NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES

Trata-se de todos nós do presente e do futuro da família humana

 

O 105º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado –  DMMR 2019,  pela primeira vez celebrado a 29 de setembro, continua o seu firme propósito de sensibilizar para as potencialidades e necessidades do fenômeno migratório. O Santo Padre pede em primeiro lugar à Igreja, Povo de Deus, e também a todos os cidadãos de boa vontade, que se deixem interpelar pelo tema “Não se trata apenas de migrantes”.

Ao longo de sete meses a Secção Migrantes e Refugiados confiou às Conferências Episcopais do Mundo, uma campanha multimédia em diferentes línguas, a fim de que fosse amplamente difundida,  a partir da palavra de Deus, do Magistério e de boas práticas, foi ilustrando que urge e é possível sonhar e construir um outro lugar, uma sociedade renovada.

 A mensagem Pontifícia foi sendo apresentada gradualmente em subtemas, que vale a pena guardar e certamente nos acompanharão ao longo deste ano pastoral: trata-se dos nossos medos, da caridade, da nossa humanidade, de não excluir ninguém, de colocar os últimos em primeiro lugar, da pessoa toda e de todas as pessoas, no fim trata-se de um caminho que nos exorta à reflexão e conversão, a fim de que edifiquemos a cidade de Deus e do Homem, de forma consciente e comprometida.

Este itinerário que parte do pessoal, atravessa o comunitário até ao nível dos Estados-Nação, visa romper as diversas etapas dos conceitos de fronteira: nacionalismos populistas, leis restritivas e excludentes, xenofobia e racismo, medos, individualismos e indiferenças que atualmente se erguem e ameaçam o nosso futuro enquanto família humana.

Aceitando o desafio da Secção Migrantes e Refugiados – SMR, de colaborar com as Conferências Episcopais do Sul, a Comissão Episcopal da Pastoral Social Mobilidade Humana – CEPSMH, através das suas estruturas nacionais – Obra Católica Portuguesa de Migrações – OCPM e Cáritas Portuguesa, tomou a liberdade de convidar o Pe. Alfredo Gonçalves, sacerdote scalabriniano, e assessor para a mobilidade humana da Conferência Nacional de Bispos do Brasil, a proferir várias conferências para um público diversificado em várias Dioceses e a conceder entrevistas aos meios de comunicação social.

De 23 a 29 de Setembro, as dioceses de Setúbal, Bragança e Santarém com a colaboração de secretariados diocesanos de migrações e caritas diocesanas, puderam contar e beneficiar de uma grelha de leitura da mensagem do Papa, e um método para diagnosticar e tratar as migrações como uma oportunidade para o desenvolvimento pessoal, comunitário até à escala planetária.

No dia 24, em Setúbal na paróquia de Amora – salão da Igreja Scalabrini, o Pe. Alfredo Gonçalves apresentou aos paroquianos o seguinte itinerário: Trata-se da nossa identidade, trata-se de mudanças históricas, trata-se das desigualdades sociais, trata-se de uma legislação anti-migratória, trata-se da nossa casa comum.

No dia 27, em Bragança, no Instituto Politécnico: o itinerário proposto aos estudantes e professores de cursos profissionais foi o método dos 4 “R”. i) Rostos, ii) Rotas,  iii) Raízes e iv) Respostas. Para cada ‘R’ existe uma pergunta  que nos permite fazer o diagnóstico local e global: Quem são as pessoas? De onde vem para onde vão? Porquê se movem? Que respostas podem dar? E como fazê-lo?

Ao procurar responder a cada uma das perguntas resulta um diagnóstico que se traduz: numa fotografia  – Quem? Num mapa  – De onde? E para onde? e numa radiografia  – Porquê? Que nos permite pensar e desenhar respostas adequadas às necessidades locais e globais, e perceber como podemos envolver e interligar os diversos atores essenciais: Estados, Sociedade Civil, ONG, Cidadãos Migrantes, Instituições Religiosas, na construção de um mundo mais justo e fraterno

No  dia 28, em Santarém na presença do seu bispo, D. José Traquina, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, na sala dos Atos da Casa Diocesana, a conferência, manteve como pano de fundo a mensagem pontifícia, apresentando os desafios pastorais dela resultante. Em presença estiveram vários responsáveis nacionais e diocesanos pela pastoral dos migrantes, social e educação cristã.

Importa frisar que após uma breve contextualização histórica, concluímos que a questão social e a questão migratória enquanto objeto da solicitude da Igreja nascem juntas, o que nos conduz a entender e atuar sobre a complexidade migratória de forma articulada e colaborativa.

As migrações, embora sempre tenham existido, são sinal dos tempos hodiernos, e apenas a ponta do iceberg, de algo muito maior, intenso e complexo que nos permite de uma forma interdisciplinar perceber as mudanças e encruzilhadas sociais desta globalização que exclui, descarta e mata os mais vulneráveis.

Como ultrapassar as dimensões de fronteira? Como construir pontes? Para que as pessoas tenham direito a uma vida digna e justa? Como salvar as vidas ameaçadas por leis e nacionalismos exacerbados, por culturas e religiões que alimentam a xenofobia e o racismo, por medos, egoísmos e indiferença? Como criar consciências mais maduras, pessoas mais capazes de se abrir aos outros, relacionar-se sem medo do confronto e do diálogo? Enfim pessoas capazes de se aventurar e arriscar criando espaços físicos e mentais que permitam o encontro  e o convívio, possibilitando pessoas mais capazes de se abrir ao transcendente.

O migrante foi-nos apresentado como critério de salvação é ele quem nos pergunta onde está a caridade, onde está a humanidade? É na medida que eu me envolvo/comprometo que eu me salvo.

A celebração deste DMMR, agora no início do ano pastoral é um convite e uma oportunidade para colocar verdadeiramente os migrantes e refugiados no coração da Igreja, isto é na nossa agenda pastoral Diocesana e paroquial, como anseia e exemplifica o Papa Francisco. Serve este dia para nos recordar a transversalidade das migrações com outros sectores da pastoral, reconhecendo  força e a responsabilidade do trabalho colaborativo e interligado. A complexidade e a intensidade das migrações assim o exigem, é urgente romper fronteiras e construir pontes, dentro das nossas estruturas eclesiais. 

As pessoas em contexto de mobilidade humana contribuem para nosso amadurecimento na fé e compromisso de transformação eclesial e social.  Com elas aprendemos o dom e a riqueza da diversidade, seja através da nossa Diáspora portuguesa, de modo particular os que celebram 25, 40, 50 anos de vida comunitária, os que regressaram ou estão a ponderar regressar, os imigrantes que escolheram o nosso país para recomeçar, cuidar da saúde, realizar-se pessoal e profissionalmente, os estudantes internacionais, os refugiados e requerentes de asilo que buscam um lugar seguro, as vítimas de tráfico, deslocados internos.

 Como nos diz o Santo Padre na sua imensa ternura e sabedoria: “Queridos irmãos e irmãs, a resposta ao desafio colocado pelas migrações contemporâneas pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Mas estes verbos não valem apenas para os migrantes e os refugiados; exprimem a missão da Igreja a favor de todos os habitantes das periferias existenciais, que devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Se pusermos em prática estes verbos, contribuímos para construir a cidade de Deus e do homem, promovemos o desenvolvimento humano integral de todas as pessoas e ajudamos também a comunidade mundial a ficar mais próxima de alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável que se propôs e que, caso contrário, dificilmente serão atingíveis.”

 

Santarém, 28 de setembro de 2019

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