Juventudes Negras e o racismo que as mata

Por Guilherme Cavalli| 23.11.2015| Senhores de engenho, bandeirantes vindos de São Paulo e militares de Pernambuco invadiram o Quilombo dos Palmares, no alto da Serra da Barriga, onde hoje se localiza o estado de Alagoas. Era o dia 20 de novembro do ano de 1695 quando o Brasil foi marcado por um fato que muitos livros de história “esquecem” de contar. No cume da Serra, em uma sociedade livre e pacífica, viviam mais de 30 mil negros, índios e brancos. Foi nesta data que ocorreu o massacre de centenas de pessoas e a prisão de Zumbi, que preferiu se entregar aos caçadores de negros do que ver a carnificina do povo que liderava.

Passados 320 anos da morte de Zumbi em uma praça de Recife, capital de Pernambuco, dados comprovam que a pele negra continua sendo a mais procurada. O relatório Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial, de 2014 confirma que os jovens negros são os mais vulneráveis à violência no Brasil. A população negra entre 12 e 29 anos é a principal vítima das agressões à dignidade humana. O indicador incorpora na dimensão da violência a desigualdade racial e mostra que a cor da pele e o risco de exposição à violência estão relacionados.

Estereótipo

Jovem, negro e pobre. Ao mesmo tempo que o Mapa da Violência de 2014 da Une3sco aponta uma queda de 32,3% no número de homicídios de jovens brancos, o porcentual de homicídios de jovens negros cresceu na mesma proporção, com um aumento de 32,4%, A Anistia Internacional relatou em 2014 que foram 56 mil pessoas assassinadas em solo brasileiro no ano de 2012, sendo 30 mil jovens e, entre eles, 77% negros. O racismo introjetado na sociedade, inclusive presente nos profissionais e órgãos de segurança pública, tem como consequência a alta mortandade da população negra ainda hoje, repetindo a invasão de 1695 que prendeu e matou Zumbi e desmantelou o Quilombo de Palmares.

A vulnerabilidade da população negra no Brasil está relacionada às questões históricas de exploração, desde a Colônia e continua pelo estereótipo nutrido por uma sociedade escravocrata e racista. Alimenta-se um estereótipo sobre o negro que permite policias forjarem cenas de chacinas para encenar um tiroteio, como o ocorrido no Morro da Providência, Zona Portuária do Rio de Janeiro no mês de setembro. O jovem morto nesta cena de violência financiada pelo Estado e registrada em vídeo era negro, morador da favela, o mesmo que ganha menos no mercado de trabalho, que tem menos acesso às políticas públicas e está sujeito às maiores dificuldades sociais.

Assista ao vídeo: polícia mata jovem e altera cena do crime

Em um país onde 44% da população é afrodescendente, mas só 5% se declaram negros, deve-se perguntar qual o motivo para negar as origens. Assumir suas raízes, libertar-se dos ferros que alisam o os cabelos, militar contra o extermínio da juventude negra e contribuir com a luta para sua emancipação. Todas essas causas de vida devem fazer parte de iniciativas para uma Consciência Negra que respeite e promova as diversidades, sendo motivo de esperança para quem crê e trabalha por uma comunidade fraterna e humana.

* Guilherme Cavalli é secretário nacional da Pontifícia Obra da Propagação da Fé. Artigo publicado na revista Missões, novembro de 2015 – Ano XLII Nº 09.

Fonte: POM

 

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