O ser humano não deve ser um elemento à parte da criação, mas constituir o todo da sociobiodiversidade da criação

Por Osnilda Lima, fsp – Signis Brasil| 11.11.14| No centro, sobre a terra, duas imagens esculpidas em madeira. Uma, a mãe gestante. A outra com o filho nos braços. Ambas com traços indígenas, ajoelhadas em atitude de contemplação à vida. E ao som natural dos pássaros que sobrevoavam em algazarra por sobre o jardim arborizado das Pontificas Obras Missionária, em Brasília (DF), os participantes do Encontro Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), reunidos entre os dias 8 e 12 de setembro de 2014, começaram o dia da quinta-feira (11), em oração.

Com elementos da tradição do povo Quichua Amazônico, que habita especialmente os territórios do Equador, Colômbia e Peru, foi oferecido a Guayusa, uma espécie de chá. Na madrugada, antes de o sol poente, o povo Quichua se reúne. O chá é servido pelas mulheres e os membros da comunidade partilham os sonhos que tiveram no decorrer da noite. Esses são interpretados pelos sábios da comunidade, geralmente os mais velhos.

Com essa motivação, os participantes REPAM, partilharam os sonhos que têm para a com Amazônia. Sonhos e esperanças compartilhados, deu-se início à Celebração Eucarística com a presidência de dom Francisco Nieto, bispo San José Del Guaviare, Colômbia.

E nessa perspectiva de olhar a criação e ser a criação, os trabalhos da Repam  tiveram continuidade com o tema principal “O papel e a missão da Igreja na ecologia e a Pan-Amazônia’ a partir dasreflexões de Tebaldo Vinciguera, da Conselho Pontifício da Justiça e Paz, com o mote: A visão do Conselho Pontifício “Justiça e Paz” sobre a Ecologia e a reflexão do padre Raimundo Possidônio, historiador e membro da Arquidiocese de Belém (PA), com tema Pan-Amazônia e a experiência Eclesial. (Acesse  link no fim desta matéria).

Tebaldo Vinciguerra apresentou a partir da missão do Conselho Pontifício Justiça e Paz a discussão sobre o respeito à ecologia: os problemas, as causas e as “falsas” soluções. Em seguida sugeriu propostas.

Um dos grandes problemas apontados por Vinciguerra é a exploração desenfreada dos recursos naturais e os problemas socioeconômicos gerados dessa prática. Ele citou exemplos como a violência e a corrupção do tráfico de aves e animais exóticos, madeira e minerais, que na maioria das vezes são financiados por grandes forças econômicas.

Outro problema é o socioeconômico que gera conseqüências negativas e novas formas de latifúndio e controle da terra incide diretamente à questão alimentar. Problemas esses, segundo Vinciguera, que agridem os pequenos agricultores, sobretudo, dos países mais pobres. Incidência ocasionada pela exploração desordenada dos recursos naturais fundamentais e políticas econômicas internacionais predatórias.

Segundo Vinciguera a má distribuição dos recursos naturais, como a água, a comida, as sementes, a energia, gera uma crescente demanda. No entanto, torna-se um produto de extremo valor. O acesso está restrito e a grande maioria excluída da garantia das necessidades básicas. De acordo com Vinciguerra, isso leva a uma espécie do Século da Batalha, em que os mais pobres precisam empreender uma batalha de pela sobrevivência. Do outro lado, existe a batalha dos que consomem, desperdiçam, poluem.

Essa batalha gera a saturação e expulsão da casa comum, a natureza, e ao mesmo tempo se caminha para a destruição da família humana. Vinciguerra lembra o papa emérito Bento XVI, convocou os cristãos a terem de proteger também o homem contra sua própria destruição. “Então a questão ambiental é fundamental, é antropológica”, enfatiza.

“Como chegamos e essa situação?”, questiona. Ele retoma uma expressão do papa Francisco que apresenta três tipos de éticas ideologizadas. A primeira é a ética do tecnicismo predatório. O ser humano confia em suas tecnologias e ferramentas e se considera o absoluto diante da natureza.

Bento XVI foi novamente citado: “Nós somos testemunhas de como o progresso em mãos erradas pode tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso terrível no mal. Se o progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem no seu crescimento interior, então não é progresso, mas uma ameaça para o ser humano e para o mundo”.

 A segunda ética é a da irresponsabilidade, da superficialidade, do hedonismo. Nessa,  os valores do ser humano são substituídos pelos do ter. Para o assessor, isso leva a uma liberdade irresponsável, pois segue critérios individuais. Estado, empresas e indivíduos empreendem e falam o que querem a partir do que os seus desejos lhe sugerem e a partir de suas possibilidades econômicas ou políticas permitem.

Não há preocupação com as conseqüências das ações sobre a natureza e com os demais. Não se dá importância às implicações de um estilo de vida consumista. Não se averigua a origem dos produtos que são adquiridos. “Essa é a liberdade do individualista. A imagem de uma cultura que vive a globalização da indiferença”, afirmou.

A terceira equivocada ética, enfatiza, consiste em viver unicamente ao critério da ganância pela ganância. “Somos testemunhas da ditadura da economia. Sem rosto e sem objetivo verdadeiramente humano e que reduz a pessoa a uma de suas necessidades, o consumo. E que põem ao humano estar a serviço da economia e da ganância de alguns”, assevera.

Ainda, segundo Vinciguerra, esse conjunto de equivocadas éticas vai transformando a casa comum, a terra, em espaço cada vez menos acolhedor e saturado”.

Com isso aparece as falsas soluções. Vinciguerra afirma que hoje é uma época com forte conscientização a respeito do que é ser uma pessoa ecológica. Mas lamentavelmente, às vezes, se buscam falsas soluções, e essas se propõem como caminho mais fácil para as soluções dos problemas.

Uma das falsas soluções se dá com relativismo. Os que desiludidos com a estéril mentalidade hedonista ou consumista, até percebem, sim, a importância da natureza e o tamanho dos perigos que a ameaçam, mas nada fazem. Outra é a de que a solução para tudo se resolve com enfoque econômico e, por fim a tecnicista, que tudo pode resolver.

Para isso, Vinciguerra, adverte para a necessidade de aprofundar, educar e propor os ensinamentos ou testemunhos a partir da Doutrina Social da Igreja, que sugere a destinação universal dos bens e dos recursos naturais à humanidade, ao bem comum da família humana e seu desenvolvimento integral.

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