Os caminhos da missiologia no contexto pós-conciliar na América Latina

Por Rosinha Martins| 26.02.13 |Teologia para uma missão a partir da América Latina hoje. Esse é o tema do Simpósio de Missiologia que acontece em Brasília, no Centro Cultural Missionário. O evento é uma organização do Centro Cultural e das Pontifícias Obras Missionárias e conta com a participação de teólogos, missionários/as, religiosos/a, leigos/as, estudiosos da área e tem como objetivo repensar e relançar o serviço da missiologia nas novas circunstâncias latinoamericanas e mundiais à luz do Concílio Vaticano II.

Ver e refletir sobre a realidade da caminhada missiológica foi a intenção desta manhã de debates que contou com a assessoria do professor Roberto Marinucci, mestre em Missiologia e diretor da Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana.
Roberto Marinucci destacou em sua fala a caminhada da missiologia no contexto pós-conciliar.

Para ele, o Concílio Vaticano II foi um evento de época que provocou várias mudanças na compreensão e no modo de evangelizar na Igreja Católica, por exemplo, o conceito de missão como conversão dos infiéis e implantação da Igreja Católica nas “terras de missão”. Dessa forma o Concilio gerou a passagem de uma teologia das “missões” para a teologida “da missão”(Giancarlo Collet).

De acordo com o assessor, essa passagem advinda das orientações do Concílio foi inevitável, mas ao mesmo tempo sofrida e complexa.“Sofrida por questionar a prática de milhares de missionários que, em boa fé, até então, deram a vida seguindo as orientações missiológicas pré-conciliares; complexa por não ter um rosto bem definido após a conclusão do Concílio; complexa por não ter um rosto bem definido após a conclusão do Concílio; em outros termos, a reflexão conciliar questionou o modelo missiológico tradicional, mas ofereceu apenas algumas orientações para a estruturação de um novo modelo”, atestou. Neste contexto de transformações, a teologia da missão também ganha novo rosto, se modifica de acordo com os sinais dos tempos.

Marinucci abordou em sua colocação o como a reflexão missiológica ganhou corpo e se desenvolveu na América Latina e relatou alguns eventos que marcaram esse processo:

O Encontro de Melgar (1968) – Manifesta preocupações com a defesa dos direitos dos povos indígenas e denuncia as discriminações a que são submetidos. Chamou a atenção para o desafio do pluralismo cultural, visto como positivo pois sugere o reconhecimento da presença universal do Espírito de Deus na história; o “desenvolvimento integral” do ser humano, pois a salvação oferecida pela Igreja abrange também a superação das desigualdades sociais , os esforços de libertar o homem todo de tudo aquilo que o desfigura, em vista de um mundo mais justo e fraterno;

1º Encontro de Pastoral de Missões no Alto Amazonas (1971) – O foco da reflexão de Iquitos foi as populações indígenas e a presença na região Amazônica de populações ribeirinhas e migrantes urbanos. Teve como objetivo a criação de uma igreja amazônica: “por isso a Igreja se propõe a tornar-se ela mesma amazônica, solidarizando-se com estes povos aos quais foi enviada, encarnando-se nas suas culturas, nos seus ritos, nos seus ministros e nas suas estruturas, e dando-se a si mesma estruturas de maior unidade, propondo-se de ser fermento daquela cristã comunhão que se realiza na caridade” (n. 32);

Consulta missionária de Assunção (1972) – O documento visava tomar posição diante da Declaração de Barbados. Os erros do passado e do presente “não nos levam à conclusão que se deve por fim a toda atividade missionária”, mas exigem, sim, uma revisão radical da práxis evangelizadora, que implica o abandono de toda ideologia ou prática conivente com a opressão, a denúncia de todo tipo de exploração dos povos nativos e a proclamação do Evangelho de Cristo, que é essencial para a plena libertação dos índios, mas também da própria Igreja.

1º Encontro Panamazônico de Pastoral Indigenista (1977) – Destacou a missão doutrinadora e sacramentalista; a missão desenvolvimentista e paternalista; a missão encarnacionista e libertadora. Embora o texto não aprofunde as características específicas dos três modelos, sustenta que há uma tendência crescente em assumir o terceiro, que está em linha com a reflexão teológica latino-americana pós-conciliar;

1º Encontro Ecumênico de Pastoral Indigenista do Cone Sul da América Latina(1980) – Afirmava a crença na ação missionária das Igrejas cristãs, tinha o propósito de promover e conservar a unidade dos povos indígenas, evitando qualquer ação que possa causar ou fomentar divisões por problemas religiosos. Em outros termos, a divisão entre as Igrejas não prejudicaria apenas a credibilidade da missão, mas poderia prejudicar também a causa indígena, gerando divisões entre povos por razões religiosas.

1º Consulta Ecumênica sobre Pastoral Indigenista na América Latina (1983) – Chamou a atenção pelas frequentes referências aos povos indígenas enquanto sujeitos da construção de uma “sociedade alternativa”, de um projeto de “sociedade utópica”: os indígenas “constituem potencialmente uma das forças mais vivas da história atual, por contarem em si um projeto alternativo de sociedade”. Se os povos nativos podem carregar o germe de uma sociedade alternativa, as minorias étnicas, que são vítimas de “políticas extincionistas”, se tornam caminhos de libertação;

500 anos de resistência indígena (1992) – O papel das culturas enquanto fontes de resistência e libertação foi ainda mais aprofundado por ocasião das comemorações dos 500 anos do “descobrimento”, da “evangelização”, da “invasão” ou de “resistência indígena”;

Seminário Missiológico Internacional(1999) – Para refletir sobre os desafios da globalização na ótica dos outros/pobres, testemunha, por um lado, a preocupação da reflexão missiológica em denunciar o caráter excludente e homogeneizador das dinâmicas globalizadoras, mas, por outro, revela também a opção por uma metodologia teológica de cunho comparativo e intercultural.

Segundo Marinucci, todos esses encontros tiveram um tipo de impacto sobre a realidade da missão hoje, na América Latina. “A questão ecumênica, do diálogo interreligioso, nos permite ver o quanto evolui a reflexão teológica e missiológica que neste se tornou uma fonte importante de memória para as gerações futuras em vista de estabelecer uma caminhada neste sentido”, afirmou.

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