Descanse em paz Irmã Veva! A Vida Religiosa do Brasil se orgulha de você. Obrigada pelo seu testemunho!

Por Padre Edegard Silva Júnior| 25.09.13| Estou chegando de Biritinga, região da caatinga da Bahia. Fomos levar uma voluntária que ficou em nossa comunidade por quase dois meses. Voltamos felizes pela acolhida que recebemos e por tantos gestos de partilha que nos faz crer a cada dia, como os pobres são mestres em dividir o que tem. Às 18 horas recebo um e-mail com esta notícia:

 “Acabamos de ter uma notícia triste vinda do Araguaia.

Faleceu essa tarde uma grande amiga dos povos indigenas , a Irmã Genoveva, tratada apenas por Veva, que morou com o povo Tapirapé por 60 anos. Veva foi uma das pioneiras, na vida vivida de missionária, da teologia da inculturação, do CIMI. E de total respeito à cultura e religiosidade dos povos indigenas. Deixou sua França em 1952, e desde entao viveu com os Tapirapé. Uma figura incrível!

Ela morreu do jeito que sempre quis: na aldeia. Os Tapirapé já começaram os cantos fúnebres, ela vai ser enterrada no ritual Tapirapé”

Fiquei profundamente comovido. Acompanho muitos grupos da CRB no processo formativo e, sempre projeto o filme com o testemunho desta grande mulher: “Veva Tapirapé – Verbo Filmes, 18 min”.

Há um mês atrás, falava de profetismo para um grupo de 35 formandos da região de Feira de Santana. Impressionante como a juventude sentiu-se mexida ao ver o testemunho de Veva. Recomendo a quem ainda não assistiu este filme, procure vê-lo, pois continua sendo uma ótima oportunidade para sacudir nossa Igreja, como o Papa Francisco vem nos motivando.

Para quem não teve a oportunidade em conhecer esta pessoa maravilhosa aqui segue um breve relato de Veva Tapirapé.

 90 anos, destes 61 dedicados ao Povo Tapirapé.

Três religiosas da Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus, da Congregação de Charles de Foucauld, chegaram ao Brasil no dia 24 de junho de 1952, com o objetivo de morar junto com os Tapirapé, na aldeia Urubu Branco, próximo de Confresa, em Mato Grosso, numa casa como a dos indígenas, passando a ter a mesma alimentação e o mesmo estilo de vida.

“Ir aos esquecidos, aos desprezados, pelos quais ninguém se interessa”, são as palavras da Irmãzinha Madalena, fundadora da Fraternidade. As Irmãs Genoveva, Clara e Denise, quando chegaram à aldeia Tapirapé, encontraram um povo com cerca de 50 pessoas, sobreviventes dos ataques de seus vizinhos Kayapó.

Após 50 anos de dedicação e comprometimento com esse pequeno povo indígena, os números são outros: cerca de 500 Tapirapé, em sua maioria crianças e jovens, vivem nas aldeias Majtyritãwa, próxima a Santa Terezinha,´Tapiitãwa, Wiriaotãwa, Akara´ytãwa e Xapi´ikeatãwa, na área indígena Urubu Branco, próxima da cidade de Confresa.

O respeito às crenças, ao estilo de vida e aos costumes dos Tapirapé foi o que fez das Irmãzinhas as principais aliadas deste povo durante todos estes anos. As lutas foram muitas e a determinação destas mulheres ainda maior. Certa ocasião assim disse Veva: “Queríamos viver no meio deles, o amor de Deus que não deseja outra coisa senão que vivam e cresçam como Tapirapé”.

Logo na chegada, deram atenção especial à saúde, pois os indígenas estavam muito expostos ao contágio de doenças levadas pelos não-índios. Era a primeira vez que a “fraternidade” se estabelecia numa comunidade indígena em solo brasileiro.

Mas, para chegar a essa nova situação, quanta dedicação, partilha e aprendizagem foi exigida das irmãs que vinham de uma cultura completamente diferente. Apesar de alguns surtos epidêmicos, com a chegada das Irmãzinhas a mortalidade foi reduzida e quase erradicada, devido aos tratamentos curativos e do controle profilático das doenças. Nesse processo todo, as Irmãzinhas sempre respeitaram a maneira de ser dos Tapirapé.

O quase extermínio dos Tapirapé se dá a partir de 1909, quando a população de aproximadamente 2000 índios foi exposta às doenças trazidas pelos não-índios. Epidemias de gripe, varíola e febre amarela acabaram com duas aldeias. Outro agravante da diminuição e dispersão dos Tapirapé, foram as disputas existentes com os Kayapó, que viviam na mesma região. Em 1935, já estavam reduzidos a 130 pessoas e, em 1947, estavam com apenas 59.

Foi nesse ano que ocorreu o grande ataque Kayapó. Aproveitando a ausência dos homens que haviam saído para a caça, a aldeia Tampiitãwa foi praticamente destruída e várias mulheres e meninas raptadas. Com a chegada das Irmãzinhas, em 1952, a situação começa a ser controlada. Com isso, podemos dividir a história Tapirapé em duas etapas – antes e depois das Irmãzinhas.

Desde 1952, quando chegou à aldeia, Genoveva, ou simplesmente Veva, como era conhecida, nunca mais saiu de perto dos Tapirapé. Veva nasceu no dia 19 de agosto de 1923, em Valfraicourt, um lugarejo da França. De aparência frágil, cabelos brancos, há muitos anos acordava todos os dias antes do sol para cuidar da pequena roça que cultiva atrás das casas de taipa da aldeia Urubu Branco.

Das religiosas, Veva é a única Irmãzinha que permaneceu na aldeia desde o começo da missão. Vivia numa casa simples, como as outras dos indígenas, em companhia das outras religiosas.

A maneira como Veva seguia Jesus de Nazaré, sempre inspirou meu ministério. Aos 90 anos Veva será semeada na aldeia onde dedicou 61 anos de sua vida consagrada. Veva que teu testemunho inspire a nós, religiosos e religiosas, a continuarmos nosso peregrinar, as vezes “gemendo e chorando, neste vale de lágrimas”…

Veva, serás agora embalada no colo na Trindade de Ternura, que cantará pra ti as canções que aprendeste com o povo Tapirapé.

Veva, que teu testemunho ajude-nos enquanto Religiosos e Religiosas a fazer acontecer o que priorizamos na nossa última assembleia: a “permanecer com Jesus, que caminha conosco e faz arder o coração, para redescobrir o núcleo identitário da Vida Religiosa Consagrada” e como soubeste tanto fazer, aprendamos com teu gesto a “priorizar a presença missionária e a atuação profética nas situações de fronteira (geográficas, sociais e culturais)”.

Viva Veva Tapirapé!

Padre Edegard Silva Júnior, ms é presidente da  CRB Regional Salvador

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