Por Egon Heck | 03 / Dez / 2015 16:57| Após dois dias de debates e reflexões sobre os desafios e graves problemas enfrentados nas aldeias e comunidades indígenas de todo o país, 120 professores indígenas, de 33 povos de 11 estados, decidiram criar uma ferramenta própria do movimento, para unir as forças e se mobilizar na defesa dos direitos de seus povos.

Foi criado o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena, como espaço de diálogo, articulação e luta. Ele é resultado de uma caminhada do movimento dos professores indígenas em nível local, regional e nacional.

Nas últimas décadas, os professores indígenas fizeram um importante processo de articulação e organização por regiões e povos. A precarização da educação escolar nas aldeias, desde o ensino fundamental até a expressiva presença nas universidades, fez com que se consolidassem um processo de luta tanto por uma educação diferenciada, intercultural multilíngue e comunitária. Porém, os entraves das políticas colonialistas impediu com que se avançasse neste processo.

Educação política

O professor GersenBaniwa insistiu na importância da articulação, mobilização e formação política dos professores indígenas. Para ele, apesar de algumas conquistas e avanços, existe um impasse, para consolidar novos passos na construção e consolidação dos projetos de autonomia e autogestão nos territórios indígenas. E isso só é possível enfrentar com consciência política e étnica, através da formação política dos professores e lideranças e da luta. Ressaltou que na década de 80 o movimento indígena tinha clareza na luta por seus direitos e formava seus quadros na luta. “Hoje sentimos a falta dessa formação”.

“Apesar de uma formação acadêmica sempre maior dos professores indígenas, o que se precisa na verdade é que das universidades saiam guerreiros e não pessoas subservientes ao sistema”, afirmaram participantes do encontro.

Ao avaliar o quadro atual, Gersen enfatizou que “precisamos desgovernizar (não nos deixar subjugar pelo poder/governo) descolonizar e destutelar”.

Foram debatidas as agendas mais importantes do movimento indígena e dos professores indígenas na perspectiva da construção da autonomia e autogoverno. Apesar de ser um sonho, é um caminho a ser trilhado através da articulação, união e soma de esforços.

Um dos exemplos foi a presença de lideranças religiosas e políticas no encontro. Somente com a conjugação das forças espirituais, da cultura, dos territórios, é que se conseguirá vencer os inimigos de fora e os introjetados nas comunidades pelo sistema colonizador capitalista.

Na carta às autoridades brasileiras, reafirmam: “Acompanhamos com pesar as ações jurídicas, projetos de lei e atos administrativos desfavoráveis aos povos indígenas nos Três Poderes. Esses ataques aos direitos indígenas precarizam também a educação escolar indígena, criminalizam nossas lideranças, fomentam o racismo e incitam a violência. Para ilustrar, lembramos o assassinato por pistoleiros dos professores indígenas Rolindo Vera e Genivaldo Vera, quando acompanhavam seus alunos no retorno à aldeia Ypo’i, em 2009, no município de Paranhos, MS”. Reafirmam a necessidade das aldeias e comunidades indígenas unificarem as lutas pelos direitos: “Nossa preocupação soma-se às lutas de nossos mestres tradicionais e caciques pelos nossos territórios tradicionais, direito à saúde e à educação diferenciada. Levamos ao conhecimento”.

Em parte do encontro realizarão mobilizações em Brasília. Os professores aprovaram um documento contra a PEC 215 e o marco temporal. Em torno dessa luta se unificam também com a luta dos quilombolas e da Mãe Terra. Estão presentes no encontro representantes de lutas emblemáticas como Nhanderu Marangatu, onde foi assassinado Simeão Vilhalva e dos Krenak, recentemente atingidos pelo desastre ecológico de Mariana com a destruição do Rio Doce.

Fonte: Cimi

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