Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Internet, Google, Facebook, Telefone celular, Smartphone, Instagram, Redes sociais, Amazon, Compras online, WhatsApp, Fake News, E-mail – eis uma série de termos muito familiares às novas e novíssimas gerações. As gerações anteriores, ao contrário, sentem grande dificuldade em incorporá-los no seu dia-a-dia, quando não os ignoram completamente. Fala-se, por exemplo, da geração dos botões ou geração digital, em contrapartida à geração da calça Jens, da Coca-Cola e dos Beatles. Em relação à primeira, os membros da segunda, por vezes, chegam a se definir como exemplares dos “dinossauros”. Seres pré-históricos e fora do contexto atual.

Na Vida Religiosa Consagrada (VRC), as coisas não são diferentes. Existem, de um lado, os que mantêm um olhar oblíquo, distante e desconfiado diante do universo desconhecido de tantas e tão rápidas novidades tecnológicas. De outro, os que delas fazem uso e abuso com uma habilidade e familiaridade deveras surpreendentes. Em tempo de mudanças rápidas, profundas e sem precedentes, não raro, predomina o movimento pendular dos extremos. Enquanto uma parte acusa a tendência efêmera e superficial do mundo virtual ou volátil, a outra aponta o dedo sobre os “retrógrados”, incapazes de se adaptarem à comunicação moderna ou pós-moderna. Chega-se, muitas vezes, a uma polarização exacerbada que impede um meio termo, em vista de um uso correto das novas tecnologias. Resulta que o uso ininterrupto e desmedido, por uma parte, afasta e reforça o temor e a desconfiança, por outra. Os polos se radicalizam e se excluem reciprocamente.

Hoje como ontem, diante de inovações da tecnologia, o desafio consiste em um uso adequado. Um rápido olhar para em que surgiram a pólvora, a imprensa e os novos meios de transporte bastará para ver como as reações se repetem. Num primeiro momento, a novidade adquire o caráter de vedete, de protagonista e até de fim em si mesma, como o carro, por exemplo. Logo tende a crescer a consciência de que os avanços tecnológicos não passam de meios. Não podem por isso nos desviar dos fins e das metas a que nos propomos enquanto seres dotados de razão, e menos ainda enquanto religiosos chamados e enviados ao serviço do Reino. Quando isso ocorre, o ser humano cria máquinas, tornando-se depois incapaz de dominá-las. Convém ter claro aqui a diferença lapidar entre o que na existência humana é secundário, substituível, relativo e descartável, daquilo que lhe é central, indispensável, essencial, absoluto. Na VRC, como é fácil constatar, essa diferença e essa distinção é conditio sine qua non da espiritualidade, da vida comunitária e da missão.

A esta altura, voltemos a olhar mais de perto para dentro das comunidades da VRC. De imediato, tropeçamos novamente com o pêndulo dos extremos entre os internautas e os que praticamente a rechaçam ou a utilizam de forma rudimentar. E tropeçamos também com tensões e atritos entre um grupo e outro. Mas a pergunta que emerge vai em outra direção: até que ponto o uso das inovações tecnológicas, marcadamente ligadas às telecomunicações, interfere, desvia ou distorce os ideais da VRC? Não há dúvida que os abusos se tornaram conhecidos e notórios. O primeiro deles é a corrida frenética aos modelos de ponta. Do berço ao túmulo, os novos aparelhos portáteis de comunicação costumam ter vida curta. Envelhecem com a velocidade vertiginosa do mercado e de sua sede de produção e venda. Não é difícil adquirir o vício e o vírus de trocá-los a cada novidade, o que depõe contra o voto de pobreza. E contra o voto de castidade, quando se estabelece uma ligação mórbida e doentia com certas inovações que consomem mais tempo que a oração, a vida fraterna ou o compromisso pastoral.

Depois vem o contraste entre as coisas e as pessoas. Hoje repete-se com frequência a imagem de vários religiosos sentados à mesa, cada um deles centrado sobre o próprio smartphone. Mais grave ainda quando o telefone portátil toca (e é atendido) durante a oração ou a eucaristia. Outra cena comum é cada pessoa com seu prato nos joelhos diante da televisão, como a rainha do lar. Tudo isso vale igualmente para a convivência familiar. Quais os riscos de semelhantes atitudes para a comunhão fraterna e o cuidado vocacional recíproco?! Nada parece mais invasivo, inoportuno e intempestivo do que o sinal do celular em determinados momentos, digamos, “sagrados” da VRC e/ou familiar. E quanto mais musicados, mais estridentes, do ponto de vista do incômodo.

Melhor então impedir seu uso? Nada mais equivocado. Tudo que é proibido tende a ser mais apetitoso. Mas não é esse o motivo principal do cuidado. Na verdade, nos dias atuais a Internet em suas modalidades mais variadas entrou a fazer parte da vida, tanto no trabalho cotidiano quanto da missão do religioso. E não são poucos os que a usam para criar, cimentar e consolidar as chamadas redes sociais. Debates interesses circulam nessa imensa galáxia. Aqui, porém, levanta-se outra questão, a qual envolve riscos e potencialidades. São infinitas as alternativas de tais redes. Podem ser superficiais, grosseiras, lascivas e até criminosas, como podem representar uma nova forma de estabelecer laços humanos. Neste caso, o que conta são os conteúdos veiculados, os quais, precisamente por sua natureza enciclopédica, jamais deveriam dispensar a leitura de um bom livro.

Quando se fala de família e de vida religiosa, entretanto, nada substitui o contato interpessoal, o diálogo olho no olho, o encontro comunitário, o cultivo da vocação. Se “navegar é preciso”, conviver entre irmãos torna-se um absoluto para a VRC. Justamente aí nascem e crescem os medos, dúvidas, os perigos e as ambiguidades das novas tecnologias.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de janeiro, 05 de fevereiro de 2019

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