Religiosa que trabalhou 23 anos no processo de beatificação de Madre Assunta Marchetti, Irmã Laura Bondi, fala sobre as alegrias e os desafios de uma postuladora na causa de uma santa.

Por Rosinha Martins|  Era abril de 2013. Itália. No bairro situado bem no alto da cidade, chamado via Monte Del Gallo, se encontra a casa geral das Scalabrinianas, bem no coração de Roma. Dali se pode avistar a cúpula do Vaticano que, em tom azul se perde divinamente bela em meio as luzes e o azul do céu da cidade eterna, paisagem esta que eleva o espírito à admiração, à oração e à poesia.

Fato é que, a casa em andares, situada neste espaço privilegiado privilegiado, reserva no andar de baixo, uma sala-escritório, silenciosa, que convida à meditação, à reflexão e ao estudo. Foi nesta sala que fui recebida por Irmã Laura Bondi, então postuladora da causa da Madre Assunta, ou seja,aquela responsável por apurar os fatos da vida da serva de Deus e compila-los em defesa do processo de beatificação e comprovação de sua santidade.

Me recordo como se fosse hoje, quando com um imenso entusiasmo, Irmã Laura começou a me contar sobre a sua relação com Madre Assunta por meio da história, dos relatos, dos fatos, das pessoas que fizeram parte da vida da beata. Mostrou-me calhamaços de documentos, textos escritos após as suas andanças e horas a fio de pesquisas e viagens em busca das verdades dos fatos e da fé,  que um dia levariam Assunta Marchetti à beatificação.

De estatura baixa, gente pequena como aqueles pequenos que preferem o ser para que o Cristo apareça,  Laura parecia transpirar e respirar a paixão pela vida, pela obra e pela santidade de Madre Assunta. Com que paixão ela falava desta santa, quase como um reverenciamento diante de tudo aquilo que já havia lido, ouvido e escrito sobre ela. Pareciam ser histórias que ela não só pesquisava, mas que contava e orava. Eu a fitava, sem piscar,  para tentar beber um pouco de tudo o que ela contava com uma paixão, em tom orante  e com um respeito e admiração  por  Madre Assunta até então desconhecidos.

Passamos algumas horas falando sobre esta santa,  das virtudes, das dores, das alegrias e do testemunho que ela foi. “Suor Rosa, aqui várias vezes, rezo, medito e invoco a proteção de  Madre Assunta e conto com a graça e a ajuda de Deus neste trabalho tão importante”, me dizia como quem expressava que estudar, aprofundar, reunir documentos sobre a vida desta santa, era algo como que uma oração. Confesso que não sai dali a mesma pessoa.

Foi essa paixão serena, humilde, sincera de quem quer gritar aos telhados e mostrar para o mundo a vida e a obra de uma santa, de quem experienciou Deus através de uma missão confiada e  assumida com afinco e muito amor, é que me inspirou a entrevistar e a publicar esta conversa com Irmã Laura – da qual jamais me esquecerei – nesta fase da beatificação da serva de Deus. Deixemo-nos admirar pela experiência contada por ela mesma  nesta entrevista.

1. Onde a senhora nasceu?  Quantos anos de vida religiosa a senhora tem?

Nasci nos Alpes italianos, na cidade de Parma, região da Toscana e tenho 43 anos de vida religiosa.

2. Onde e em que tipo de missão a senhora trabalhou todos esses anos?

 Antes de entrar no convento, estudei línguas estrangeiras em Milão, na Universidade Católica. Por muitos anos a minha missão principal foi o ensino nas Escolas de Ensino Fundamental e  Médio na região de Piacenza e Parma, e também atuei na pastoral juvenil e animação vocacional.

Em seguida fui enviada ao Sul  da Itália para uma região muito pobre da Calábria, uma terra de emigrantes. Num segundo momento, depois de um tempo dedicado a atividades próprias do Instituto, pedi para ser enviada a Manila, nas Filipinas,  onde a Congregação havia aberto há pouco uma Comunidade e ali  me foi confiado o serviço de animação vocacional. Ao retornar das Filipinas, fui enviada a Portugal, para  a periferia de Lisboa, uma região de muita pobreza, onde me sentia feliz e foi nesse período que  Superiora Geral,  Irmã Marissônia Daltoé, em 1992 me chamou a Roma para que assumisse a fase romana do processo de beatificação de Madre Assunta Marchetti (1871-1948). Tal tarefa me ocupou a mente e o coração por 21 anos, isto é, até o segundo semestre de 203.

3. Quem foi Madre Assunta?

Madre Assunta é terceira dos 11 filhos de Angelo e Carola Marchetti e pode se definida como uma ótima filha e, ousarei dizer, uma exemplar Irmã Missionária Scalabriniana de primeira hora. Essa deu, de fato, orientação, desenvolvimento, solidez e exemplo de santidade à nossa Congregação no Brasil, de onde não saiu mais nos seus 53 anos de vida missionária.

4. Quanto tempo a senhora trabalhou na causa da beatificação da Madre Assunta?

A fase romana do processo de beatificação de Madre Assunta durou cerca de 21 anos.

5. O que significou para a senhora trabalhar na causa da beatificação de Madre Assunta?

Par mim foi um contínuo exercício de crer que Deus intervém sempre cada vez que um dever supera as nossas capacidades e as nossas forças, porque se trata de um bem para a Igreja, como de fato é a beatificação de um batizado.

6. Quais as dificuldades que a senhora encontrou durante este processo?

Encontrei algumas dificuldades como: pouca  documentação disponível; a distância dos lugares de pesquisa; a quantidade de documentos em língua estrangeira (português) para traduzir, muitos tesmunhos considerados úteis e necessários que desapareceram; horas e horas de trabalho no computador, etc. Às vezes dificultou também a confissão religiosa particular de algum testemunho, criando equívocos a serem esclarecidos e justificados à Congregação para a Causas dos Santos como obstáulos no caminho do Processo. Muitas vezes senti que só podia esperar na ajuda de Deus, convicta sempre, porém, que esta não me podia faltar, porque enfim, uma postuladora não trabalha para outra coisa, senão para a glória do Senhor.

Frequentemente experimentei os meus limites, sobretudo quando não consegui encontrar nem a forma, nem o modo de esclarecer, de dissecar conteúdos complexos que não consegui expor no papel de maneira credível (verificar biografia documentada da Serva de Deus; 57 testemunhos de pessoas que ainda vivem; quase 300 documentos de vários tipos; a documentação completa do milagre (depoimentos e  documentações médicas), a tradução para o italiano de todo o dossiê referente  ao milagre  que era enviado do Brasil;  a análise grafológica;  o Summarium da Positio  e do Milagre, etc.)

7. Trabalhando e pesquisando sobre a vida de Madre Assunta que fato mais a marcou?

O que mais me marcou na vida de Madre Assunta foi a solidão na qual ela se encontrou quando, a três meses da morte do irmão padre José, a sua mãe, Carolina Marchetti retornou à Itália. B. O silêncio heróico com o qual a Irmã Assunta diante da ausência de resposta por escrito do Fundador, Monsenhor Scalabrini à sua forte e exaustiva carta de 1900, depois de alguns meses de chegada a São Paulo das Apóstolas do Sagrado Coração. Ainda o seu longo espaço de silencio, mesmo com o seu orientador espiritual a cerca da terrível situação, humanamente insustentável, na qual se encontrava, quando, ao fim do seu primeiro mandato como geral, foi transferida para o Sul do Brasil.

8. Como a senhora se sentiu e sente ao saber que a beatificação de Madre Assunta foi aprovada?

Sinto a  alegria de poder experimentar que, realmente, Deus não abandona jamais os pobres, os pequenos, os incapazes, aqueles pouco qualificados, como sempre me senti, nos 21 anos de trabalho para o Processo de beatificação de nossa arqui-caríssima co-fundadora, como também a alegria de poder oferecer à Igreja, ao mundo e à Congregação o inestimável dom  da Beata Madre Assunta Marchetti.

9. Que importância teve Madre Assunta no processo de aprovação da Congregação como Instituto Religioso?

O segundo governo sábio e humilde de Madre Assunta como superiora geral não só contribuiu para render à nossa Congregação o Direito Pontifício. Na verdade a Congregação teve naquele tempo  um desenvolvimento numérico de religiosas, das obras e das vocações e, finalmente harmonia em todos os seus setores, harmonia que falava de um verdadeiro nascimento seja espiritual, seja missionário.

10. O que mais te impressionou na vida de Madre Assunta? Qual a importância desta santa para os dias atuais?

Tantas coisas me causaram admiração em Madre Assunta e sobretudo a sua capacidade de sofrer sem perder a paz e o equilíbrio porque,  interiormente motivada, a tenacidade em rezar, no viver rezando. Não obstante  o grande empenho no trabalho cotidiano, o seu saber estar com tranquilidade no último lugar, embora Deus lhe tenha  dado muitas vezes cargos de muita responsabilidade,  os quais ela aceitou com dificuldade, sim, mas com simplicidade e submissão.

Em nossos dias Madre Assunta nos ensina a dependência total a Deus,  a confiarmos Nele sem reservas, a sentir a vita como um dom que Ele nos dá, que  Ele nos criou por amor e que quer sempre o nosso verdadeiro bem.

11. Poderia contar brevemente, o que foi este trabalho?

Ante de tudo, um buscar sempre a interpretação mais verdadeira e mais justa, uma constante avaliação correta  e  valorização de cada detalhe, sem distanciar-se mais da convicção de que tudo é precioso e que um pesquisador não pode negligenciar nada, nenhum detalhe. Meu trabalho como postuladora significou também, aprender a ver as maravilhas que Deus realiza nas criaturas que creem Nele sem reserva e saborear a alegria de constatar que a Providência soube por, sabiamente no início do nosso Instituto uma coluna sólida e edificante como Assunta Marchetti.

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