A primeira intenção

Volta e meia nos sentimos magoados porque descobrimos que fomos enganados. Alguém, em quem confiamos, agiu com segunda intenção. Revelou nossos segredos ou deturpou nossas palavras. Outras vezes, ficamos sabendo que alguém se tornou nosso amigo só para conseguir favores. As chantagens emocionais também estão impregnadas de segundas intenções. O puxa-saquismo, igualmente. Da mesma forma, a fofoca. Dói saber que exploraram nossa inocência, ou nossa confiança, ou nossa fraqueza. Sentimo-nos usados e desrespeitados.

Os relacionamentos oferecem esses riscos. A raiva é normal, e justa, mas não há motivo para desacreditar nas relações humanas. Precisamos apenas tomar mais cuidado com a escolha dos amigos e com o uso das palavras. O Evangelho nos diz que precisamos ser “simples como as pombas e prudentes como as serpentes”. Por questão de ética, é melhor ser enganado do que enganar. O perdão e a transparência são atitudes cristãs que retomam a paz e purificam os relacionamentos.

A segunda intenção, geralmente vinculada à falta de ética e à pouca transparência, tem dimensões graves e atinge muitos campos. Tão habitual é essa prática que quase nunca temos consciência do nosso envolvimento, ou como vítimas, ou como culpados.

Na política, por exemplo, os candidatos nos prometem o paraíso na tentativa de atrair o nosso voto. Nós, eleitores, também fazemos uso da segunda intenção quando optamos por alguém que nos proporcione benefícios individuais ou familiares, em vez de sociais.

No comércio, o anúncio comercial nos convence de que, para sermos felizes, precisamos de tal produto e de tal marca, e, depois, descobrimos que o objetivo era apenas empurrar-nos a mercadoria.

A religião, vez ou outra, nos convence de que pensar ou agir de determinada maneira é vontade de Deus; porém, em algum momento, tomamos ciência de que era apenas um ponto de vista ou interesse do líder religioso.

Pagamos impostos na esperança de que o dinheiro seja bem usado na solução de problemas sociais. Contudo, o tempo passa e os problemas aumentam. E constatamos que o dinheiro foi destinado a outra finalidade.

Algumas escolas divulgam números exorbitantes de aprovados no vestibular, e, em seguida, analisando os números e as vagas, damo-nos conta de que desejavam somente nos vender a falsa imagem de competência, transformando a educação em mercadoria.

A globalização do comércio, diante da crise do Planeta, criou o conceito do desenvolvimento sustentável, passando-nos a noção de que se preocupa com a ecologia; entretanto, não passa de uma estratégia de perpetuar-se e de expandir-se, assim como o berne que, diante da vaca doente, encontra um jeito de mantê-la viva, única condição de ele também continuar vivo e procriar.

A primeira intenção existe? Sim. Porque nem sempre agimos por interesse próprio. Como não somos anjos, algumas circunstâncias podem nos conduzir às segundas intenções.

No entanto, somente Deus, em todas as condições, sem cessar, age apenas com a primeira intenção, porque seu amor é gratuito, é incondicional, é ilimitado.

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