A graça de Deus e o amor aos pobres acolheram Pe. Carlos no céu

O missionário Comboniano do Coração de Jesus (MCCJ), Pe. Carlos Bascaran Collante, 79 anos, morreu, no dia 22 de setembro, vítima de Covid-19, na Paraíba. Ele estava internado há 20 dias, segundo comunicou em nota a Arquidiocese da Paraíba. O padre é natural da Espanha e estava há 50 anos se dedicando a vida religiosa, como missionário comboniano. 

Por conta das orientações sanitárias de prevenção ao coronavírus, não houve velório e o sepultamento ocorreu apenas com a presença dos irmãos da congregação religiosa. Padre Carlos Bascaran chegou à Paraíba, em 2010, onde esteve presente em uma paróquia no bairro Marcos Moura, no município de Santa Rita, na Região Metropolitana de João Pessoa.

Testemunha um de seus irmãos de Congregação, Pe. Xavier

“Hoje terminou a Via-Sacra de Pe. Carlos. Foi longa e dolorosa. Cada dia era uma estação que tinha como ponto central à tarde, quando os médicos ligavam para informar seu estado. Nos primeiros dias parecia dar sinais de recuperação, mas com o passar do tempo o quadro foi se agravando. Confesso que ficava na expectativa de receber boas notícias, mas a cada dia os boletins médicos se tornavam cada vez mais desanimadores.

Hoje tive a responsabilidade de levar-lhe a unção dos enfermos. Não foi fácil entrar no quarto e vê-lo naquelas condições. Algumas pessoas da equipe médica quiseram participar do momento de oração. Ungi seu rosto acariciando-o. Queria ter esse contato físico com ele. Carlos sempre teve carinho comigo e o trabalho pastoral com as crianças, sobretudo com os adolescentes privados de liberdade.

Mesmo sofrido, pois me dei conta que seria a última vez, senti que estava vivendo um momento de graça. Em nome da família biológica, da família comboniana e das famílias paroquiais que ele serviu, estava tendo o privilégio de despedir-me de um companheiro pobre, zeloso pela missão, generoso e, sobretudo, animado. É a primeira vez que me acontece de vivenciar isso em comunidade.

Fiquei feliz de ver o cuidado do pessoal do hospital a quem agradeci pelo serviço prestado ao Pe. Carlos.

Preocupação com os pobres

No dia, antes de levá-lo ao hospital, Pe. Carlos me chamou para conversar. Parecia que já estava se despedindo. Passou-me algumas disposições.

Com o pouco fôlego que lhe restava continuava falando dos pobres. Posso afirmar com toda certeza que, como sempre foi, suas últimas preocupações foram com os pobres, sobretudo, com as crianças do Projeto Legal, os/as catadores/as da cooperativa e os adolescentes privados de liberdade.

Naquele momento fiz de tudo para mudar a conversa. Sugeri que ele acertasse tudo ao voltar do hospital, mas ele insistiu. E assim foi feito. Entre seus últimos desejos há uma bolsa de estudos para uma menina que cresceu na Pastoral do Menor desde os tempos de irmão Mario Fortuna e que agora é educadora do Projeto. Mayara já está cursando pedagogia. “investir na educação – me disse – é escancarar as cortinas do horizonte e vislumbrar um futuro melhor”.

No dia seguinte, passamos no hospital Pe. Zé, onde fez o teste da Covid e, orientados pela médica, fomos até o hospital da Unimed onde ficou internado até o último instante.

Em ponta de pé e nu

Carlos volta para a casa do Pai em ponta de pé, nu, pois a Covid não permite nem vestir seu corpo mortal, mas entra rico no Céu da graça de Deus que sempre o acompanhou e do amor aos pobres.

Eu sempre fico comovido com a liturgia das exéquias, pois na despedida final a Igreja não invoca o apóstolo Pedro para abrir as portas do Céu, mas Lázaro, o pobre de outrora: “O coro dos anjos te receba e com Lázaro, o pobre de outrora, possuas o repouso eterno”.

Então, companheiro Carlos, pode ir tranquilo e feliz da vida, cantando e tocando seu violão, pois os Lázaros que você serviu nessa terra, estão aguardando você para fazer festa. Até quando Deus quiser.

Obrigado por tudo e não esqueça de rezar por nós.”

 

A CRB se solidariza com os missionários combonianos,  pela Páscoa do Pe. Carlos, e faz orações pelo repouso eterno deste irmão dedicado a aliviar os sofrimentos dos “lázaros” que encontrou durante sua vida.

 

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