Permanece conosco

(Lc 24,29)

Assembleia da CRB

Brasília, 15/07/2013

   Reverendas Irmãs Superioras e reverendos Irmãos Superiores; Irmãos e Irmãs participantes da 23ª Assembleia Geral da Conferência dos Religiosos do Brasil, CRB. Grato pelo convite para participar da abertura em nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB. A Assembleia é encontro, celebração, revisão, mas também procura do que está por vir.

       Em nome da presidência da CNBB, expresso gratidão pelo serviço da CRB à Igreja no Brasil. Gratidão a todas as religiosas e aos religiosos pelo serviço aos irmãos e às irmãs. A vida religiosa é dom para a nossa Igreja no Brasil. Nos exercício dos diversos serviços e ministérios, a vida religiosa abre espaços para que o Reino de Deus possa crescer e dar fruto.

       Uma palavra pessoal de agradecimento à atual presidência da CRB pela comunhão e espírito missionário. A Igreja no Brasil está a serviço de outras Igrejas. A nossa Igreja se fez samaritana com o povo do Haiti graças ao espírito missionário da CRB. Crescemos na comunhão ao buscarmos juntos soluções para realidades diversas que nos envolvem a todos. Isso demonstra sabedoria de estarmos todos a serviço do Evangelho, da Igreja. De coração, muito obrigado por tudo!

Permanece conosco! Um desejo-procura?, uma súplica-convite?, encontro?. Como desejar se fomos desejados? como procurar se fomos procurados? como convidar se fomos convidados? como suplicar se fomos encontrados? Não está Ele no meio de nós? Nas nossas celebrações sempre reafirmamos a presença do Crucificado-ressusscitado.

       Talvez, pudéssemos recordar Bernardo de Claraval: “«Procurei, diz a Esposa, Aquele que o meu coração ama» (3,1). Sim, é de fato a esta procura que te convida a ternura d’Aquele que, antes de ti, te procurou e te amou. Não O procurarias, se primeiro Ele não te tivesse procurado; não O amarias, se primeiro Ele não te tivesse amado. O Esposo não se antecipou numa só bênção, mas em duas: no amor e na procura. O amor é a causa da sua procura; a procura é o fruto do seu amor, e dele é também penhor assegurado. És amada por Ele, de maneira que não podes lamentar-te por não seres realmente amada. A dupla experiência da sua ternura encheu-te de audácia: aniquilou-te as vergonhas, persuadiu-te  a voltares para Ele, deu força ao teu entusiasmo. Daí o fervor, daí o ardor em «procurares Aquele que o teu coração ama», pois é evidente que não terias podido procurá-lo, se primeiro Ele não te tivesse procurado; e agora que Ele te procura, não podes deixar de O procurar. Que a alma disto se lembre: foi o Esposo quem, primeiro, a procurou e quem, primeiro, a amou; tal é a fonte da sua própria procura e do seu próprio amor” (Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, n.º 84).

       Justamente depois de encontrados, no percorrer o caminho, que nasce nos discípulos de Emaús o desejo de permanecer com Ele, de ser n‘Ele. Desejamos porque fomos desejados! Procuramos por que fomos procurados! Convidamos porque convidados! Suplicamos porque encontrados! Talvez, o desejo de nossas entranhas expresso nos discípulos de Emaús desperte em nós, mais uma vez, a razão, a fonte de nossa vida religiosa: fomos em Jesus Cristo extraordinariamente amados, amadas, até a morte e morte de cruz! Um amor pleno, plenificado, libertador, gerador de vida nova, gratuito; ressurreição!

       Essa relação nos faz discípulos, discípulas. Ele nos buscou, nos procurou, nos amou, nos encontrou! Ele se fez nosso caminho e nos colocamos a caminho. Ele agora é nosso mestre e Senhor. Mestre, porque aprendizes, discípulos/as. Aprendizado como transformação de nossas vidas e das nossas Congregações. Discípulos/as, porque entramos no mesmo movimento de amor e somos provocados e provocadas a sermos a caridade, isto é, o amor em movimento. Estamos sempre na atenção, na tensão de termos sido encontrados. Permance conosco, Senhor!

       Ele conosco, estaremos sempre na disponibilidade, na disposição e na exposição de sermos por Ele vivificados, transformados, maturados, plenificados. Na grandeza do encontro, Ele é tudo para nós, e em tudo os afazeres está Ele presente. Ele nos per-fazer. Ele, razão de nossa vida, do nosso viver; Ele nos faz e deixa sermos religiosas e religiosos. Como é extupendo sermos por Ele fecundados e sermos presença da vida nova. Sermos, como Jesus, o rosto do Pai. Ele, nosso caminho e nosso caminhar, discípulos, discípulas: Permance conosco, Senhor!

       Admirados, encantados, aquecidos, encontrados, como viver separados, distanciados? Nesse desejo cada vez mais intenso, afável e vigoroso que Ele suscita em nós,  é que salta o desejo: permanece conosco, Senhor. Ele, nosso Senhor Jesus Cristo! Senhor, o DOMINUS! Dominus, pois é a bondade imensa que tudo sustém e mantém; dominância, domínio, dominar é grandeza bondosa do Dominus = Senhor. Senhor, pois é o Altíssimo (S. Fsco de Assis, Oração diante do Crucifixo); altíssimo: “altaneiro e imenso, acima de tudo, cobrindo todas as coisas com a grandeza benigna, sereno como o céu, na dominância aconchegante da imensidão bondosa que faz surgir e deixa ser todas as coisas em casa. Mas, Dominus contém a palavra Domuique significa casa. O altíssimo Senhor é a Grandeza e imensidão alta, espaçosa e livrecomo o céu, é a Serenidadebondosa do Pai da casaquedeixatodosentes à vontadeem casa“ (H. Harada). Como então não pedir, suplicar, sussurar: permanece conosco, Senhor!

       Ele, nosso mestre e senhor, que abre a nossa vida religiosa para uma medida sem medida. Como a moeda da viúva que nada tem e tudo entrega. Por nada ter, faz-se oferta, oferenda. Nesse movimento de amor, poderíamos recordar a Teresa de Calcutá: ”Estando Cristo invisível, não Lhe podemos mostrar o nosso amor; mas os nossos vizinhos estão sempre visíveis, e podemos fazer por eles aquilo que, se Cristo fosse visível, gostaríamos de fazer a Ele. Hoje, é o mesmo Cristo que está presente naqueles de que ninguém precisa, que ninguém emprega, de que ninguém cuida, que têm fome, que estão nus, que não têm lar. Esses parecem inúteis ao Estado e à sociedade; ninguém tem tempo para lhes dar. Compete-nos a nós, cristãos, a vós e a mim, dignos do amor Cristo, se o nosso é verdadeiro, compete-nos a nós procurá-los, ajudá-los; eles estão lá para que os encontremos.” (Com a medida que empregardes para medir é que sereis medidos).

       Um desejo?, uma procura?, um convite?, uma súplica? ou apenas nosso balbuciar na admiração e certeza de que Ele está no meio de nós? Balbuciar de quem aprendeu que o entardecer, o declínio, a noite é prenúncio do amanhecer. A noite é apenas gestação para o nascimento de mulheres e homens que são sal e luz do mundo. Quando se faz entardecer, noite, é que Ele está no meio de nós, Emanuel, Deus conosco! Ele-palavra a clarificar a história de salvação, a esclarecer a dinâmica da vida do Evangelho no caminhar. Palavra que é boa notícia, vida nova que brota do chão. Palavra feita Pão que se reparte e revela a benignidade da Trindade. E na Palavra feita pão que bendiz e se reparte, somos pão partido para alimentar aqueles que ninguém deseja.

       Que graça nos deu o Senhor: Ele permanece conosco todos os dias até a consumação de todas as coisas. Talvez, nos encontramos distraídos, cheios de nós mesmos, ocupados com tantas coisas que não condizem com nossa vida religiosa, com o nosso carisma, com o Evangelho, com o Reino de Deus. Somos necessitados de sua presença dialogal, pessoal, afetiva. E Ele despertando em nós, mais uma vez, o desejo, a súplica: Parmanece conosco! … Envia-me! Um permanece que envia, desaloja, liberta!

Parmanece conosco!

Sabemos que estás no meio de nós!

Aqui, agora e sempre!

Tu suscitas em nós o desejo e a súplica

para que possamos permanecer em Ti.

Contigo somos tempo, com todo o tempo para os outros,

Sem tempo para os nossos interesses pessoais.

Permanece conosco e teremos tudo em comum;

Seremos comunidade, repartiremos o pão e seremos pão repartido.

Permanece conosco e estaremos na ob-audiência da força do amor com que fomos amados;

Permaneceremos na disponibilidade, na generosidade de servir.

Permanece conosco e seremos a pobreza, a gratuidade,

A soltura, como Tu: o Crucificado!

Permanece conosco e renunciaremos a nós mesmos;

Seremos, como Tu, tudo em nós.

Permanece conosco e participaremos da limpidez, da transparência,

Da castidade de uma vida que tem a força e o vigor de eternidade. Permance conosco transformando, maturando,

Plenificando a vida de cada um de nós.

Dá-nos a graça de sermos teus discípulos/as;

Tu conosco, no meio de nós, como um de nós, nos enviando para anunciar o tempo da graça do Reino de Deus. Amém.

Abençoada Assembleia e grato.

Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília

Secretário Geral da CNBB

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