Antropólogo e cientista político o leigo missionário da Consolata, Luiz Ventura Fernandez, versou  sobre os impactos na vida da população nativa e os desafios para o ser humano em tempos atuais, durante o Encontro Rede Eclesial Pan-Amazônica que acontece em Brasília, de 09 a 12.

Por Rosinha Martins| 10.09.14| O Encontro Rede Eclesial Pan-Amazônica, contou, na manhã desta quarta, 10, com a assessoria do leigo missionário da Consolata (LMC), antropólogo e doutorando em Ciências Políticas, Luiz Ventura Fernandez que versou sobre os impactos do sistema capitalista na vida das populações tradicionais da Amazônia.

Para o assessor, o que acontece no contexto atual nada mais é que um reflexo de uma expansão do capital, de intensificação da exploração dos recursos naturais. “Esse modelo necessita da dominação completa do território”, disse.

As ideias que justificam esta ocupação são, segundo ele, aquela que conceitua a Amazônia como um espaço vazio, uma fonte ilimitada de recursos, como um único caminho possível. São ideias que se apoiam na negociação da sociodiversidade. A novidade deste cenário, afirmou, ‘ é a mobilização e organização dos povos e o reconhecimento dos seus direitos”.

Segundo Ventura, as populações tradicionais compõem uma diversidade muito grande entre eles, os povos indígenas, os povos isolados e varias famílias linguísticas. Os seringueiros, as quebradeiras de coco, quilombolas, ribeirinhos e agricultores são outros grupos que ajudam na diversificação deste cenário.

Dados apresentados por Ventura revelam que a Amazônia contém uma população indígena de 2.779.478 habitantes, 390 diferentes povos indígenas, 137 povos ‘isolados’, 240 línguas faladas, 49 famílias linguísticas. As famílias mais numerosas são os Aruak, Karib e Tupi-Guarani.

“Mas estes grupos tem algo em comum que é o regime comunitário de propriedade, o pertencimento ao lugar. Eles estabelecem uma relação com o território que vai muito além da utilização do mesmo. Há uma identidade que passa por uma comunhão simbólica com o lugar”, acentuou.

Ventura ressaltou ainda, que todos os países estão reformulando o marco legal da exploração do minério com o objetivo de responder as demandas dos mercados internacionais, a saber, o crescimento econômico e a manutenção de políticas sociais, a redefinição do ‘interesse público’ e nacional, indústria de adequação ambiental e a tecnocracia.

Os impactos sobre as populações tradicionais, se dão, no parecer de Luiz Ventura, com a paralisação ou morosidade na demarcação dos territórios, entrada de capital nas terras demarcadas e ausência de salvaguardas.

“Os impactos sobre o ambiente se dão por meio de vazamentos, resíduos gerais, substâncias tóxicas, poluição sonora, erosão, contaminação do solo e desmatamento”.

O modelo capitalista afeta, no profundo, as relações do homem com Deus, com a natureza e com as coisas criadas.  “O capitalismo nos desliga em três sentidos: do outro, e por isso a sociedade se torna tão individualista; das outras formas de vida e nos convence de que somos dominadores e gestores da natureza sem compreender todas as formas de vida que aí circula, e nos desliga do Outro, do Transcendental, do Sagrado”, garantiu.

O antropólogo não tem dúvidas de que o caminho é re-ligar estas três rupturas e “religar-nos com o outro, com as outras formas de vida num sentimento de irmandade, de respeito e de horizontalidade, e religar-nos com o sagrado, fazendo destas três dimensões algo que seja integrado, conectado, o que se torna um desafio de cunho civilizacional”, assegurou.

Para fazer este caminho de re-ligamento, Ventura propõe um olhar atento para os povos da Amazônia. “Eles nos ajudam recuperar o conceito de território, de lugar como aquilo de onde faço meu projeto de vida, onde consigo significar o ambiente em que vivo e significar o meu mundo espiritual a partir daí”, sugeriu.

Ainda de acordo com Ventura, num mundo globalizado em que parece que o território já não mais existe,é preciso recuperar o ‘lugar’. Outras pistas, passam por experiências de economia solidária, tantas outras mediações que acontecem no dia a dia e que nos permitem aproximarmos deste ‘re-ligar’. “Temos que aproveitar o que está ai e que desprezamos pensando ser periférico, mas quando colocamos de novo estas coisas no centro, creio que estaremos neste caminho”.

O assessor conclui sua fala com um exercício de discernimento das formas de resistência popular contra o avanço desse modelo de expansão do capital.

“Todo esforço dos movimentos sociais em deter esse avanço, deve dialogar com as formas de resistência adquirida por estas populações ao longo dos séculos, e também, com o conhecimento ancestral. Exemplificou com a carta (anexo) do povo yanomami  que alerta sobre essas ameaças.

O Encontro Rede Eclesial Pan-Amazônia termina nesta sexta, 12, às 17h.

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