Comunicação eclesial em tempos de pandemia

Observatório da Comunicação Religiosa (OCR)

Informe 01: Fevereiro de 2021

 

COMUNICAÇÃO ECLESIAL EM TEMPOS DE PANDEMIA

A pandemia da Covid-19 levou para o mundo da internet milhares de ministros ordenados que, habitualmente, se dirigiam às suas comunidades de forma presencial. Trata-se de uma poderosa forma de comunicação da Igreja com a sociedade, nesse momento de grave crise sanitária e social. Pessoas, grupos e organizações se viram obrigadas a se adequar ao ambiente digital. No meio eclesial não é diferente.

A exposição em redes sociais e mídias eletrônicas de celebrações litúrgicas e outras manifestações de cunho espiritual, evangelizador e/ou social trouxe à tona uma série de questões que precisam ser refletidas pela direção da Igreja Católica no Brasil.

Diferentemente de falar para um público conhecido (ou seja, a comunidade paroquial), quando um ministro ordenado se expõe em redes sociais e/ou mídias eletrônicas, ele se dirige a um público indeterminado, potencialmente muito mais amplo e, portanto, desconhecido.

O presbítero é pessoa pública e, servindo-se de mediações tecnológicas, sejam quais forem, ele está no espaço público, que demanda responsabilidade e qualidade no conteúdo, na forma e nas posturas em seu ministério. Isto requer compreensão e preparação.

Diferentemente da comunidade paroquial, fala-se para toda a sociedade, inclusive aos não católicos. Por outro lado, as redes sociais e a comunicação online favorecem novas formas de interação também com respeito à preparação das celebrações litúrgicas e das formações.

Neste sentido, reconhecendo o enorme esforço de adaptação a esse “mundo novo”, observa-se:

  1. A necessidade de melhor preparo do conteúdo homilético, em respeito à Palavra e ao diálogo dela com a vida do povo de Deus; uma maior atenção à estética a ser adotada em transmissões via internet, com atenção aos tempos e à qualidade das programações online;
  2. A necessidade de formação específica para o uso dos meios digitais. Para além da técnica em si, cada meio demanda uma linguagem própria que requer clareza, exposição profunda, mas simples em sua linguagem (algumas reflexões carecem de interpretação teológica, são superficiais e com ideias desconectadas). Não menos importante, precisa evitar transformar a celebração num espetáculo cujo centro é o celebrante, suas vestes ou outro subterfúgio;
  3. A necessidade de se criar algum nível de interação com o público, observando os comentários dos internautas e, na medida do possível, nas celebrações subsequentes, comentando as interações, no sentido de fazer das celebrações virtuais uma experiência de acolhida e participação;
  4. A oportunidade que os ministros ordenados têm de se encontrar com leigos (as) para estudarem juntos a Palavra de Deus do domingo, refletindo sobre sua contextualização e aplicação aos desafios de hoje. Dessa forma, a celebração dominical teria o sabor compartilhado da participação coletiva.

Código de ética institucional

Em relação à presença da Igreja, através de seus ministros ordenados, nas mídias sociais, é importante destacar também certos comportamentos e ações que demandariam uma espécie de “código de ética institucional”, para regular uma melhor exposição da imagem pública da Igreja Católica, principalmente nas emissoras de televisão e nos canais do Youtube. Observa-se, em muitos casos, uma nítida falta de comunhão com a Igreja, compromisso que o ministro ordenado assume na sua profissão de fé.

Registre-se, como exemplo, a recente manifestação de padre Elenildo Pereira[1] sobre as vacinas contra a COVID-19, na Rede Canção Nova, em flagrante contraste com as reiteradas orientações da Igreja, inclusive, de Papa Francisco e de Dom Walmor Azevedo, presidente da CNBB. Neste sentido, nos solidarizamos com a nota “Basta de má informação nos chamados meios católicos de comunicação”, divulgada pelos Padres da Caminhada, no dia 21 de janeiro pp.

Profissionais de comunicação católicos e outros especialistas, dentre eles sacerdotes e religiosos, estão cientes da necessidade de maior profissionalização do modo de comunicar-se no meio digital. Embora haja bons exemplos para servir de referência e boa vontade em colocar na internet sites, aplicativos, conteúdo ou mesmo perfis nas redes sociais, falta o devido cuidado com a linguagem, o que reforça a imagem de que a Igreja nem sempre se comunica corretamente.

O ambiente digital não é apenas um meio de comunicação, mas uma experiência de vida. As pessoas vivem o digital como vivem as suas relações reais e, assim, a experiência da fé precisa estar presente.

Abaixo, listamos algumas situações que demandam uma especial atenção da CNBB:

  1. Pedido de dinheiro e outros tipos de contribuição; solicitação de que os fiéis façam uma “chamada telefônica” ou que “apontem para o QRCode na tela de TV” durante celebrações litúrgicas;
  2. Ministros ordenados participando de merchandising, como verdadeiros “garotos-propaganda” de produtos totalmente questionáveis (medicamentos, “colchões terapêuticos”, “viagens religiosas” associadas a agências de turismo, terços, imagens, etc.) dirigidos inclusive ao público idoso, com evidente manipulação de informações sobre tais produtos e serviços. Mesmo compreendendo os altos custos para manutenção das emissoras televisivas e a necessidade de publicidade, é muito discutível a associação dos símbolos religiosos e de figuras tidas por muitos como “representantes do sagrado” ao endosso de produtos comerciais;
  3. Utilização das emissoras de inspiração católica para a venda indiscriminada de produtos e serviços de questionável qualidade, associados a elementos da religiosidade popular (reza do terço; novenas, imagens, objetos religiosos supérfluos. etc.);
  4. Opiniões de conteúdo moral ofensivas à dignidade humana, a expressarem julgamentos prescritivos de grupos ou comunidades eclesiais específicos, sem a devida retratação e necessária correção quando do cometimento de excessos, a criar animosidade e divisão dentro do corpo eclesial; e
  5. Linha editorial da cobertura sociopolítica de viés fundamentalista, reforçando, por exemplo, a postura da mídia empresarial em relação a temas econômicos (defesa do neoliberalismo, meritocracia; repúdio a políticas sociais etc.), sem considerar e respeitar a diversidade social e eclesial e as enormes desigualdades sociais.

Recomendações

Diante de todas estas considerações, o Observatório da Comunicação Religiosa recomenda:

  1. Alertar os senhores bispos para que responsabilizem as pessoas que falam em nome da fé nos veículos de inspiração católica – televisões, rádios e redes sociais – em suas respectivas dioceses, sobretudo em programas ao vivo, onde não há possibilidade de revisão (Cf. documentos da Igreja, sobretudo, a Aetatis Novae, números 17 e 18; o Direito Canônico, que recomenda idoneidade; e o Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, em especial o capítulo 10);
  2. A organização de minicursos regionais sobre técnicas de comunicação digital, conteúdo e métodos;
  3. A mobilização de equipes nas dioceses, com formações em nível regional, para que possam acompanhar a comunicação online das paróquias e sugerir melhorias, estratégias e iniciativas comuns a serem compartilhadas;
  4. O incentivo ao intercâmbio permanente de experiências de comunicação digital;
  5. A criação de uma OUVIDORIA[2] e a nomeação de um OMBUDSMAN[3] que possam interagir com o público em relação não somente à comunicação institucional, mas ao universo mais amplo da comunicação eclesial digital.

Por fim, o Observatório da Comunicação Religiosa se coloca à disposição da Comissão de Comunicação para o aprofundamento dos pontos levantados neste Informe 01, ou de algum outro tema não considerado e pertinente à comunicação da CNBB.

Brasília, fevereiro de 2021

 

 


[1] Em homilia transmitida ao vivo pela TV no começo de janeiro, o padre disse que não tomaria uma vacina contra a Covid-19 que não tivesse “comprovação científica”, levantando dúvidas sobre a segurança e eficácia da vacina.

[2] Uma ouvidoria é muito mais eficiente quando for composta por uma equipe com o máximo de independência para receber críticas, elogios e propostas sobre a comunicação.

[3] Um observador crítico independente que busca resguardar o direito do público de receber a informação correta e equilibrada.

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