegria que  o Senhor nos deu, de maneira que nos encontremos em sintonia com o caminho de fé, que o Papa Francisco nos sugeriu, com a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, que é exatamente a alegria do Evangelho.

Fonte: CRB Nacional

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