Os fantasmas do comunismo representam uma herança dos tempos da guerra fria.

Os altos escalões da ditadura militar e os conservadores em geral os viam por toda parte: nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), espalhadas por todo território nacional e em outros países da América Latina; no surgimento e consolidação das Pastorais Sociais, ligadas à CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e defensoras dos direitos humanos de minorias vulneráveis, tais como indígenas, camponeses, migrantes, menores, crianças, mulheres marginalizadas, operários, enfermos, prisioneiros, entre outros. Na TDL (Teologia da Libertação), como reflexão teórica da prática libertadora dos cristãos; nas salas de aula das universidades, entre professores e alunos; no movimento de alfabetização de adultos, a partir do método Paulo Freire; na organização do sindicalismo combativo, especialmente a partir dos trabalhadores metalúrgicos do ABC e de São Paulo; nos movimentos populares, tanto no campo quanto na cidade; nas ONGs (organizações não governamentais); na emergência da consciência sobre a preservação do meio ambiente e da luta das mulheres… E em outras igrejas, associações e entidades que assumiam as mesmas causas.

Vivia-se sob a opressão do regime militar nos países do Cone Sul, da exploração generalizada da mão-de-obra e do crescente desequilíbrio socioeconômico, como alertarãm, por exemplo, a Gaudium et Spes (1965) e a Populorum Progressio (1967). Disso resulta a tentativa de colocar em prática os princípios orientadores do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-65), em nível universal, mas também, em nível latino-americano e nacional respectivamente, as orientações da Assembleia Episcopal da América Latina e Caribe de Medellín, em 1968, e as diretrizes da CNBB, durante o período de exceção. De um lado, prevalecia o olhar de pastor sobre as “feições sofredoras de Cristo no subcontinente”, dirão os bispos no Documento de Puebla, em 1979, números 31-39. De outro lado, procurava-se concretizar a “opção preferencial pelos pobres”, um dos fios condutores dos últimos documentos do ensino social da Igreja.

Dois faróis orientavam a rota dessa ação pastoral sócio-transformadora. Primeiramente, vinha o “sofrimento dos pobres” em todo subcontinente, “sofrimento que clama aos céus”, como lembravam, respectivamente, as conclusões de Medellín e de Puebla, depois confirmadas pelas assembleias de Santo Domingo (1992) e de Aparecida (2007). Em segundo lugar, vinha a leitura comentada da Palavra de Deus como luz para iluminar a realidade do povo e as ações sociais e evangelizadoras a serem tomadas. Coube à Teologia da Libertação, por seu lado, desenvolver o chamado “círculo hermenêutico”. De acordo com este, a Palavra de Deus ilumina a situação real da vida, revelando nela as contradições com o plano da salvação; tal confronto com a realidade de opressão e injustiça interpela e motiva à ação evangélica por mudanças urgentes e concretas; a ação viva e dinâmica leva a uma nova releitura da Palavra, a qual, reveste de nova luz a análise sempre atualizada da realidade. Entrelaçado a esse conceito, seguia-se ainda o método ver-julgar-agir, usado por documentos eclesiais.

Foi a partir dessa consciência esclarecida pelo olhar crítico, pela luz da Palavra de Deus e pelas ciências sociais que as forças de direita começaram a enxergar por toda parte os fantasmas do comunismo. A partir da “ideologia da segurança nacional”, passaram a demonizar todos os opositores do sistema de exploração, fossem eles externos ou internos. Não só isso! Começaram a perseguir, prender, torturar e eliminar quantidades expressivas de estudantes, professores, sindicalistas, jornalistas, líderes populares e agentes de pastoral. Criaram nos distintos países um verdadeiro cemitério comunista. No governo atual em que vivemos, surge a tentativa turva de desenterrar tais fantasmas. Por quê trazer à tona os cadáveres? A resposta é clara: intimidar, neutralizar as forças vivas da transformação social, paralisar qualquer ação. Bem alertava o Mestre de Nazaré: “onde está o corpo, aí se reúnem os abutres” (Lc 17, 37).

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de Janeiro, 30 de maio de 2019

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