Por Rosinha Martins|14.08.14|  A Igreja do Brasil está prestes a celebrar a beatificação de mais uma candidata à santidade que deu a vida pelos mais necessitados em terras brasileiras. Trata-se de Assunta Marchetti, uma missionária italiana que decidiu acompanhar seus compatriotas que,  em meados do século XIX, buscavam melhores condições de vida nas Américas e de maneira específica no Brasil.

Em entrevista concedida à assessoria de comunicação da beatificação, o assessor da CNBB para a Mobilidade Humana e para a Missão Continental, o missionário scalabriniano, padre Sidney Dornelas, falou sobre o significado da beatificação de Madre Assunta para a América do Sul e a importância da mesma em contexto de um grande fluxo de deslocamento de imigrantes que chegam ao Brasil e de um grande número de crianças que se tornam protagonistas no processo migratório e, sozinhas, buscam melhores condições de vida nos EUA.

Padre Sidney, que importância teria a beatificação de Madre Assunta no atual contexto das migrações no Brasil e no mundo?

Sidney – Em primeiro lugar porque coloca em evidência o cuidado dos migrantes como tarefa da Igreja. A Madre Assunta é um exemplo de cuidado aos migrantes, especialmente os mais frágeis, os órfãos e a memória dela representa justamente o cuidado da Igreja em relação a este fenômeno contemporâneo das migrações. Mais do que nunca, a migração hoje se apresenta como uma necessidade, principalmente esta que estamos presenciando hoje e que nos lembra a, denominada pelo vocabulário do direito internacional, ‘crise humanitária’.

Não são mais comunidades que vem com família, ou seja, uma  migração de povoamento. A migração ainda tem esse caráter na medida que eles conseguem fixar residência em algum lugar, mas se percebe hoje que grande parte das migrações ou é devido à crise econômica ou à crise de guerra, de violência de todo tipo e  crise ambiental.

Como se dá a seu ver, este fenômeno migratório?

Sidney – Se percebe que boa parte dessa migração se dá  em situações terríveis de condição de saúde, de trabalho, explorados no meio do caminho por todo tipo de explorador; os chamados coiotes ganham com o  tráfico de pessoas, o qual está em evidência. Ao lado disso, quantas mulheres que migram sozinhas, e atualmente a presença de crianças migrantes desacompanhadas, crianças em busca dos pais ou devido a crise econômica, mas também, por causa da violência.

Qual a origem destas crianças que viajam desacompanhadas em busca de melhores condições nos EUA?

Sidney –  Os três países da América Central  de onde elas vem,  fugindo da violência nos seus países de origem são  Honduras, Guatemala e El Salvador.

 Um dos problemas em Rio Branco-AC, que causa comoção, é que,  junto aos haitianos que ali chegam tem muitas crianças, jovens abandonados, desacompanhados que os coiotes os atravessam para que possam se ajuntar aos pais. Esses migrantes cada vez mais têm dificuldades de encontrar oportunidade de inserção.

Como você enxerga a beatificação de  Madre Assunta neste contexto?

Sidney –  Dentro deste contexto, a beatificação de Madre Assunta –  mais que uma religiosa e missionária –   coloca em evidência um testemunho diante de uma necessidade que é cada vez mais atual,  que é justamente, não só dar assistência social,  mas poder encarar e enxergar  as pessoas que estão nesta situação de precariedade tão grande, que se deslocam, como pessoas humanas que merecem aquilo que esperamos dos Religiosos e Religiosas, ou seja, valorizar a pessoa humana, o Cristo que está em cada uma delas, independente da religião que traga consigo: crianças, mulheres, pessoas traficadas que sofrem violência e que precisam de oportunidade para recuperar sua dignidade.

O senhor acredita que  Madre Assunta sinaliza algo neste sentido?

Sidney – Sim. Madre Assunta pode ser um sinal, como  alguém que dedicou toda a sua vida ao cuidado pessoal daqueles que são os mais frágeis, sinal de como a Igreja dever orientar o seu cuidado pastoral com as pessoas mais fragilizadas.

Como relacionar o protagonismo de crianças desacompanhadas que se vem no direito de buscar, sozinhas, a realização dos seus sonhos nos EUA com o protagonismo de Madre Assunta no serviço às crianças órfãs do passado?

Hoje está na pauta a questão das crianças migrantes desacompanhadas e  isso é, sem dúvida nenhuma mais um capítulo dessa migração forçada, dessa mobilidade humana descontrolada que temos hoje em dia cujos mais fragilizados são as crianças, as famílias e  as mulheres. Madre Assunta nos lembra que isso não é uma pauta de antigamente e que hoje exige um esforço renovado da Igreja para dar atenção para essas pessoas que são os desenraizados de hoje e que no trajeto da migração sofrem mais violência ainda.

Como o senhor lê a permanência em massa de imigrantes ganeses no Brasil após o Mundial de Futebol?

Sidney –  É um fenômeno migratório relevante e se pode perceber que os migrantes procuram qualquer oportunidade para se deslocarem, para vencerem a barreira da migração e isso aparece onde se menos espera. Ninguém esperava que a migração dos haitianos acontecesse pela fronteira amazônica; que a Copa do Mundo fosse oportunidade para africanos pedirem asilo, refúgio, oportunidade de trabalho no Brasil. Isso aparece e é difícil para a Igreja, por exemplo, fazer um planejamento. É a chamada crise humanitária que aparece onde menos se espera e a nossa posição como scalabrinianos/as é relevante porque já estávamos lá. Por exemplo, foi relevante estarmos em Manaus, foi relevante estarmos fortemente presente no sul do Brasil para onde,  grande parte desses migrantes estão se dirigindo, no caso de  Caxias do Sul e é relevante estarmos aqui em Brasília.  E eles chegam  no improviso, de forma  inesperada, e demandando esse cuidado mínimo.

E qual seria, neste caso, o maior desafio?

Sidney –  O grande desafio à medida que estes grupos se fixam, se é que se fixarão  – porque depende da acolhida e da possibilidade  de inserção-  é criar comunidade, a grande meta da Igreja, pois para além de toda assistência que se possa dar,  o objetivo da missão e de todo cuidado pastoral é que eles possam se organizar de maneira estável formando comunidade e o sonho nosso, como Igreja, é que se organizem como comunidade de fé..

Neste contexto apresentado para o senhor, qual deve ser o perfil de um missionário/a  scalabriniano/a a serviço dos migrantes?

Sidney –  O grande desafio para nós religiosos é se desinstalar. Uma estrutura mínima todos nós precisamos como consagrados, mas diante do mundo em mobilidade temos que ter uma estrutura que seja como uma tenda que se arma aqui , desarma, e arma lá, ou seja, um modo de vida simples, o mais disponível possível e o mais capacitado possível para poder estar antenado e ter condições de atender a essas necessidades. Devemos nos perguntar sobre o como fazer para que as estruturas que  temos sejam aptas para o serviço desse tipo de realidade nova que surge a cada momento.

 O perfil do scalabriniano/a  é o  da desinstalação, do peregrino. Querendo ou não o grande desafio da vida consagrada hoje, é que temos um lado institucional ainda muito rígido, muito pesado, muitas vezes fechado e que não nos permite estar atentos, vigilantes e disponíveis para esta realidade nova que está surgindo. Deveríamos,  como scalabrinianos/as,  ser testemunhas e sinais neste sentido.

Que significado tem celebrar a beatificação em terras brasileiras?

A beata que é celebrada na América Latina, fora do centro do poder, perto dos confins do  mundo,  como falava o Papa Francisco, é sempre um sinal muito relevante para a própria Igreja, uma Igreja em saída, saída do centro em direção periferias.

Madre Assunta na TV, nesta sexta, 15

A Congregação das Imãs Missionárias de São Carlos Scalabrinianas celebram nesta sexta, 15,  o aniversário natalício de Assunta Marchetti, co-fundadora.

Uma reportagem especial na Rede Vida de Televisão e Canção Nova de Brasilia, faz, em rede nacional, uma homenagem à beata Madre Assunta Marchetti.

Assista: Rede Vida no JCTV, às 18h30 e na Canção Nova Noticias às 19h e pela internet no site: brasilia.cancaonova.com

Fonte:  Equipe Asscom da beatificação

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