Quatro fatores, entre outros, têm contribuído para o aumento dos deslocamentos humanos em termos globais.

O primeiro deles está vinculado à crise prolongada da economia capitalista, desencadeada a partir das últimas décadas do século XX e início do século XXI. A crise trouxe desemprego e subemprego em massa, instabilidade socioeconômica, além de espalhar medo, ameaça e insegurança. As pessoas tendem a imergir numa inércia, marasmo, paralisia. Ou então, para boa parte delas, as energias vitais e potenciais, em lugar de concentrar-se sobre as forças da organização trabalhista, voltaram-se contra o próprio vizinho ou companheiro, que se torna um concorrente das migalhas que o capital deixa cair da mesa. Às vezes tais energias se abatem sobre os que amamos ou pensamos amar.

A busca pelo “pão nosso de cada dia” debilitou a luta pelo chão, pelos direitos pela dignidade humana e pela cidadania.

Em segundo lugar, à medida que a crise se aprofundava, crescia simultaneamente a diferença social e econômica entre as diferentes classes sociais e categorias de trabalhadores.

Daniel Duque, pesquisador do IBRE-Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas, publicou recentemente um estudo sobre a evolução negativa do Índice de Gini, que mede o nível de concentração de renda (Jornal o Globo, 26/05/2019, pág. 2).

Verifica-se que nunca tão poucos se tornaram tão ricos em tão pouco tempo, enquanto a maioria da população sofreu perdas progressivas de poder aquisitivo, gerando exclusão social.

Trabalhos e publicações em abundância, ilustrados por números e estatísticas, mostram bem o crescimento generalizado da desigualdade social, tanto em nível nacional quanto regional e planetário. A incerteza quanto ao futuro associada à grande massa de sobrantes – “descartáveis e descartados” – contribui poderosamente para a busca de uma cidadania justa e digna fora do lugar de nascimento.

Nesse clima de instabilidade, nasce e cresce o terceiro fator.

Os políticos oportunistas e sempre de plantão, oriundos em particular da extrema direita e ligados ao nacionalismo popular, souberam manipular e instrumentalizar o medo, a ameaça e a insegurança para eleger-se. Os casos são numerosos e variados: Hungria, Áustria, Itália, Estados Unidos, Filipinas, Dinamarca, Eslováquia, Inglaterra do Brexit, Brasil… Tanto é verdade que a realidade das migrações, em geral, aparece entre os primeiros temas de suas campanhas eleitorais.

Politizar as migrações era uma forma de criminalizar os migrantes como intrusos, invasores, perigosos. O “outro”, seja quem for e venha de onde vier, é nosso inimigo, vem roubar nossas oportunidades, deve ser combatido. Os nossos antes de tudo! – eis o lema.

Seguiram-se o fechamento das fronteiras e a elaboração de leis mais rígidas para a entrada de estrangeiros, por um lado e, por outro, os cortes no orçamento público para acolhida, assistência e inserção de novos imigrantes. Diminuiu também a aprovação para os requerentes de asilo.

Por fim, em quarto lugar, restringiu-se por toda parte a migração legalizada. Não somente os fluxos que se direcionavam aos países centrais provenientes dos países periféricos, mas também o vaivém entre estes últimos. Com isso, os movimentos de população, sejam eles devido à violência ou à pobreza, começaram a pressionar as fronteiras entre os países, como se pode verificar entre Estados Unidos e México, entre este último e Guatemala, entre Venezuela, Colômbia e Brasil, entre Turquia e Europa, entre Líbia e sul da Itália e Espanha, entre tantos outros. A migração ganha maior visibilidade. E mesmo a partir da fronteira bloqueada, os migrantes convertem-se em novos “bodes expiatórios” da desordem social. Daí a intolerância, a discriminação, o rechaço e, no extremo, a perseguição e deportação em escala crescente.

Para piorar, no imaginário popular e às vezes na mídia ou nas redes sociais, o tráfico de seres humanos, drogas e armas, o terrorismo e o crime organizado – aparecem vinculados à migração.

Nessa atmosfera, também não é difícil detectar uma onda de ódio e agressividade com sérios elementos de um supremacismo racial que já havia sido jogado na lata de lixo da história.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de Janeiro, 25 de maio de 2019

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